Chico Buarque – Prêmio Camões 2019

Meu coração palpitou mais forte quando tomou conhecimento que Francisco Buarque de Hollanda, 74 anos, é o grande vencedor da 31ª edição do Prêmio Camões 2019, instituído pelos governos do Brasil e de Portugal, em 1988. O principal troféu literário de língua portuguesa tem o objetivo de consagrar um autor pelo conjunto de sua obra. 

Esse carioca muito contribuiu para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa. Por três vezes, ganhador do Jabuti, principal prêmio literário brasileiro.

Em 1974, com Fazenda Modelo. Em 1991, com o livro Estorvo, o personagem principal cria duas histórias para a mesma situação. Em 2006, com Budapeste, história de um ghost-writer, e em 2010, com Leite Derramado, saga familiar caracterizada pela decadência social e econômica. Além desses livros premiados, escreveu Benjamim, Irmão Alemão e o livro-poema infantil Chapeuzinho Amarelo.

Vale salientar que, além de Chico Buarque, doze brasileiros foram honrados com o prêmio Camões. O primeiro a recebê-lo foi o escritor João Cabral de Melo Neto em 1990, em seguida, a primeira mulher, Rachel de Queiroz em 1993, Jorge Amado em 1994, Antonio Cândido em 1998, Autran Dourado em 2000, Rubem Fonseca em 2003, Lygia Fagundes Telles em 2005, João Ubaldo Ribeiro em 2008, Ferreira Gullar em 2010, Dalton Trevisan em 2012, Alberto da Costa e Silva em 2014, e Raduan Nassar em 2016.

Como dramaturgo, escreveu as peças: Roda Viva (1967), Calabar (1973), Gota d’água recebeu o prêmio Moliére (1975), Os Saltimbancos (1977), Ópera do Malandro (1978).  Chico Buarque é considerado um dos maiores representantes da Música Popular Brasileira (MPB). Fez parceria com Tom Jobim, João Gilberto, Vinicius de Morais, Milton Nascimento, Edu Lobo, Francis Hime, Toquinho, Caetano Veloso e Ruy Guerra.

Ah, Chico! Sou sua fã desde 1966, quando assisti em uma TV preto e branco ao II Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. Torci pela sua canção A Banda interpretada por Nara Leão, que venceu juntamente com Disparada, de Geraldo Vandré, interpretada por Jair Rodrigues.  

Soube anos depois, que a música A Banda ganhou por 7 votos a 5 o Festival da MPB, mas você se negou a receber o prêmio de primeiro lugar, e sugeriu que as duas canções finalistas fossem vencedoras. Saiu, portanto, empate. Quanta generosidade!  

Em 1970, voltas do exílio (Itália), e nos presenteia com a canção Apesar de Você. Depois de ter vendido mais de 100 mil cópias, a canção foi censurada e o disco foi retirado das lojas.

Apesar de você, amanhã há de ser outro dia…

Hoje você é quem manda falou, tá falado.

Não tem discussão, não.

Ah, Chico! Como te admiro! Apesar da censura, soubeste trançar sua obra com metáforas, piruetas e pseudônimos. Muitas canções são verdadeiras crônicas, que retratam a situação política do País e o cotidiano do nosso povo brasileiro.

Subiu a construção

Como se fosse máquina

Ergueu no patamar

Quatro paredes sólidas 

Ah, Chico! Sabes como ninguém retratar a dor e a tristeza. E você que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de desinventar. Como não se encantar por essas melodias cheias de lirismo em que mostras a verdadeira face da dor e do amor.

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu.

Camões se vivo estivesse, te saudaria. Sou apaixonada por suas composições. Sua voz baixa penetra nos meus ouvidos, acalmando minha alma.

Quando te der saudade de mim

Quando tua garganta apertar

Basta dar um suspiro que eu vou ligeiro te consolar

Ah, Chico! Como entendes a nossa alma feminina. Retrataste as mulheres de uma forma  lírica. Falaste de Ana de Amsterdã, mulheres de Atenas, Joana Francesa, procuraste por Bárbara, quiseste entrar na vida de Beatriz, sentiste as dores sofridas por Geni (prostituta da Ópera do Malandro) e falaste dos três amores de Terezinha. Quanta sensibilidade!

Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não,
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração.
 

Ah, Chico! Quantas pessoas se embriagaram com tuas canções. Andaram suspirando pelas alcovas e ainda andam sussurrando em versos e trovas. És, com certeza, mais que musicista, dramaturgo e literato. És um poeta maior. Findo te presenteando com teus próprios versos.

Preparei para você uma lua cheia

E você não veio, e você não quis

Meu violão ficou tão triste, pudera…

E eu fiquei sem versos, e eu fiquei em vão.

Comments

There are 4 comments for this article
  1. Ana Cláudia Trigueiro 31 de Maio de 2019 15:50

    Que bacana! Muito orgulho do nosso Chico! Adorei a crônica. Beijos.

  2. Graça Pessoa 1 de Junho de 2019 13:10

    Parabéns! Excelente crônica, Tereza!

  3. WILLIAM DE FREITAS BEZERRA 1 de Junho de 2019 22:23

    Gostei muito da resenha sobre o escritor e compositor, Chico Buarque de Holanda.

  4. Franciné Pessoa 2 de Junho de 2019 22:22

    Parabéns por esse passeio maravilhoso pela obra desse grande autor, compositor e poeta, Chico Buarque, que foi, com muita justiça, agraciado com o Prêmio Camões 2019.

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