Cícera

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.

Rubem Alves

Dos 15 aos 16 anos, ela trabalhou numa barraca de feira. Além de atuar como vendedora ambulante, ajudava a descarregar o caminhão de calçados e organizá-los na banca. Trabalhava apenas nos finais de semana e recebia cinco reais por dia/trabalho.

Com um rendimento mensal de vinte reais, sempre planejava o que poderia fazer com o montante acumulado durante o mês. Geralmente, comprava uma peça de roupa com os vinte reais que recebia como “salário”.

Nascida no município de Vera Cruz, no Agreste Potiguar, Cícera e o irmão gêmeo (Cícero) foram criados pela avó materna.

“Apesar de ser muito pobre, minha vó nunca nos deixou faltar comida”, diz, emocionada, enquanto esperamos a chuva passar para irmos até o ponto do ônibus.

Nos conhecemos há pouco tempo, mas sua determinação e espontaneidade me cativaram desde o início. Basta dizer que nosso primeiro bate-papo foi motivado pelo preço do cafezinho.

Estudamos na mesma sala de um preparatório para concursos e certo dia eu estava sugerindo que a cantina poderia oferecer porções menores de café, enquanto ela, que estava ali próximo, lanchando e conversando com alguns colegas, ressaltou a importância de economizar aquele valor diário, por menor que fosse.

“Vou comprar uma garrafa térmica e preparar meu café”, disse, resoluta. Depois desse episódio, passamos a nos falar sempre no intervalo e na saída do curso.

Dos 15 aos 16 anos, ela trabalhou numa barraca de feira. Além de atuar como vendedora ambulante, ajudava a descarregar o caminhão de calçados e organizá-los na banca. Trabalhava apenas nos finais de semana e recebia cinco reais por dia/trabalho.

Alfabetização solidária

Voltando à trajetória profissional de Cícera. Aos 17 anos, ela viu um anúncio que mudaria sua vida. Era um projeto que recrutava jovens e adultos para atuarem como alfabetizadores.

Estudante do ensino médio, participou de um processo seletivo para atuar no Programa Alfabetização Solidária, realizado através de uma parceria entre o governo federal e os municípios, cujo objetivo era reduzir o analfabetismo no país.

Toda a sua turma participou da seleção, mas somente ela e um colega foram aprovados. O curso de capacitação seria em Natal. A avó de Cícera, no entanto, não autorizou sua participação no curso. Obstinada, decidiu enfrentar a avó pela primeira vez, como ressaltou:

“Bati o pé e disse que precisava fazer aquele curso. Tentei convencê-la de que o estudo seria a única forma de melhorar nossa condição de vida”.


“Apesar de ser muito pobre, minha vó nunca nos deixou faltar comida”

Pediu ao coordenador do programa de Vera Cruz que conversasse com sua avó e lhe explicasse a importância do curso. E assim conseguiu convencê-la de que precisaria passar duas semanas em Natal. Com seus vinte reais e muita vontade de aprender, Cícera partiu para uma jornada de conhecimento e transformação. Na bagagem, muitos sonhos e a certeza de que somente o conhecimento poderia ajudá-la a conquistar uma vida melhor.

Além do curso, realizado durante o dia, Cícera conheceu alguns pontos históricos da capital, o que a deixou encantada. Essas aulas de campo integravam o programa de formação dos alfabetizadores.

Afinal, sua vida se resumia à rotina de estudante numa cidade do interior que não oferecia muitas oportunidades de lazer e cultura, conforme ela mesma faz questão de ressaltar.

“Aquele curso foi um divisor de águas”, diz, emocionada e orgulhosa de sua trajetória. “Antes (do curso) eu só vinha para Natal quando minha avó tinha consulta no Hospital Onofre Lopes”, lembra.

Remuneração: Meio salário mínimo

Cheia de encanto e brilho no olhar, recorda a visita ao Museu Câmara Cascudo e à Fortaleza dos Reis Magos, para citar alguns dos pontos turísticos visitados naquele período. Era exatamente naquele mundo repleto de conhecimento e descobertas que ela queria permanecer.

Ao retornar para Vera Cruz, começou a trabalhar como alfabetizadora. Uma de suas maiores alegrias com o projeto foi ver idosos escrevendo o próprio nome e lendo algumas palavras e frases ao final do curso.

O trabalho como alfabetizadora de jovens e adultos durou apenas um semestre, mas lhe trouxe outra satisfação: realizou o sonho de ter o próprio quarto.

Até então, dormia na cozinha, o que a incomodava bastante, sobretudo nos dias de feira, em que a casa ficava bastante movimentada com transeuntes que vinham provar roupas. O espaço da despensa foi transformado em quarto.


Dessa época, resultaram varizes nas pernas, ocasionadas pelo peso das caixas que era obrigada a carregar

Depois dessa experiência como alfabetizadora, trabalhou em um supermercado por quatro anos, atuando em todos os setores do estabelecimento (caixa, abastecimento, estoque etc.).

Dessa época, resultaram varizes nas pernas, ocasionadas pelo peso das caixas que era obrigada a carregar. Não existia função definida para cada funcionário.

Aos vinte anos, depois de enfrentar uma depressão, tomou outra decisão que mudaria sua vida. Após sua recuperação, por recomendação médica, pediu demissão do emprego. Não tinha mais condições físicas e psicológicas de continuar naquela rotina extenuante.

Seu expediente iniciava às seis da manhã e terminava às sete da noite (com uma hora de almoço). Sua remuneração era meio salário mínimo. O trabalho não era de carteira assinada.

Após ser reprovada em dois vestibulares da UFRN, decidiu matricular-se em um cursinho pré-vestibular e submeter-se ao Enem. Depois de um dia exaustivo de trabalho, ainda encontrava forças para assistir a aulas até dez da noite e depois estudar durante a madrugada.

