Chega de Saudade

Por Rodrigo Pinto
O GLOBO

Se há um clichê sobre a cultura brasileira contemporânea é a bossa nova. Bebeu na tradição do samba e na audibilidade do jazz melódico e acabou ganhando o mundo. Bateu na Europa e em Nova York como um gênero cool, uma brisa de tropicalidade inofensiva… “Ih, falou bonito. Corta essa, brother!” Ué, mas não é? Todos aqueles rapazes branquelos, criados pela avó no carpete, achando que o Brasil ia dar tão certo quanto a vida no Posto 8 e que um peixinho era = um beijinho. Aí vieram os militares e créu, créu, créu. Bossa, pra mim, é Bezerra da Silva!

“Você acha que é de esquerda, né!? Falando contra a elite… Esse troço de direita e esquerda acabou, hein? São todos iguais perante a lei: ninguém cumpre. No meu caso, gosto de bossa nova porque é horrível quando você não tem assunto no elevador, fica aquele vazio e você ouve a respiração do cara do 11oandar.”

Péssima piada. Eu gosto de bossa. Quando acordo. Mas como tava dizendo, o gênero ficou preso a clichês, parou no tempo. “Man, você tá cagando essa regra toda pra me dizer que não devo entrar e comprar a porra do livro?” Na vitrine da Sounds of the Universe, no Soho, uma compilação de capas de discos sob o título “Bossa nova and the rise of Brazilian music in the 1960’s” chama a atenção dos que passam apressados.

Muitos param.

“De quem é o livro?” Stuart Baker, dono do selo Soul Jazz Records e da loja. Ele fez o mesmo em 2009 com as capas alusivas à blaxpoitation. Foi uma parceria com Gilles Peterson. “Ih, radialista da BBC, é quente.” Há dois anos e l e s l a n ç a r a m “Freedom, rhythm & sound: revolutionary jazz original cover art 1965-83.” Trazia capas dos álbuns e um texto curto mas espertíssimo sobre música e direitos civis na América. “Sei, aquela turma Sun Ra, Steve Reid, Don Cherry… A própria Soul Jazz relançou esses caras em vinil.” Pois é. Todos álbuns de jazzdance, mas cheios de influência de música afro-latina. “Os caras tão ligados.” Claro. E, agora, lançam juntos de novo um livro, no mesmo modelo. “Mas por que bossa?”

Empresta o celular que eu vou ligar para o Stuart, pro telefone da loja mesmo. “Você conhece ele?” Não, mas vou dizer que é do GLOBO, ué. Ele vai me atender. “Não seria mais fácil entrar e perg…” Shhhh. Tá tocando.

— A l ô , S t u a r t , t u d o bem?… Beleza, obrigado…

“E aí, o que ele falou?” Stuart não tem a mais vaga ideia do que se passa na música brasileira contemporânea. Ele disse que não saberia apontar um artista atual predileto. “E daí?” Isso é típico de quem não sabe porra nenhuma. “Ahn?” Na real, o cara coleciona pesado o que rolou no Brasil entre 50 e 70. Foi ao Rio em 1994 para produzir Sivuca e Joyce e começou a comprar tudo obsessivamente. Os achados alimentam a discussão intelectual entre ele e o Peterson sobre música brasileira. Isso acabou em livro. Vamos entrar na loja e folhear o livro. “Let’s go.”

Olha, são dez páginas de texto, o resto é foto. “Man, olha como eles grafam mestiço: ‘mestizo.’ Até eu sei que isso é italiano.” Não, espanhol. “Ops. Mas e malandro, que saiu como ‘milandro’. Isso não pode ser sério.” Calma.

No geral, a compreensão do contexto no qual a bossa surgiu não é habitualmente debatida na gringa, sabe? Mas olha a bibliografia. Eles até que leram bastante sobre o tema, de “The politics of military rule in Brazil 1964-85”, do Thomas Skidmore, a “Verdade tropical”, do Caetano. “Porra, então já são meus heróis.” E além de debaterem a política da bossa, fizeram uma seleção nada clichê de capas. Vai além de João Gilberto, João Donato, Sérgio Mendes e Marcos Valle, saca? Tem Elza Soares em “Se acaso você chegasse” — a bossa negra — e o primeiro disco da Bethânia, “Carcaráaa”. Isso! E tem Vinicius e Odette Lara, com músicas de Baden Powell e Vinicius e arranjos do Moacir Santos. “Luxo. Mas, peraí, quem cantava?” Ah… Tem Raulzinho e Impacto 8 numa de exportar, com “International hot”.

“Man, é modernismo na veia.” Sim, esse livro é a celebração a toda uma geração de designers e fotógrafos, principalmente Cesar Villela, Francisco Pereira e Mafra. As capas do Villela para a Elenco deveriam ser clássicos globais, tombadas pela Unesco. “Pode crer. Todas as outras parecem cópias. Ele devia ser tão influente que plagiava a si mesmo. Olha com o são semelhantes essa do Lúcio Alves e a do Baden.”

Gosto disso, é assinatura! “Pensando bem, a capa mais bonita é a dos afrossambas, de Baden e Vinicius.” Acho que este é o disco mais bonito, arranjos do Guerra-Peixe. “Cara, tu caga uma regra….”Que nada, tô lendo aqui.

“Bom, se eu fosse dono de loja de discos iria investir em meus próprios produtos.

Porque as lojas de discos estão morrendo.” Conversei também sobre isso com ele no telefone. Stuart disse: “Quer comprar o que tem na Virgin, na HMV ou na Zavvi? Então tenta a Amazon, é mais prático.” Isso diz tudo. O lance, então, é a curadoria do que vende, coletâneas de afrobeats e dub, por exemplo. “Hummm.”

Acho que o único equívoco do livro é dizer que a MPB saiu da bossa nova. “Depois da bossa e da Tropicália, os ingleses não conhecem mais nada, admito.” É, o Backer bem que falou que queria aprender mais sobre samba, porque o que se sabe aqui na gringa é algo como turistas alemães passando carnaval no Rio. “Haha. Igual a você indo ao ensaio da Mangueira. Aliás, por que você não ensina a ele?” Tá louco, quem sou eu…. Samba não é privilégio de ninguém, amigo. “Cool, mas então, compro ou não o livro?” Compra. Compra e enquadra. Nunca vi compilação de capas tão bonita. Será que vão lançar no Brasil?

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