Cinderelo em Paris

O filme Meia noite em Paris, de Woody Allen, revisita um mito caro ao imaginário americano, presente em filmes como Um americano em Paris, A última vez que vi Paris, Moulin Rouge, Charada, Vítor ou Vitória e tantos mais – o Acossado, de Jean-Luc Godard, incorporou essa questão. O escritor Gil Sender declara seu amor pela cidade e expressa uma forte nostalgia pela geração ianque que brilhou na Paris dos anos loucos – a década de 20 do século passado. E encontra com esses personagens – Cole Porter, Scott Fitgerald, Ernst Hemingway, Gertrude Stein, os europeus Pablo Picasso, Salvador Dali e muitos mais –, no final da década passada (2001/2010), tal como os imaginou a vida inteira.

Se ficarmos no imediato do filme, teremos esse viés nostálgico preponderante. Mas há algumas sutilezas a serem consideradas: o escritor em crise com o sucesso financeiro como roteirista de Hollywood e querendo muito mais de si, a noiva ambiciosa por dinheiro e glamour mundano, cortejada pelo amigo falsamente erudito, a oscilação entre a certeza do dinheiro e as possibilidades do desconhecido.

Encontrar com aqueles norte-americanos e europeus célebres do passado reafirma o que se sabe deles mas carrega um molho da busca que está presente nos mais famosos deles. A conversa entre Stein e Picasso é muito significativa: o que se está fazendo não é ainda cânon, é experiência, dúvida, descoberta. A beleza estava nascendo sem o carimbo dos museus nem mesmo a remuneração milionária do futuro – era possível comprar um Matisse por quinhentos dólares…
Gil Sender se envolve cada vez mais com suas noites parisienses e finda rechaçado pela noiva, final feliz: na última meia-noite, ao invés do passado, o que surge é o futuro representado pela belíssima Gabrielle, vendedora de discos e outros objetos usados. O amor pode acontecer na vida.

Mais que celebridade, Gil procurava a profundidade que arte e amor representam.

Woody Allen parece falar de um mundo tão passado. A vitória do risco é um mundo muito presente e necessário. O amor por Paris é apenas a necessidade de amar.

Por último, é preciso registrar o talento de Allen como diretor de atores: nunca o ator Owen Wilson rendeu tanto. E a atriz Katthy Battes brilha como sempre.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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