“Eu nunca tinha usado um computador”

O curso escolhido foi Administração. Com sua nota, conseguiu uma bolsa de 50% numa faculdade particular. Nessa época, a pontuação do aluno era informada por telefone.

“Escutei meu resultado umas três vezes. Não acreditava que tivesse conseguido”, lembra, emocionada, o dia em que passou horas na fila de um orelhão para saber o resultado do Enem. Mais uma trajetória de luta e sofrimento se iniciava.

Na primeira semana de curso, viu um anúncio de estágio no mural da faculdade. No dia seguinte, uma colega ajudou a se inscrever na seleção.

“Eu nunca tinha usado um computador. Na minha cidade, quem tinha computador era filho de rico”, diz, enquanto narra a primeira entrevista de trabalho na capital. Um dos requisitos era justamente o conhecimento em informática.

Questionada sobre o tema, Cícera foi sincera. Disse que vinha de uma família muito pobre e não tinha acesso a computador, mas prometeu pagar um curso de informática com seu primeiro salário, caso fosse selecionada.

Dias depois, iniciava seu estágio na COMPAL, empresa que compra e vende metais novos e usados, e aluga guindastes e caminhões, onde atuou dois anos como estagiária e assistente administrativa.

Com uma renda de R$ 400, ela pagava aluguel, transporte e alimentação. Inicialmente, morou na casa de uma amiga, em uma vila no bairro do Alecrim.

Trabalhava oito horas por dia e almoçava em um restaurante onde a refeição custava um real. Em relação ao jantar, nem sempre fazia essa refeição. Mas isso não era motivo para chegar atrasada ou faltar às aulas. Muitas vezes assistia aula com fome. Quando tinha algum trocado comprava um saco de pipocas. Quando não, o jeito era esperar chegar em casa.

Uma gastrite foi o resultado da ingestão de alimentos inadequados combinados com o passar muitas horas sem comer. Houve dias em que chegou a sentir um mal-estar, decorrente da fome, especialmente nos últimos horários de aula, o que não a impediu de continuar estudando e se tornar administradora alguns anos depois.

Andar com fé eu vou

Um ano e meio antes de se formar, pediu demissão da COMPAL e assumiu um estágio na Superintendência da Caixa Econômica Federal, experiência também fundamental para sua formação.

Diante de tantas dificuldades, chegou a se questionar algumas vezes se conseguiria concluir o curso. No entanto, sua vontade de vencer e a fé em Deus a ajudaram a seguir em frente, apesar das intempéries.

Sua avó morreu há dois anos, mas presenciou momentos de glória da neta amada. Foi ela, aliás, quem conduziu Cícera no dia da formatura, para receber o diploma de administradora.

Hoje, casada e com uma filha de quatro anos, desfruta de uma vida confortável e está determinada a realizar o sonho de ser funcionária pública. Conheceu o esposo na primeira empresa onde estagiou e logo iniciaram o namoro. Um convite para o cinema foi o começo de uma história de amor e companheirismo que completou dez anos recentemente. Tem todo o apoio do marido para continuar estudando. Aliás, ele sugeriu que ela parasse de trabalhar por um tempo e se dedicasse apenas aos estudos.

Depois de escutar sua história de vida, enquanto almoçávamos, senti vontade de ter lhe conhecido antes e, quem sabe, tê-la ajudado de alguma forma. Ao mesmo tempo, agradeci por tê-la conhecido e, principalmente, por ter escutado sua história naquela tarde chuvosa.

Lembra com carinho dos cadernos e lápis comprados por ela com muito esforço na cidade vizinha e das reuniões de pais de que participava. Mesmo analfabeta, sabia que o conhecimento era a única possibilidade de oferecer um futuro diferente aos dois netos. E assim o fez. Além da graduada em Administração, Cícera é especialista em Logística Empresarial e Gestão Estratégica de Pessoas.

A beleza de um sonho

Não fosse aquela chuva depois da aula, talvez eu não tivesse tido o privilégio de escutar sua história e com ela aprender tantas lições importantes. Voltei para casa com um sentimento de gratidão e uma vontade incontrolável de escrever e partilhar essa história de coragem e superação.

Cícera, admirável por tantos motivos, é daquelas pessoas que sabe, assim como Eleanor Roosevelt, que “O futuro pertente àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos”.

Para encerrar esta minha singela homenagem àquela menina de Vera Cruz que sempre sonhou em morar na capital, faço uso das palavras de Drummond:

“Gostaria de te desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes. E que eles possam te mover a cada minuto, ao rumo da sua felicidade”.

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Comments

There are 5 comments for this article
  1. Lenilson Varela 13 de Março de 2019 7:39

    Belíssima história de superação e sonhos relizados. Com esse exemplo de vida nos encoraja a viver e sair pra vencer na vida e conquistar tudo que possível e impossível.
    Parabéns Andreia Braz pelo texto e relato de vida de Cícera.

  2. Ana Cláudia 13 de Março de 2019 16:20

    Adorei, como sempre!
    Cícera é uma inspiração para todas nós e sua forma de escrever a trajetória dela, deixa tudo muito mais fascinante. Parabéns, amiga. Beijos!

  3. Mariana Lorena 14 de Março de 2019 12:10

    Sua sensibilidade nos permite desacelerar nossos olhares enquanto lemos. Ressignificamos. E o texto traduz você!

  4. Francisco Martins 17 de Março de 2019 16:24

    Histórias assim fazem meu respeito aumentar mais e mais pelas mulheres, guerreiras e determinadas.

  5. Diulinda Garcia 30 de Março de 2019 20:37

    Parabéns Andreia por nos propiciar acesso a uma tão comovente história de supetação.

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