Cicatrizes do tempo

NA TRIBUNA DO NORTE

Possuímos cicatrizes. Sempre carregamos algumas (ou muitas) conosco. No rosto, no corpo, no coração, na alma. Nenhuma vida passa jamais incólume às intempéries e acidentes do tempo e do espaço-mundo. Ainda mais numa época estranha, caótica, num panorama histórico-social complexo como esse em que estamos vivendo. Às vezes me questiono – no que sigo parcialmente a reflexão que fazia o saudoso Norberto Bobbio, jusfilósofo e político italiano – como é que milhões de nós chegamos até os dias atuais, atravessando, no nosso caso específico, os portais entre um século e outro, entre dois milênios? Para chegar até aqui, passamos por riscos múltiplos, muitas selvas psicológicas e contundentes fatos reais. Como se resiste a atropelamentos, quedas de bicicletas, de muros e de árvores, batidas de carro, mordidas de cães, acidentes, fenômenos radicais da natureza, guerras e doenças diversas? Como resistimos a nós mesmos e nossas eventuais autodepreciações e angústias, covardias, culpas e medos? Fácil? Claro que não! Terrivelmente difícil, na verdade! Quantas vezes pensamos em desistir, tamanha é a dor e o receio de sucumbir involuntariamente diante das dificuldades, dos perigos e dos adversários palpáveis ou impalpáveis, virtuais ou reais, humanos ou sobre-humanos? A vida segue mesmo assim, na resistência permanente contra a morte ou contra a sua ideia e consciência implacavelmente guardada e gravada em nossos cérebros.

Cada um tem sua forma de conduzir sua história, sua lenda pessoal, sua construção biográfica. Muitas vezes somos displicentes diante dos obstáculos, subestimando-os, fazendo pouco caso. Mas sempre há e haverá momentos em que nos deparamos com as nossas faces claramente expostas ao grande espelho da existência, com as marcas que lhe foram assomadas e com pedidos expressos ou tácitos de melhoramentos, de renovação. É aí que temos a eterna e conhecida segunda chance. Chance que pode se multiplicar mil ou milhões de vezes ou pode ser a derradeira, a última canção, a estação final. Visualizamos, também, nesses momentos, que já não podemos ficar no mesmo ponto, no mesmo lugar. Há de se permitir o crescimento e a transformação, mesmo que provoquem dor e mesmo que saibamos que o crescimento nunca é infinito e a curva um dia passa a ser descendente. E passa mesmo. Não nos enganemos. Sabermos disso e prosseguirmos em rota batida rumo ao futuro desconhecido mas pleno de esperanças, eis o grande desafio a nós imposto. Isso, esse teste de fogo, ocorre com todos, inexoravelmente.

Há de se ter coragem. E, principalmente, temos que nos conduzir condignamente e buscar a compreensão mais adequada para a passagem dos dias, os cabelos brancos que aparecem, as responsabilidades que se integram e as missões e tarefas a serem cumpridas em prazos exíguos, tão exíguos quanto a própria vida. E a vida é tão paradoxalmente exígua e ao mesmo tempo grandiosa, meus amigos! Convoca-nos a um enfrentamento corajoso, desassombrado, mesmo que saibamos que nossos fantasmas estejam rondando, contumazes em nos visitar, trazendo a todo instante as nossas dores e feridas. O barato é que trazem junto também o delicioso sentido ou mesmo o non sense do viver. Trazem-nos o doce direito à incoerência, à contradição, ao paradoxo de se dançar no abismo, caminhando na balaustrada da ponte, fazendo apaixonadamente a travessia sei-lá-para-onde.

Mais fácil para quem tem fé em algo ou em alguém que se encontra além desta existência física temporária? Talvez. E eu, um católico meio relapso e faltoso, mas reflexivo, termino por lembrar necessariamente que há novos e valiosos paradigmas trazidos corajosamente pelo Papa Francisco, que ora visita o Brasil para a busca de uma nova evangelização, principalmente dos jovens. Mas os que não possuem essa ou outra qualquer fé? Esses estarão privados de garantir uma existência digna e uma história plena de belezas? Não posso concordar. Tenho alguma fé na humanidade. Muito mais ainda tenho fé na grande arte que, a meu ver, é o que expressa a quintescência da humanidade, do humanismo e é a grande imitação da “criação divina”. Tenho fé na poesia que há no mundo e tenho fé no sentido de justiça que, por si só, é um ideal poético. E tenho fé, pasmem, em todas as utopias, que nos fazem mover e buscar mover o mundo. E essa fé pode e deve nos acalentar, confirmando que devemos nos manter na estrada, firmes e sem titubear, correndo riscos e rabiscos, andando o mundo, lutando pelo bem superior da vida, que é a própria vida. Há de se fazer, sim, o nosso ritmo, sem deixarmos de olhar para o brilho argênteo da lua ou de ouvirmos a música rumorosa que vem do mar ou das ruas e becos. Mesmo que com dores, marcas e cicatrizes desenhadas sobre nossas peles e sobre nossos corações e mentes envolvidos por grandes propósitos. Mesmo que num tempo sombrio e cheio de armadilhas, mas cheio também de belezas e esperanças.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. marcos veloso 23 de Julho de 2013 12:47

    Penso o ser humano como um livro,do nascimento até,bem,a velhice e até a volta de missões não acabadas,pensar em perfeição,quem sabe no futuro longe.Das dores,cicatrizes são marcas de exemplo para a vida continua,é dificil a estrada,vejo como os navegantes que tinham medo de atravessar a linha do horizonte,até que um dia aconteceu e descobriu o mundo,é o mesmo com o futuro,medo daquela linha que estamos observando,mas nós temos que ser navegantes e preparar mentes para novas viagens além.

  2. Anchieta Rolim 24 de Julho de 2013 16:31

    Belo artigo. Parabéns, lívio!

  3. Lívio Oliveira 24 de Julho de 2013 18:44

    Valeu, Anchieta!

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