Cinco minutos de apogeu

Por Ruy Castro
FSP

RIO DE JANEIRO – Quando Orson Welles assombrou o cinema com “Cidadão Kane”, em 1940, aos 25 anos – depois de ter sacudido a Broadway com um “Julio Cesar” moderno e parado os EUA com um programa de rádio-, um amigo da família comentou: “Quem conheceu Orson aos cinco anos sabe que ele é um fracasso aos 25”.

Cammie King, uma ex-atriz americana que morreu semana passada, aos 76 anos, na Califórnia, não correu esse risco. Começou sua carreira no cinema em 1939, aos cinco anos incompletos, com um papel curto, mas comovente, em “…E o Vento Levou”. Antes de fazer seis anos, participou de “Bambi”, de Walt Disney. Dois estouros. E, sentindo que chegara ao apogeu, aposentou-se do cinema para sempre.

Mais intrigantes ainda foram as características dessa carreira. Em “…E o Vento Levou”, Cammie vivia Bonnie, a filhinha dos enfezados Scarlett (Vivien Leigh) e Rhett (Clark Gable). Mas não era a única no papel -Bonnie, ao nascer, era interpretada por um bebê; ao reaparecer, aos dois anos, já era outra criança que a vivia; apenas a partir daí, em duas cenas e uma fala, é que Cammie fazia Bonnie. Pouco depois, Bonnie cai de um pônei e morre, mas, nesta sequência, usou-se um menino como dublê.

Enfim, dois minutos na tela e uma única frase -eis o histórico de Cammie em “…E o Vento Levou”. E, em “Bambi”, que é um desenho, ela, naturalmente, não era vista no filme. Mas emprestou sua voz para a jovem Falina, a corça namoradinha de Bambi -a Falina adulta já seria feita por outra atriz.

Bem, onde estou querendo chegar? Ao fato de que, apesar dessa trajetória de cometa, Cammie até publicou um livro, “Memórias de “…E o Vento Levou'”. Não sei o que escreveu nele, mas dou-lhe toda razão: como esquecer o momento em que se chegou ao ápice, mesmo que tenha sido por um jato ou, no máximo, durante cinco minutos?

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