Cinco palavras e um deserto‏

Por Marina Colasanti
VIA CONTEÚDO LIVRE

Havia um bilhete debaixo do meu prato quando sentei à mesa para a ceia de Natal: “Vale uma viagem ao Deserto de Atacama”. E agora aqui estou, diante do cume nevado de quatro vulcões, enquanto a luz cambiante deste fim da tarde tinge de suavidade as montanhas que os antecedem, e lambe o deserto que antecede as montanhas. O que vejo me enche de devoção e maravilhamento. Quero falar do deserto com palavras simples, porque o deserto é de uma simplicidade comovente, mais do que isso, é essencial. E ao mesmo tempo quero falar do deserto com grandeza, porque tudo nele nos supera. Mas de uma forma ou de outra estaria sempre aquém. Tento, então, encontrar outros caminhos.

Duas são as cores do deserto: rosa e cinza. Tudo é de uma cor ou da outra, ou das duas. Rosa são as pedras vulcânicas que, brancas quando expelidas há séculos, foram sendo lentamente oxidadas, até adquirir essa tonalidade de carne. Rosa é a argila com que tudo se constrói, casas, muros, telhados. Rosa ou cinza são as grandes planícies daquilo que chamamos deserto, mas onde a vida teima em resistir. Rosa, decididamente rosa, são os flamingos que vêm se reproduzir e se alimentar nas lagoas. E o rosa e o cinza intercambiam seus tons quando colhidos pela luz.

Duas são as palavras que se impõe diante do deserto: imensidão e força. Tudo é imenso, a cadeia de vulcões, as formações rochosas, as extensões desérticas, as salinas, as “quebradas”, que é como se chamam os canyons locais. E o que não é imenso, o que por vezes parece pequeno – como o pássaro do altiplano que só se alimenta da rãzinha preta, que só se alimenta de um minúsculo inseto aquático –, traz em si clara mensagem de força, aquela força de que se necessita para sobreviver em ambiente tão áspero.

Só uma medida serve para o deserto: tempo. Aqui tudo se mede em milhões de anos. Trezentos milhões de anos para que os deslocamentos geológicos enxugassem o mar, erguessem as cordilheiras, trocassem água por areia, peixes por lhamas. Dezoito milhões de anos para que chuva e fusão de neve escorrendo sobre as pedras vulcânicas extraíssem seu sal, fluíssem para a planície, indo formar a enorme salina de Atacama. Quantos milhões de anos, para que um rio misturasse sua água doce em uma parte da salina, dando origem à lagoa em que os flamingos se alimentam? Contar o tempo em milhões de anos não nos apequena, ao contrário, nos diz que mesmo nosso humano, modestíssimo prazo de vida é importante, porque tudo constrói e tudo se acrescenta.

E uma particularidade nos surpreende neste deserto: a diversidade. Tento imaginar os invasores espanhóis que vindo lentamente, a pé ou a cavalo, deparavam com paisagens sempre diferentes, e em cada paisagem um novo universo a decifrar. Mesmo hoje, quando tudo ou quase tudo está decifrado, quando nos deslocamos de carro e o calor do deserto ou o frio nevado do vulcão estão retidos para lá dos vidros, o inesperado nos convoca e não se esgota.

Na ceia de Natal, encontrei um bilhete no meu prato. Ainda não sabia que em vez de cinco palavras havia ali areia e sal e lava e neve e vento, ainda não podia ver alçando voo de dentro do meu prato uma revoada de flamingos cor de rosa. Mas afinal, cinco palavras foram suficientes para me dar isso tudo.

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