Cheiro de morte não abandonou Srebrenica

Natàlia Rodríguez
O Estado de S.Paulo

Massacre completa 15 anos e bósnios ainda tentam identificar corpos por meio de DNA

No dia 11 de julho de 1995, o Exército sérvio, comandado pelo general Ratko Mladic, massacrou mais de 8 mil bósnios, adolescentes, idosos, mulheres e crianças, na cidade de Srebrenica, antiga Iugoslávia. Passados 15 anos do genocídio, os bósnios ainda tentam identificar as vítimas por meio do DNA.

Lukovac, perto de Tuzla, Bósnia-Herzegovina, meio-dia, 40°C. “Se o cheiro incomodar, me avisem”, previne Helen antes de abrirmos a porta do maior necrotério do mundo. “Muitos não conseguem suportar o odor. Não se preocupem, estarei aqui se precisarem de mim.”

De acordo com os antropólogos, o cheiro corresponde ao nosso sentido mais arcaico. O primeiro cérebro humano era capaz de distinguir odores. Na Bósnia, o cheiro da morte é uma mistura de terra úmida, carne podre e pó velho. Um cheiro sólido que se instala em algum canto da faringe. Um cheiro que fica na memória para sempre.

O salão refrigerado está repleto de prateleiras onde foram depositadas as sacolas contendo os restos mortais de milhares de pessoas, que ficam sob os cuidados infinitamente atenciosos do grupo de peritos da Comissão Internacional de Pessoas Desaparecidas (ICMP).

O problema é que os servo-bósnios fizeram um excelente trabalho. Em primeiro lugar, assassinaram. Em segundo lugar, enterraram e. Em terceiro, removeram as valas para impedir que os cadáveres fossem identificados.

Na verdade, assassinaram duas vezes. Primeiro, acabaram com a vida para, mais tarde, negar aos mortos sua dignidade. “Recolhemos os restos que chegam a nós vindos das valas exumadas e registramos sua procedência”, diz Helen, indicando as etiquetas que pendem de cada sacola.

“No começo, quando chegaram os cadáveres das primeiras valas, era possível valer-se da roupa e de objetos pessoais para identificar os restos. Fotografamos todos, e também cada um dos objetos que encontramos, enviando-os aos parentes. No entanto, os homens de Srebrenica já se encontravam, havia muito tempo, na condição de refugiados. Um grande número deles vestia roupas que não eram suas. Da mesma maneira, não lhes restavam muitos objetos pessoais, já que a maioria deles teve de vender tudo no mercado negro para sobreviver”, diz Helen. ” Somente os testes de DNA podem nos ajudar agora.”

Helen é canadense. Há nove anos é perita-chefe da ICMP e não sabe quando voltará para casa. “Creio que o dia chegará quando não houver mais ninguém por identificar”, disse ela, enquanto acariciava distraidamente uma sacola. “Ainda há muito o que fazer. Gosto de terminar o meu trabalho.”

A estrada entre Sarajevo e Srebrenica é conhecida também como a “Estrada da Morte”. Sinuosa, corta uma paisagem impressionante, cheia de fissuras que parecem ter sido abertas na rocha pelos golpes de machado de um demiurgo brincalhão. Toda a região do leste da Bósnia é de uma natureza exuberante. Ainda que poucos se dediquem a apreciar esta paisagem.

Trauma. Zjilet decidiu que teremos de subir até o balneário. “Tomem cuidado com as cobras”, diz ele, depois de termos percorrido parte do caminho que atravessa os bosques ao redor de Srebrenica. “A região está infestada de serpentes, mas tenham calma: onde há serpentes não há minas terrestres.” O senso de humor bósnio é lendário.

Sob o olhar atento dos répteis, chegamos, enfim, à cidade que um dia foi um dos locais de repouso mais procurados da antiga Iugoslávia. Srebrenica era conhecida pela qualidade de suas águas. Um plácido balneário.

Zjilet é um dos poucos dentre os homens da cidade que sobreviveram ao massacre nos campos de Srebrenica e Potocari. Como ele, milhares de jovens, meninos e velhos fugiram para as montanhas em busca do último refúgio seguro: a cidade de Tuzla.

Enquanto isso, os homens comandados por Mladic cumpriam à risca a ordem de extermínio. Novamente, a Europa testemunhava um genocídio. Aquela noite ficará para sempre gravada na memória de Zjilet.

