Chá e antipatia

Por Sérgio Augusto
Estadão

Sem Sarah Palin, diva caipira da direita, o saco de gatos que é o Tea Party não conseguiria levar a Nashville um décimo da imprensa que levou

Como Drácula, Sarah Palin não desencarna. A mídia a enxovalhou, o eleitorado a repudiou, mas só alhos e crucifixos não a farão desaparecer para sempre do cenário político. Com ela, só mesmo uma estaca no coração.

A pit-bull de batom é um fenômeno de sobrevivência. Sua irresponsável renúncia ao governo do Alasca foi saudada pelos fãs como um gesto de coragem e premiada com um milionário emprego de comentarista na TV (Fox News, onde mais?). Sarah publicou um livro que ninguém leu, mas virou best seller. No dia 6 embolsou US$ 100 mil por um discurso que não valia mil guaranis, numa convenção do Partido do Chá, em Nashville (Tennessee).

Não foi uma apoteose, como na convenção do Partido Republicano que sacramentou sua candidatura na chapa de John McCain, mas passou perto. Uma certa América a idolatra. Sarah tornou-se a cinderela dos ativistas conservadores, a diva caipira da direita, a nêmesis das elites, a estrela mais cintilante da galáxia republicana. Sem ela, a convenção do Partido do Chá não teria atraído um décimo da imprensa que para Nashville se mandou no dia 5. Sarah era a ameixa que faltava no flã dos chasistas.

Partido é força de expressão, wishful thinking. O Tea Party que os chasistas montaram ainda é apenas um movimento. Seu nome é um tributo à histórica revolta dos colonos de Massachusetts contra as autoridades inglesas, quando a coroa britânica concedeu o monopólio do comércio do chá à Companhia das Índias Orientais, prejudicando os comerciantes americanos. A insurreição culminou com o carregamento de chá de três navios boiando na Baía de Boston. Três anos depois, ou seja em 1776, teria início a Revolução Americana.

O Tea Party atual é uma confraria de cidadãos insatisfeitos com os rumos da política e da economia do país. Mais que insatisfeitos, indignados. Com o governo Obama (como se o governo Bush tivesse sido uma maravilha), com as injeções de liquidez aplicadas no sistema financeiro pelo Fed, com a “arrogância das elites”, e por aí vai, no velho trote populista.

A indignação é válida, procedente, mas há mais coisas por trás desse “canal orgânico e apartidário de insatisfação popular”, que até pode ser orgânico, inclusive no sentido que a essa palavra deu Gramsci, mas apartidário, ou mesmo bipartidário, não é. Os republicanos, exímios manipuladores das frustrações e dos ressentimentos do americano médio, já se apoderaram do movimento, se é que ele não nasceu num laboratório de marqueteiros empenhados em dar cara nova à desgastada ala direitista do Partido Republicano, vendê-la com outra embalagem.

Embora invoquem a três por dois o exemplo dos Pais Fundadores (Thomas Jefferson et alii), os chasistas seguem na verdade o ideário dos Anti-Federalistas, que combateram a Constituição lavrada em 1787 por julgar que ela centralizava o poder em Washington. Esse é apenas um dos muitos traços de sua incoerência, de sua opacidade ideológica.

O Tea Party é um saco de gatos irmanados por um ódio visceral à presença do Estado na economia e ao laissez-faire do mundo financeiro. São contra as reformas sociais favorecidas pelos democratas, contra Washington e Wall Street; a favor de menos impostos e mais consumo, maior responsabilidade fiscal e maior autonomia dos Estados, mais gastos militares, maior controle dos bancos e nenhuma interferência no mercado. A conta não fecha.

Enquanto os titãs da banca eram satanizados em Nashville, John Cornyn e outros parteiros do movimento corriam o chapéu em Wall Street, à cata de financiamentos para a campanha eleitoral dos republicanos ao Senado. Toda grande causa, nos ensinou Eric Hoffer, “começa como um movimento, depois vira um negócio e, eventualmente, crime organizado”. O Tea Party já está, seguramente, no segundo estágio.

A escolha de Nashville foi uma gafe involuntária. Será que nenhum dos organizadores viu o filme de Robert Altman? Profético, descobrimos agora. Basta comparar os demagogos que sábado e domingo se revezaram no pódio do Tea Party com Hal Phillip Walker, o candidato independente à presidência da república do filme. Proibir advogados de atuar no Congresso, encampar empresas de petróleo, abolir o colégio eleitoral, mudar o hino nacional, eliminar os subsídios agrícolas – era essa a “plataforma do crioulo doido” de Hal Walker. Apenas uma de suas propostas (taxar as igrejas) pegaria mal entre os tea partiers, mas o ethos de sua campanha seria ovacionado. Como foi Sarah Palin.

Sua agenda política cabe inteirinha em sua mão. Literalmente. Ela anota na mão os tópicos do seu discurso. Isso mesmo: Sarah Palin cola. E se lambuza de tinta. Joan Walsh, da revista eletrônica Salon, chamou-a, esta semana, de idiota e mentirosa. Faltou acrescentar: porcalhona. Difícil imaginar um presidente americano consultando a mão durante um discurso. De braguilha aberta no Salão Oval, tudo bem. Isso ao menos já tem jurisprudência firmada.

Sarah não perde as esperanças de suceder a Obama. Em Nashville, pisou no acelerador. Pediu mais guerra (agora contra o Irã) e repetiu todos aqueles despautérios que há meses vem martelando na TV e em outros palanques, cujo ponto alto, a meu ver, foi o pedido para que o presidente Obama boicotasse a conferência do clima em Copenhague.

Na lapela ela trouxe duas bandeiras, a dos Estados Unidos e a de Israel, para espanto de vários convivas e dos jornalistas não amestrados, que se perguntaram como uma candidata a candidata a presidente dos Estados Unidos pode ostentar, impunemente, na lapela a bandeira de um país estrangeiro. Conquistar o arredio eleitorado judeu não é desculpa suficiente.

Ainda bem que, apesar de todo o hype em torno dela, Sarah ainda não é a favorita dos republicanos para 2012. Pelas últimas pesquisas, apenas um de cada quatro americanos (25%) a considera apta a chegar à Casa Branca. Ainda há muito chão pela frente, para ela tropeçar.

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