Diga ao povo que Chico!

Quando se fala em poesia, são muitas as minhas predileções. Enumerá-las é fazer injustiças, por isso me esquivo.

Quando se fala de música, igualmente! Mas aí posso tecer considerações mais partidárias. Gosto de Rock. Alguns. Não me eduquei o bastante em sua escuta, embora tenha regado a infância de Beatles Forever. Adolescente, reguei momentos de ócio com Bee Gees.

O Rock nacional pouco absorvi. Cazuza disse-me mais, mais ainda na voz de Cassia Eller. Mas entre Rock e MPB, fico com esta. Entre música raiz e MPB, fico com aquela, e por meio dela alcancei o samba mais antigo, o coco, maracatu, repente, frevo, Capiba, numa formação reversa.

Entretanto, amadureci na escuta da Bossa Nova e da Tropicália. Destas abstraí em princípio Chico Buarque e Caetano Veloso. Poeticamente entre os dois sempre preferi o segundo. Quanto a Chico, não ouso discutir. Seu acervo, sua poesia, tem corpo, tem alma, vida própria.

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Minha opção por Caetano sempre esteve associada a certa propensão pela dissonância sonora e verbal, certa forma de fazer do verso o inverso do que se espera. Atualmente, acresci a essa preferência a séria comicidade sonoro-poética de Tom Zé.

Não sei se por instinto ou princípio, cuidei sempre de formar em mim, por meio da música, também muitas das razões políticas ou busquei na música aquelas que me diziam sobre estas. Neste métier Chico Buarque é uma referência.

Que me perdoem os rappers com os seus versos políticos, compreendo-os, mas não os apreendo, principalmente se é um rapper bon-vivant, distante em corpo e verso do mundo dos excluídos, do mundo dos que carecem, muito mais do que nós todos, da justiça social.

Nada contra os bon-vivant pois entre estes é o próprio Chico. Mas este deu sua palavra à construção social, à defesa dos direitos, a empoderar minorias, e a defender igualdades num mundo de injustiças.

A sua coerência, como as suas convicções, pode ser questionada, mas tão somente por quem tenha autoridade moral, valor intelectual, cabedal de argumentos além do senso comum, além dos vis preconceitos e das opiniões rasteiras.

Afora isso, sequer dou-me a discussão: digam ao povo que Chico!

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