“Os cães”, diz ele, enquanto observamos vestígios dos morteiros sérvios nas paredes do antigo balneário. “Só ouvíamos os latidos dos cães e os disparos em meio à escuridão da noite. Um dos homens que fugia comigo morreu de esgotamento.” Zjilet conseguiu chegar a Tuzla após quatro dias de fuga. Sem água, sem comida e exausto. Mas vivo.

Hoje, estão armazenados em Tuzla os cadáveres de todos aqueles que não conseguiram fazer o mesmo. Na antiga estação de trem de Lukovac, a poucos quilômetros da cidade, encontramos parte das instalações mantidas pela ICMP na região.

Estamos em barracos que armazenam mais de 5 mil sacolas que contêm os restos humanos exumados das valas comuns espalhadas por todo o território da atual República Sérvia da Bósnia.

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MLADIC CONTINUA LIVRE
Gilles Lapouge
O Estado de S.Paulo

Há quinze anos, Srebrenica, uma cidade da Bósnia-Herzegovina, antiga Iugoslávia, foi palco do maior massacre cometido na Europa depois de Hitler. Em Srebrenica, 75% dos 35 mil habitantes são muçulmanos. Os criminosos eram soldados sérvios do general Ratko Mladic, sob as ordens líder servo-bósnio Radovan Karadzic.

Quantos homens, mulheres, crianças, idosos, morreram sob as balas de Mladic? Oito mil, talvez, mas qual o número exato? Um massacre. Ainda continua a tarefa piedosa de calcular o número de cadáveres, nomeá-los. Fala-se de 8.373 vítimas. E a identificação prossegue, quando uma outra vítima é encontrada nessa pilha de cadáveres.

Os assassinatos foram cometidos pelo Exército sérvio com ajuda de milícias – principalmente a dos Tigres e dos Escorpiões. As autoridades sérvias, diante do asco que esse morticínio provocou, alegaram que os milicianos agiam de maneira independente. Mentira. Estavam todos sob o comando sérvio.

Um documento repugnante, que foi fornecido ao Tribunal Internacional de Haia, que julga os crimes cometidos na ex-Iugoslávia, mostra os Escorpiões. Um filme curto, gravado por um deles.

A primeira imagem mostra um “papa” ortodoxo sérvio abençoando a milícia. Como não lembrar os padres cristãos da Idade Média que abençoavam os cavaleiros francos, prometendo a eles o paraíso na proporção do número de hereges que assassinassem? Em seguida, um caminhão do Exército. Seis jovens bósnios (um deles com 16 anos, talvez) são jogados no chão. Magros. Em farrapos. Um miliciano, de vez em quando, lhes dá pontapés.

O caminhão para numa aldeia na montanha, Trnovo. Os mártires descem do veículo, são obrigados a se deitar, com a cabeça encostada no chão. Em torno deles, os Escorpiões fumam, riem. Um deles atira para o ar com seu fuzil. Os seis rapazes são mortos com um intervalo de 20 segundos, de modo que os sobreviventes pudessem apreciar o espetáculo.

Pelo menos 8.373 seres humanos foram abatidos em quatro dias, de 13 a 16 de julho. Estupefação! Como entender que um ato infame como esse tenha tido lugar no coração da Europa, no continente mais civilizado do mundo? Mas o que a civilização tem a ver com isso? Em 1942, foi a nação mais brilhante, mais refinada da história, a Alemanha, que aniquilou 6 milhões de judeus! O massacre tem duas outras características. A primeira é que ele ocorrem nos anos de uma guerra civil abjeta entre as diferentes partes que se separaram no fim da Iugoslávia comunista, após a queda do império soviético: Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro, Macedônia, e mais tarde o Kosovo. Todo o espaço da antiga Iugoslávia transformou-se numa poça de sangue.

Essas guerras perversas foram uma decorrência da História e também da religião: católicos na Croácia, ortodoxos na Sérvia, muçulmanos na Bósnia e no Kosovo. História e religião: dois combustíveis para levar o horror ao seu auge! Há um fato ainda mais espantoso: as guerras na ex-Iugoslávia enlutavam a Europa havia alguns anos. A ONU tinha capacetes azuis mobilizados no país. O chefe desses capacetes azuis era um general francês. Quando as tropas sérvias cercaram Srebrenica, o general gritou: “A ONU não os deixará cair.” Mais tarde, um outro general francês, Bernard Janvier, não opôs nenhuma resistência aos sérvios.

Vergonha! Karadzic foi preso em 22 de julho de 2008 e levado ao Tribunal de Haia, onde o seu julgamento prossegue. Mladic se esconde, sem dúvida na Sérvia, talvez em Belgrado.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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