Chico Anysio na Bienal

Se está escanteado pela Rede Globo, o multiartista cearense Chico Anysio foi o grande homenageado na segunda noite da 8ª Bienal Internacional do Livro de Ceará. “Que esta homenagem chegue às salas da Globo para que saibam que não é só dela que vivo”, desabafou o humorista que também é escritor, autor de 22 livros, como Mesa de Boteco e Negro Leo. Na Bienal, lançou seu mais novo trabalho literário: Três Casos de Polícia (Escrituras Editora). Ao final, nos poucos minutos concedidos à imprensa, Chico comentou a respeito do humorista potiguar, Davi Cunha, o Espanta, falecido há dois anos.

Chico Anysio, 77, se mostrou magoado com a Globo. Esse foi o tom de suas palavras ao longo da apresentação, mediada pelo humorista Jader Soares, o Zebrinha, no auditório do Centro de Convenções. Segundo ele, desde que foi “posto na geladeira pela Globo, nos últimos seis anos”, já escreveu 19 livros, um seriado e tem 150 capítulos de uma novela pronta. “A Globo deve esperar eu morrer para por no ar. Mas vai esperar muito”. Chico explicou que a Escolinha do Professor Raimundo saiu da programação porque perdeu um dia de audiência para o SBT. “Me disseram que quando perde uma vez é melhor parar”.

O humorista criticou duramente a grade de programação de TVs e os programas de humor. “A TV nasceu e se criou com humor. Depois veio a música e agora são as novelas, que estão perdendo audiência por um motivo muito simples: os autores só tem uma novela. Percebam que mudam os personagens, os lugares, mas a essência é a mesma. Então, não há mais o que dizer. O público está enfadado. O caminho é voltar para o humor. A fórmula nunca deu errado, a não ser Guerra e Paz, que foi um desastre”. E completa: “O Zorra Total até foi idéia minha, mas quando era programa de humor. Hoje é de sacanagem. É muito tênue a linha que separa o humor da bobagem”.

Chico foi humilde ao comentar sua veia literária que durante décadas foi responsável por livros no topo da lista dos mais vendidos. “Ziraldo disse que não sou bom escrevendo. Mas não escrevo para ser lido, mas para ser ouvido; escrevo o mais simples possível”. O autor de mais de 200 personagens humorísticos disse ainda que sua relação com a literatura é “humilde”. “Já fui melhor leitor. Não sou literato, mas cheguei a disputar cadeira na Academia Brasileira de Letras. Perdi para o Ubaldo (Ribeiro) e desisti. O humor precisa de um lugar lá, mas essa cadeira é do Millôr Fernandes”, disse.

Ao fim da homenagem, Chico Anysio autografou o livro Três casos de polícia. São três contos policiais – “O Sucessor de Maigret”, “Eles” e “Vietnã, Lembra?” – que misturam ficção e realidade, hábito e acaso e mostram o quanto as três cidades onde as tramas ocorrem podem estar situadas em qualquer parte do mundo. A imprensa pôde conversar com o humorista depois. Uma ou duas perguntas no máximo foi a recomendação da produção, auxiliada pelo seu filho também humorista. Chico ainda faria show na mesma noite na cidade.

Dada a vez do repórter deste periódico, o humorista se entusiasmou: “É Diário de Natal de Natal, Rio Grande do Norte? Mas sua cidade é linda, rapaz. Natal é maravilhosa!”, exclamou. Em seguida, brincou com a grafia do repórter, no bloco de anotações: “Você entende o que escreve depois? Só consegui ler Millôr. Então sei que tem coisa boa escrita aí. Mas, vamos lá”.

CHICO ANYSIO

Sérgio Vilar – Qual o diferencial do Ceará para produzir tantos humoristas e ainda oferecer mercado para humoristas de fora, como o Espanta?
Chico Anysio – O Ceará tem muitos problemas. Não existe bons humoristas suecos, holandeses, suiços. Nenhum humorista concerta nada, mas denuncia tudo.

Mas Natal, para citar um exemplo, também tem muitos problemas e nem de longe tem a mesma vocação para o humor…
Natal não tem as caatingas, o sertão duro que o Ceará tem. Se o Ceará tivesse água seria uma Califórnia. É com certeza o Estado mais sofrido do Brasil. Por isso sexta, sábado e domingo tem humorista trabalhando e de boa qualidade. O defeito dos humoristas daqui, eu já disse para alguns, é que se enfeitam demais, se pintam demais. Não há necessidade disso.

Quanto ao Espanta. O senhor disse na sua apresentação que o humor não precisa usar da “sacanagem”. O senhor gostava da linha de humor usada por Davi Cunha?
Pois é, rapaz, fiquei chateado quando soube da morte do Espanta. Eu gostava dele. Mas ele queria ser o bêbado da Escolinha. Você sabe que ele passou por lá, né? Mas ele queria ser o bêbado da Escolinha (com o personagem Pudin de Cachaça). E não podia porque já tinha o João Canabrava. E o Tom era insuperável com o Canabrava. Então ele desistiu. Fiquei chateado, tentei argumentar, mas ele não quis. Como pessoa era uma pessoa muito boa.

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