Chororô em Pyongyang

Por Ruy Castro
FSP

RIO DE JANEIRO – Ao ver o chororô na Coreia do Norte provocado pela morte do líder Kim Jong-il (1942?-2011), entende-se por que ele era o “General Glorioso que Desceu do Céu”, “Estrela Guia do Século 21”, “Sol do Futuro Comunista”, “Pai da Pátria Socialista”, “General Invencível e Eternamente Triunfante”, “Perfeita Encarnação da Aparência que um Líder Deve Ter” e “Maior Encarnação do Amor Companheiro Revolucionário”. Ou, para os íntimos, “Querido Líder”.

Não admira. Seu pai, Kim Il-sung (1912-94) era o “Pai da Nação”, “Grande Marechal” e “Divino Guardião do Planeta”. E seu sucessor, o filho Kim Jong-un (n. 1981?), mal foi para o trono e já está sendo chamado de “O Grande Sucessor”, “Grande Pessoa Nascida no Céu”, “Eminente Líder do Exército e do Povo”, “Pilar Espiritual” e “Farol da Esperança”. A turma gosta de hipérboles.

Desde sábado, chora-se dia e noite, nas casas, nas escolas, nas ruas, sozinho ou em grupo, e ai de quem não estiver com vontade de chorar -seu nome vai para algum caderninho. Locutoras de TV interrompem a leitura do teleprompter para chorar, no que provocam tsunamis de lágrimas de esguicho, como no circo, só que de verdade, em todos os televisores ligados.

E por que não? Há 63 anos, ou desde que a Coreia do Norte existe, seu povo não vê imagens senão as desses líderes, em monumentos, estátuas, painéis, pôsteres, selos, cédulas, retratos oficiais e até pregadas em postes, como os nossos “Jogo tarô e búzios. Trago amor de volta. Mãe Fulana, tel. tal”.

Mas não é preciso jogar tarô ou búzios para prever que a ditadura mais atrasada e corrupta do planeta está pela bola sete. Dinastias são como botequins: o pai abre um, o filho o leva à glória e o neto o enterra, porque estudou na Suíça e tem uma certa vergonha de vender pinga no balcão.

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