O encontro entre Cervantes, Picasso e Dalí

Residi em Madri por quatro anos e o meu primeiro amigo foi o senhor Antonio, que vendia livros numa manta em frente a Faculdade de Ciências da Informação, da Universidad Complutense de Madrid.

Ali, sempre em conversas curtas e profundas, enquanto seu Antonio vendia seus livros a preços baixos e justos, segundo ele, confirmei algo que já havia pensado antes: o livro escolhe você.

Esse axioma é encontrado no enredo de “A sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, com a ideia central da proteção dos livros, em uma Espanha marcada pela maldição dos textos literários, fogueiras de tudo que fosse subversivo e publicado contra o regime franquista, vencedor da Guerra Civil Espanhola e protetor da nova e exterminador da ‘velha’ Espanha.

As ditaduras, em todos os seus tempos, sempre consideram os livros um inimigo público.

O cemitério dos livros esquecidos, criado por Zafón, é o guardião de cada exemplar ‘maldito’, em algum ponto da Barcelona escurecida pelo franquismo.

E cada livro protegido carrega os sentimentos daqueles que o leram e o protegeram. Cada guardião, que entra no cemitério dos livros esquecidos, escolhe um livro e deve protege-lo com a vida, literalmente. Mas como Daniel Sempere aprende e replica, o livro escolhe você e não o contrário.

E quando entramos em uma livraria e/ou sebo o mesmo ocorre, mesmo que não nos fixemos nesse detalhe.

Comigo ocorreu algumas vezes e, três delas com Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes.

Encontro dos sonhos


Ilustração: “Dom Quixote entre livros e sonhos”, de Gustavo Doré

A primeira foi na praça dos Andradas, em Santos-SP, quando entrei em uma banca de livros usados, empoeirados e amontoados. Depois de horas lá dentro, com recursos escassos, me deparei com um tomo grande, de cor marrom e depois de subi em uma escada consegui encontra-lo. Lá estava Dom Quixote, ilustrado e em dois volumes.

A segunda e a terceira ocorreram em Madri. Eu vinha caminhando pelo bairro das Letras, onde viveu Cervantes, Lope de Vega e Quevedo. Aliás, Cervantes e Lope de Vega viveram na mesma rua.

O bairro das letras, para qualquer aficionado por literatura é um encanto. Além do ambiente boêmio e tradicional, pelas ruas há diversas passagens gravadas com letras douradas no chão, de diferentes autores e autoras espanhóis.

Entrei em uma pequena livraria escondida, escura, com livros amontoados, mas limpos e organizados. E lá estava outro livro de capa marrom, mas com muito estilo e brio: a edição do quarto centenário de Dom Quixote, fac-símile da 1ª edição de 1605.

Um escândalo de beleza, com ilustrações de Gustavé Doré e quadros do Museu do Prado. Uma pequena fortuna para um estudante de doutorado, bolsista da Capes.

O terceiro e último veio através de uma reportagem que um amigo me envio, “A galinha dos ovos de ouros” da minha biblioteca: Dom Quixote ilustrado por Salvador Dalí. Um encontro de dois gênios quase 350 anos depois.

Dalí aceitou o convite da editora Random House de Nova Iorque, onde residia nos fins dos anos 1940, através da The Illustrated Modern Library. A primeira edição do livro é de 1946.

Falar do valor da edição e da importância de Cervantes e Dalí é desnecessário, o importante é relacionar o gênio de La Mancha com o de Figueres.

Este encontre ocorre nos sonhos e devaneios do cavaleiro da Triste Figura, o maior cavaleiro andante de todos os tempos: Dom Quixote de la Mancha.

Sancho Pança sendo manteado em uma pousada

A maldição das fogueiras

O dia 23 de abril é data escolhida pela Unesco para celebrar o dia do Livro. Nessa data se comemora o nascimento (1564) e as mortes de Shakespeare e de Cervantes (1616).

Para o Unesco, os livros são essenciais, um direito de todos para formação cultural e o desenvolvimento humano.

O que torna as fogueiras ditatoriais e a proibição de livros, seja por decreto ou por pressão presidencial, uma maldição. 

Uma interpretação sobre a obra maestra de Cervantes pode-se enveredar na direção de que Dom Quixote vive em um sonho, ou mais precisamente, está na sua gigantesca biblioteca, e viajando nas páginas dos livros de cavalaria, seu gênero favorito.

E através dessas páginas, faz a sua viagem pela Espanha com seu Rocinante e acompanhado do seu escudeiro, Sancho Pança e seu burro.

Neste universo de imaginação, ocorre todas as peripécias e aventuras do cavaleiro andante que segue o caminho, fazendo também um mapa geográfico da Espanha e de toda a diversidade do período intitulado “Século de Ouro” das artes, que elevou a Espanha ao maior patamar de produção artística, talvez, de todos os tempos. 

Essa interpretação ganha força quando Salvador Dalí ilustra Dom Quixote e trata em diversas gravuras a parte de dentro da cabeça de Dom Quixote, permitindo que nós vejamos o que está dentro dela, já que Cervantes nos faz enxergar o que o cavaleiro da Triste Figura vê.

