Cidades: maneiras de ver

{Foto publicada por Eduardo Alexandre em seu perfil no Facebook}

Acredito que olhamos para a cidade com o mesmo olhar que usamos para mirar o espelho interior. Vemos as coisas através dessa lente que esquadrinha canto por canto, analisando defeitos e (re)encontrando as belezas, muitas vezes bem ocultas. O caos da cidade é o caos do ser que habita a cidade. O que está na geografia da cidade está na geografia humana e íntima. É uma mistura, uma simbiose. Cuidar do corpo-organismo. Cuidar da mente. Cuidar da cidade. Trata-se de múltiplo dever de autopreservação.

Talvez seja um devaneio o que disse acima. Talvez não seja. E continuo a observar o lugar em que vivo. Vivo. E tento fazer algo por ele, para que perdure e se embeleze. Às vezes descubro ruínas. Às vezes percebo cores, dores, calores. Às vezes (cala)mares que nunca naveguei. Moro amores e ao largo. O lugar que importa, que é onde moro e morro uns dias, até o fim, pode ser. E me entrego ao espaço-tempo que nele há e aos seus céus azuis e águas que passam por baixo de pontes e por cima de areias e sais.

Nesta cidade observo a cena. Às vezes sobro sóbrio. Às vezes resto no entorno e no entornar dos meus vinhos, velhos companheiros dos dias descontados. E a cena da arte é a que me tem interessado. Muito certeiramente me achado. Na semana que passou, vi Eduardo Alexandre Garcia (o querido Dunga) postando novas e velhas imagens da cidade e dos “Becodalamenses” feicebuquianos. E fiquei feliz, porque Dunga enxerga bem a cidade mais presente, cheia de gentes, personagens lúdicos e líricos e alguns lunáticos maravilhosos para completar a turma boa. Estou entre eles. Porque amo estar.

A semana foi rica. No Centro, também vi filmes europeus, lá na Pinacoteca – palácio onde já se passaram tantos filmes. Bons e maus. Filmes e políticos. Vi na Galeria Conviv’art da Uéfe (como diz meu filho Bruno, neo-universitário da UFRN) a abertura da exposição do tremendo multiartista Anchieta Rolim. Que expunha justamente um conjunto de obras cujo título é “CIDADES”. Mire-e-veja só isso! O título de Anchieta é perfeito e se basta. Mas peguei emprestado para ampliá-lo e aumentar o grau da lupa que tenho em mãos e diante dos meus olhos de mica. O artista nos propôs ali uma desconstrução/reconstrução das cidades a partir de uma visão particularíssima, que redimensiona os acúmulos, as ruínas, o adensamento, o que há de visível e invisível e o que há de vazio e de plenitude nas cidades. Suas esperanças, desesperanças. As cidades à beira. Dunas brancas de areias? Falésias? Abismos? Na cidade do antenado Anchieta Rolim, antenas se confundem com cruzes e vice-versa. Estádios vazios são o centro do mundo local. Há borboletas, no entanto. E elas ocupam o cinza deixado pelo homem. Colorem. Eis o futuro, Anchieta? Todo artista é mesmo uma espécie de profeta. E ainda há profecias a serem ditas. Anchieta Rolim nos traz em oriental nanquim e arte digital algumas delas.

Ah! Também vi no local (em) que vivo o lançamento do belo livro de um poeta que admiro e cujo texto me encanta: “A máquina de avessar os dias” é livro valioso, muito bem editado pela Flor do Sal, já ocupa lugar entre os melhores da minha prateleira. Em suas páginas, Theo G. Alves, autor nascido em Natal e que habita a seridoense Currais Novos, fala de cidades também. E muito. E muito bem. Fala de cidades que estão fora e dentro. E olha para elas e sente o seu “peso mineral” e as “…cicatrizes/no dorso/semovente da cidade…”. E nos faz olhar como a gente precisa olhar. Claro que essas cidades poéticas de Theo me interessam. E logo terão mais palavras minhas, que já as escrevo no caminho por cidade íntima, sobre os meus dias e praças do pensamento.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 26 de maio de 2015 20:44

    Que bom que gostou, caríssimo Anchieta! Espero ter traduzido minimamente o sentido da exposição. Sei que há muito mais na sua mente criativa, mas foi o que consegui captar da beleza de sua obra.

  2. Anchieta Rolim 26 de maio de 2015 11:41

    Beleza de texto, Lívio Oliveira. Um olhar apurado sobre as cidades e dos que nelas habitam. O tipo de olhar, que nos leva a uma reflexão. Grato por ter citado minha visão das cidades, através da arte. Um forte abraço, meu amigo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo