Chico Guedes e a vida

Caros amigos:

Recebi do Chico Guedes uma mensagem muito bonita e comovente sobre o tema do aborto, que compartilharei com vcs, devidamente autorizado por ele:

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Oi Marcão, como vão as coisas?

Tenho andado muito pouco pelo SP, mesmo como leitor, já que como colaborador optei por me ausentar mesmo por uns tempo.

Faço essa introdução pra dizer que por isso só agora há pouco li seu depoimento sincero e tocante sobre o aborto. Eu nunca tinha ouvido essa história sua.

Quero que saiba que partilho de sua opinião que a considero mais sensata e humana e, diria até, pra usar um termo já clichê, ecológicamente saudável; e sofro por ver em muitos amigos, homens e mulheres de bem, tratarem uma questão que envolve vida e afetividades com o que eu considero um excesso de frieza pragmática, quase clínica.

Também não sou católico, a não ser por formação familiar, e não creio nas idéias de Deus “mainstream” da tradição judaico-cristã e até musulmana; por outro lado, tenho certeza que o advento do Cristianismo foi um avanço importante na relação do homem com o outro, na apreciação do mais fraco como igual, em comparação com a antiguidade clássica grega e romana; apesar, é claro, da história posterior, sobretudo do segundo milênio, quase nos convencer exatamente do contrário.

Certa vez, décadas atrás, acabei por acompanhar uma mulher de quem gosto muito a Fortaleza pra fazer um aborto escondido e o mal-estar que senti durante todo o processo foi intenso, para além das palavras.

Lembro também que me marcou, anos depois,a leitura de textos de Pasolini, que incomodava bastante os pró-aborto da Europa de então com a sua posição anti-aborto; ele dizia, se me lembro bem, que o que era preciso era libertar a sensualidade dos jovens para outras formas de intimidade e afetividade, que não reproduzissem simplesmente o padrão papai-mamãe a que a sexualidade havia sido reduzida pela moral e os interditos judaico-cristãos na Itália, e que era o caminho mais direto para gravidez prematura ou “indesejada” (deixo assim entre aspas, porque desconfio que essa noção mesma tem algo de falaz).

Espero que não o esteja parafraseando erroneamente, assim de memória, depois de tantos anos.

De resto, no seu caso específico, não precisa nem dizer que todos nós só tivemos enormemente a ganhar com a sua teimosia de feto decididíssimo a vingar.

Abraço afetuoso,

Chico

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Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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