Na ilustração abaixo, a do episódio mais famoso da obra, o Quixote observa o moinho de vento e vê a cena ocorrer como descrita por Cervantes, mas como um expectador também.

Delírio e imaginação

Ilustrações de Dalí vertem a um sonho vivido pelo personagem principal. A interpretação de que o Quixote sonha em seus delírios ou viaja nas páginas dos livros que lê é aceitável.

Mas como explicar as experiências de Sancho? Será que ele sonha o mesmo sonho do Quixote? Não.

Para mim, tudo que ocorre a Dom Quixote e Rocinante e a Sancho e seu burro, é a verdade, por mais surreal que possa ser. Sou dos que acham que Dom Quixote tampouco estava louco e delirando, e seu contato com tantos personagens demonstram isso.

O maior delírio dele é o amor por Dulcineia, mas, neste campo, quem nunca se apaixonou de maneira platônica ou visualizou uma paixão por alguém que não existia realmente? Todos, especialmente, quando os amores passam.

Dom Quixote de la Mancha ocorre em um campo que Salvador Dalí entende perfeitamente: o do surrealismo, do sonho, delírio e da imaginação.

Se popularizou a expressão: “surreal” para descrever algo inacreditável. Mais nem tudo que é inacreditável é surreal, ainda mais em estilos artísticos.

No caso da obra de Cervantes e da de Dalí, elas podem se aproximar, e o surrealismo é o estilo perfeito para superar o real, exprimir a espontaneidade do pensamento artístico e a abstração dos sonhos que temos ao dormir.

Nem tudo pode ser entendido, mas a maioria faz sentido, de acordo com cada olhar.

O livro dos livros

O que faz Dom Quixote ser o livro dos livros, nos dizeres de Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, e de tantos argumentos a favor a obra de Cervantes, é o fato da modernidade e da inauguração do romance de literatura nos moldes em que conhecemos.


Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares, 29 de setembro de 1547 – Madrid, 22 de abril de 1616

Além do mais, todos os capítulos de Dom Quixote de la Mancha podiam ser um livro à parte. Histórias que parecem desconectadas e unidas somente pelos personagens principais, e seus interlocutores, mas que na verdade estão verdadeiramente unidas em seus sentimentos.

Além disso, Cervantes faz uma radiografia de todas as Espanhas, em seu auge colonizador, o primeiro império que o sol nunca se punha, mas que em suas fronteiras, apesar da abundância de ouro e especiarias, e de um alto nível cultural, apresentava pobreza, injustiças e desiquilíbrio social, como ocorre em todas as partes do mundo, onde umas regiões se desenvolvem mais que outras.

E Cervantes fez isso em 1605 e, no segundo volume da obra, em 1615, apresentando para todos os povos da Espanha, o que era e como eram seus vizinhos.

Saindo da comunidade de Castilla y la Mancha, subindo por Toledo e terminando na Catalunha, em Barcelona, na maior batalha da história entre o cavaleiro da Triste figura e o cavaleiro da Branca Lua – uma espécie de Barcelona e Real Madrid do século XVII, com o Quixote com a 10 azul-grená.

Picasso e Dom Quixote

Salvador Dalí ilustrou uma edição de Dom Quixote, mas é de Picasso uma das imagens mais icônicas e reproduzidas da obra de Cervantes.

Passeando pela Espanha, mas especialmente por Madri, precisamente na Praça Maior, muitos artistas de rua vendem quadros diversos sobre paisagens espanholas ou suas criações. Quase sempre há uma imagem de Dom Quixote e Sancho Pança.

E o que poucos sabem é que estas imagens ou são inspiradas ou reproduções em um desenho de Pablo Picasso, que também tem seu encontro com Cervantes.

Picasso fugiu do seu estilo, coisa que nunca o fazia, só quando se reinventava depois de extrapolar todos os limites e possibilidades de suas diferentes fases, e criou esta ilustração para a revista Les Lettres Françaises em comemoração aos 350 anos de Dom Quixote, em 1955.

Não haveria um lugar comum melhor para o encontro destes três gênios que o universo quixotesco. E por mais que Dom Quixote tenha sido escrito há 400 anos, ele segue atual porque as causas perdidas sempre moveram a humanidade.

E os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos, já estavam declaradas pelo fidalgo Dom Quixote de la Mancha, entre eles a liberdade, por qual vale a pena lutar e morrer, já que é o maior presente dos deuses aos homens, em dizeres do cavaleiro, e a justiça social como direitos fundamentais, independente de raça, credo e gênero.

E em momentos políticos como o atual, de revisionismo, saudosismo ditatorial e obscurantismo de informações públicas, ser um quixotesco e acreditar na melhoria da sociedade é fundamental.

Antes do Renascimento, o homem só copiava e interpretava. Somente Deus criava. Nessa questão, Cervantes criou o alicerce da magia dos livros e de uma história apaixonante. E Dalí e Picasso o interpretaram, transformando suas palavras em ilustrações e quadros.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Raul Pacheco 28 de Abril de 2019 22:15

    Sensacional. Parabéns pelo texto.

  2. Bruno Rebouças 29 de Abril de 2019 15:38

    Obrigado, Raul. Um abraço.

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