Cinco vezes Jornalismo Literário – A Sangue Frio

Dos livros já lidos ao longo do ano, cinco obras do Jornalismo Literário (ou do Novo Jornalismo ou Literatura de Não-ficção) chamaram mais a minha atenção que outras obras de outros nichos e gêneros literários. Clássicos de ontem e de hoje prenderam o meu tempo e notas com mais interesse, que resolvi compartilhar, neste Substantivo Plural, essas impressões e sensações sobre cada um dos livros como dicas de leitura para quem ainda não os leu. São comentários esparsos e ligeiros, que, originalmente, apreendidos em uma primeira e única leitura, foram publicados em um blog escondido nos subterrâneos da grande rede fora da qual hoje, praticamente, nada existe. Neste texto, sem qualquer pretensão que não seja a de divulgar essas obras-primas da história do jornalismo, chegamos A Sangue Frio (1965), de Truman Capote.

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Ler A Sangue Frio é ler vários livros ao mesmo tempo: a história da Família Clutter assassinada no interior dos EUA por uma dupla de ladrões; a história desses mesmos ladrões – Dick e Perry – e suas relações com o fato; e a história envolta à escrita do próprio livro e do seu autor em seu entremeio.

Ler A Sangue Frio é mais acompanhar um processo e fatos que se desdobram e estar menos preocupado na revelação de um assassinato. O livro já inicia com o fato revelado, já sabemos o que acontecera, o que o autor nos faz questão de lembrar o tempo todo logo nas páginas iniciais – “E depois, (o sr. Clutter) tocando a aba de seu boné, tomou a direção de casa e do trabalho daquele dia, sem saber que seria o último de sua vida”. Para Truman Capote o que interessa não é o que aconteceu, mas como aconteceu. E isso, alternando a história de cada núcleo da trama nesse que é um marco da literatura de não ficção, Capote vai construindo sua atmosfera sombria e fatal em um andamento tortuoso para o leitor que, sabendo no que vai dar, padece com a proximidade das horas. Dessa forma, o suspense é do processo de escrita e não da revelação do fato.

Ler A Sangue Frio é ler um livro tantas vezes representado pelo cinema, literatura e especialistas da área, mencionado por leitores e aficcionados, é ler um objeto, praticamente, conhecido, quase lido. É como se o livro já existisse em nós, sem nunca e apesar de nunca o termos lido. Esse efeito no leitor, em mim ao menos assim foi, dá-se sobretudo quando procuramos a figura de Truman Capote na trama factual como personagem, já que o que sabíamos em relação à obra era também a história de um autor que, em profundidade, verticalizou sua relação com os personagens Dick e, principalmente, Perry.

À medida que o lia, ia me perguntando por Capote, mas não o encontrava, o que mais tarde veio a ser explicado por ele para justificar sua ausência em função de uma certa – e falsa – objetividade que o texto precisava. Só ao final é que suponho ser a ele a quem se refere quando menciona o repórter para quem Dick enviou o poema epitáfio de um companheiro à morte: “E tudo que a beleza, tudo que a riqueza jamais deu/Esperam igualmente a hora inevitável”… Não retornei mais aos capítulos anteriores para identificar outras intervenções e presenças sutis do autor na narrativa – aspecto que contradiz conceitos como a “retórica do silêncio” que já o analisaram.

Desculpa para talvez poder voltar mais uma vez a essa que, sem nenhuma modéstia numa espécie de entrevista coletiva com Gore Vidal e Norman Mailer, o próprio Capote reconheceu como a obra-prima que tinha escrito, confrontando e se comparando com seus colegas de ofício que “no mais escreveram livros”, na observação sem meias-palavras do próprio Capote. Mas, a despeito de qualquer contribuição para o Novo Jornalismo / Literatura de Não-Ficção, A Sangue Frio também nos colocar diante de duas Américas. De um ponto de vista temático, sobre a geografia humana e física que enfoca, ler A Sangue Frio é também focar no momento em que duas Américas colidem.

De um lado, a América da tradição, dos valores consolidados no trabalho, na família e na religião, sobretudo na vivência em comunidade e enraizada no cultivo do solo e da terra. Do outro, a América dos valores que não se fixaram, prenhe de desvios, sem Deus, sem família, no vagabundear e na deambulação em busca da vida fácil, da violação constante da lei e da moral – em constante transgressão. Quando essas duas Américas se encontram, a colisão provoca uma fratura e revela uma distância abismal entre dois países que não coadunam, que não se reconhecem, que não tem como coexistirem. Em A Sangue Frio, Truman Capote captou todos esses aspectos e nuances sem precisar fugir de uma realidade mais factual e, sobretudo, sem perder o espírito do seu tempo do ponto de vista do tema e da forma.

Marcos Aurélio Felipe é professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e autor do livro “Ensaios sobre cinema indígena no Brasil e outros espelhos pós-coloniais” (Ed. Sulina, 2020). [ Ver todos os artigos ]

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