CIA libera documentos sobre invasão da Baía dos Porcos em Cuba

ESTADÃO

Texto mostra que invasão foi ainda mais desastrosa do que militares americanos imaginavam

WASHINGTON – Três dias após o aniversário de 85 anos de Fidel Castro e 50 anos após o desembarque de tropas cubano-americanas na Baía dos Porcos, a Justiça dos Estados Unidos obrigou a Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) a divulgar parte dos arquivos sobre uma das mais célebres operações militares da Guerra Fria. Os documentos revelados apontam erros do Departamento de Estado, do presidente John F. Kennedy e afirmam que a invasão foi ainda mais desastrosa do que se imaginava.

Segundo os arquivos, Grayston Lynch, principal agente da CIA, ordenou disparos contra aviões que os Estados Unidos tinham enviado para a proteção dos invasores, derrubando alguns. Washington havia fornecido aviões B-26 parecidos com os da Força Aérea cubana – caso fossem abatidos, a ideia era negar envolvimento americano e alegar que os aviões eram pilotados por desertores cubanos. “Disparamos contra dois ou três, porque só víamos uma silhueta”, afirmou Lynch.

O episódio é uma das muitas revelações de quatro volumes escritos por Jack Pfeifer, historiador da CIA, entre 1974 e 1984. As 1,2 mil páginas foram divulgadas por ordem judicial, com base na lei de acesso à informação, a pedido do Arquivo de Segurança Nacional, um grupo privado ligado à Universidade George Washington – há um quinto volume que a CIA ainda se nega a liberar.

Entre os novos detalhes está o desvio de recursos da operação para pagar a máfia para assassinar Fidel Castro. Os planos eram tão secretos que nem Jacob Esterline, comandante da invasão fracassada, sabia. Apesar de a Casa Branca ter proibido o envolvimento direto de americanos na ação, segundo os documentos, a CIA permitiu que pilotos sobrevoassem as praias de Cuba – quatro foram abatidos e mortos. Eles foram condecorados apenas em 1976, em cerimônias secretas.

Os documentos também detalham a participação de Richard Nixon, que era vice-presidente quando a operação começou (durante a presidência de Dwight Eisenhower) e acordos fechados com o então ditador da Nicarágua Anastasio Somoza para cooperar em troca de dinheiro.

Para historiadores, uma das mais importantes revelações é que nem mesmo a CIA acreditava no sucesso da operação sem intervenção direta dos Estados Unidos. Mais tarde, Kennedy teria dito a assessores que a agência apostava que ele não resistiria à pressão e enviaria apoio militar. De acordo com Pfeifer, era “absurda” a tentativa de Kennedy de encobrir o envolvimento americano na operação e teria sido um erro não enviar apoio aéreo para os invasores.

Em conversa com o então secretário de Estado, Dean Acheson, Kennedy estimava que seriam 1,5 mil invasores contra 25 mil oponentes. “Não precisa ser um gênio para saber que 1,5 mil é menos do que 25 mil”, teria resmungado Acheson, em uma crítica discreta à ingenuidade do presidente. As informações são da Associated Press.

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