Cinco Dias de Sagração (*)

“As moças solitárias
carregam nos seios os estigmas da lua.”
(Boghdán Tymích Rubtchák)

Seu corpo era corpo de homem, ancorado nas machezas. Ele não carecia. Não temia o sublime. Era moreno, medieval, impassível. Espiava espichados cortejos de pecadores, cultivava a concisão. As vontades, não as expiava, nem tinha crepitações. Era homem, e de sol; incólume, porém, aos incêndios de mulheres e de ratos, à ardência dos sinais.

Mas, naquele tempo de acontecimentos inexplicáveis, todas as coisas cortejavam o destino. Um dia, o homem que poderia ter morrido de heroísmo mudou-se em dama. Mudou-se, não se sabe o motivo. Mudou-se, e a partir desse momento, foi tomado de ternura esfomeada. Não sabe o que perdeu, não lhe perguntem.

É mulher. Empalideceu. Ganhou febres, ganhou astúcia, ganhou o medo de envelhecer. Foi marcada nos seios pelos estigmas da lua. Vestiu o hábito da vertigem. Mudou-se em dama. Aprendeu a chorar e se arrepender. Mudou-se em dama o homem. Agora é mulher, mulher egressa de travessias, cujo pudor foi espoliado pela paixão. Não leva inocência nas mãos e nem pureza na barra do vestido. É mulher tingida de mundo, muitas vezes refeita, mulher que conheceu gozo e descaso e toda sorte de “milacrias”. Mulher sem placidez, carecida, entregue ao cativeiro da esperança.

De tanto olhar a lua, ficou prolongada de sortilégios e pelos prolongamentos da lua, aos sábados não é mulher, nem se volta ao homem: vira serpente luminosa. Nesses dias, quem a vê tomar banho, fica cego imediatamente.**
Essa mulher se lembra do seu corpo de homem. Ela se lembra de superfícies planas, de julgamentos destituídos de paixão, de rígidas afetividades. Mas, além de memória, seu corpo de homem é também amor. Ama o seu antigo corpo de homem no outro, no que não é ela. Ama suas antiguidades naquele que a quer mansa, desamparada. O corpo de homem que já foi ela a quer agora, e ela não é de ficar se adiando.

Ela o ama e vai para ele, para o corpo de homem que a espera. Leva o melhor e o pior de si, a serpente do sábado lhe dá flexibilidade. Vai para ele, consagrá-lo. A umidade da mulher consagra o homem, a sagração do homem consagra a mulher. Ela vai para consagrar o amado corpo do homem e consagrar a si mesma.

Mesmo tomada de carências, tem gosto pela vida e pelas ondas do mar. E estarrece de ter tanto gosto. Adora o mistério, mas sem “temência”, pois o mistério ela o vivencia quando se entrega às mutações. O mistério ela o possui no coração de ousadias irrompidas.

O homem, ela o experimentou sendo ele, e agora o experimenta no outro. Agora, aproxima-se dele, mas não é ele. Não tem retorno, ela jamais será homem de novo. O ser homem, cujo conhecimento foi só experimentado, parece exaurido, como se o pouco que conheceu fosse demasiado para ela. Apesar de já ter sido ele, o homem lhe será desconhecido para sempre e a isso ela chama destino. Ou amor.

* Título de um romance de Cunha de Leiradella.
** Variação da lenda européia da Melusina.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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