Cidade dos Reis, a literatura, o romance e a evolução de uma cidade

Por Thiago Gonzaga*

Atravesso o presente de olhos vendados,
mal podendo pressentir aquilo que estou vivendo…
Só mais tarde, quando a venda é retirada,
percebo o que foi vivido
e compreendo o sentido do que se passou…

Milan Kundera

Comentei, certa vez, em um ensaio literário que, assim como todas as artes, a literatura está vinculada à sociedade em que se origina, e não há escritor completamente alheio a sua realidade, ao seu chão, a sua cidade. Partindo de algumas experiências pessoais, cada escritor recria o real, dando origem a um fato ficcional, e através dele consegue transmitir suas ideias e emoções ao mundo. Desta maneira compreendemos a literatura como um objeto vivo, uma verdadeira relação eficaz do escritor com o seu meio. Explano o assunto após a leitura da obra “Cidade dos Reis”, do escritor Carlos de Souza, um romance pioneiro no Estado, em se tratando de contar a história de uma cidade.
Com desenvoltura, o romancista narra alguns dos principais fatos e personagens da cidade do Natal, ao longo do século XX, utilizando como pano de fundo a história de Jonas Camarão, desde a sua infância e juventude, o encontro com a sua adorada Mara, a dor da perda, as lutas, vitorias e desilusões, até sua velhice, no final do milênio passado.
Um leitor mais atento vai observar muito mais o relato de episódios reais do que propriamente ficção. Na verdade, o principal personagem é a própria cidade de Natal; outros ficam em segundo plano, tudo, contado por dois narradores, um dos quais, de nome Juca Guiné, uma espécie de Câmara Cascudo local, que conhece muitos fatos e figuras da cidade, inclusive com episódios curiosos, como a passagem de Clarice Lispector por Natal, episódio este, que a própria escritora iria descrever detalhando haver detestado a cidade. São alguns dos relatos que misturam muito bem ficção e realidade.

Lendo essa obra me vem à mente a famosa frase de Tolstoi: “Canta tua aldeia e serás universal”. Pode até parece muito clichê, mas é com ela que reafirmo a importância de nos voltarmos para o que é da nossa terra. Já era hora de Natal ter o seu romance; várias outras cidades têm sua biografia romanceada. Cito, de memória, como exemplos: “São Jorge dos Ilhéus”, de Jorge Amado; “Terra de Caruaru”, de José Condé”; “A Noite sobre Alcântara”, de Josué Montello…

Trabalhos dessa natureza cumprem uma função além do apenas literário.

Segundo Antonio Candido, uma das funções da literatura está ligada à complexidade da sua natureza, e ela é uma construção de objetos autônomos com estrutura e significado, e é também uma forma de expressão e de conhecimento. A literatura tem uma função “formadora”, que lhe confere um caráter educativo. Acredito que a afirmação do eminente crítico aplica-se a trabalhos dessa natureza, que além de entreter, educam, instruem.
Para Candido existem na literatura níveis de conhecimento intencionais, ou sejam, planejados pelo escritor e conscientemente assimilados pelo leitor. É nesses níveis que o autor injeta suas intenções, sejam ideológicas, de crença, etc. .( é notória em algumas passagens do romance “ Cidade dos Reis” a posição ideológica do autor). Ainda, segundo Candido, a literatura satisfaz à necessidade de conhecer os sentimentos e a sociedade, ajudando o leitor a tomar posição em face deles. Dessa forma destacam-se duas funções da literatura: a cognitiva, ou seja, de passar conhecimento, e a político-social, que é a que interfere no senso critico do leitor. Outro renomado crítico literário, José Guilherme Merquior, defendeu, certa vez, em um dos seus ensaios, nos anos 60, que o escritor deve colaborar na formação de uma sociedade, de modo cada vez mais crítico. Essa, uma das missões do artista. De acordo com Merquior, devemos compreender a arte como tendo também uma função cognitiva, e reconhecer o artista como um mediador de informações. De igual modo parece ter sido este o entendimento do escritor Carlos de Souza na construção de seu romance : uma obra que também ensina, forma.

Em consonância com as ideias de Merquior, acredito que seja exatamente essa função da arte, especialmente, da literatura, que pode conferir ao escritor condições para tratar de assuntos sérios, relevantes, tornando-se assim um instrumento de transformação social. No presente caso, Carlos de Souza tratou de escrever o romance de uma cidade de forma séria, e, em linhas gerais, fidedigna, chegando ao ponto, como já disse, de deixar a obra com caráter quase não ficcional, tantos os relatos históricos nela inseridos.

Evidente que alguns deslizes, os quais não vou me ater, por serem tão pequenos, não comprometem a riqueza e a importância de “Cidade dos Reis”. Importa sobretudo observarmos pontos fortes, como, por exemplo, a qualidade estética. Sabemos que a forma é o que propicia à obra sua natureza literária por excelência e lhe confere também uma feição poética. O livro de Carlos de Souza, está repleto de passagens poéticas, e foi minuciosamente organizado mediante a escolha dos elementos da linguagem, de maneira a constituir uma estrutura plena de significado, porém com facilidade para tocar qualquer leitor. Outro aspecto digno de nota: a universalidade de certos sentimentos, expressa na caracterização dos personagens, como por exemplo, o próprio relacionamento amoroso entre Jonas e Mara, a relação dele com os filhos, etc.

Talvez, algumas lacunas sejam encontradas ao longo da narrativa, mas cabe ao leitor preenchê-las; há fragmentos que irão exigir redobrada atenção à leitura.

Por fim, vale salientar que muitos natalenses não sabem sequer a história do seu bairro, quanto mais a de sua cidade, e – o que é pior- não sabem amá-la. Essas pessoas precisam, urgentemente, ler o livro de Carlos de Souza. Não somente elas, obviamente, mas todos quantos buscam o prazer e o proveito da literatura.

 

*Pesquisador, autor de “Presença do Negro na Literatura Potiguar” e outros livros.

Escritor, pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros. Editor da revista da Academia Norte-riograndense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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