Os 1001 projetos do cineasta Buca Dantas após uma década de “normalidade”

O que é ser normal? Desnecessário a conclusão abstrata, mas há um parâmetro estabelecido e essa padronização recai no estereótipo do pai de família preso numa rotina comum de trabalho e diversão possível.

É um modelo de organização social limitador da liberdade individual e, sobretudo, da criatividade artística. Então, por que um cineasta ativo, idealista, deixaria o campo pulsante da cultura para morar dentro da redoma social?

Se é artista potiguar, a resposta é quase óbvia: sobrevivência. A luta para erguer o audiovisual por aqui é árdua. E enquanto esteve só, Buca foi soldado exemplar na dura tarefa. Mas o roteiro agora é outro.

buca milenaTambém cansado do bom combate, Buca ganhou motivo extra para se afastar do cenário. Há um mês e uma semana foi pai de Joaquim Francisco, e a incerteza financeira do audiovisual provocou mudança no pensamento e na rotina.

E Buca voltou às origens seridoenses. Origens de nascença, ressalte-se. Nascido em Currais Novos, Buca passou uns anos em Acari e se criou mesmo foi em Santa Cruz, região do Trairi.

“Mas meu coração é seridoense”. E a frase remete a dois corações. Sua mulher, Milena Carvalho, é também filha do Seridó e irmã da poeta Iara Maria Carvalho, uma das fundadoras do Casarão da Poesia, que Buca passou a integrar.

E naqueles chãos ele tem passado os dias. Ou metade deles. A outra, ele vem a Natal. Presta serviço à Secretaria de Saúde. Como artista, ainda convenceu os burocratas para desenvolver ações culturais, mesmo que no âmbito da saúde.

Com apoio da Fiocruz, no Rio de Janeiro, Buca tem criado um canal sobre saúde aqui no Estado. E assim como na arte, tem procurado captar recursos para tal, já que falta essa rubrica no organograma da pasta. É o seu trabalho atual.

“Foi necessário virar um ser humano mais normal. Preciso de grana para o sustento do meu filho, da minha família. O (cineasta Alejandro) Jodorowsky fala que ele faz cinema para perder dinheiro. No nosso caso da produção independente é assim mesmo. Mas nem tenho esse dinheiro para perder. Na verdade, preciso é ganhar. Então, estou mais normal”.

Mas é normalidade passageira. “Sei o que quero com o cinema, e sei que tudo é caro, fora do meu alcance. Então, decidi trabalhar em benefício do meu filho. Em seguida, concretizarei meus projetos de cinema”.

CHAMA DO CINEMA ACESA
Recolhido em Currais Novos, o trabalho audiovisual de Buca tem se voltado àquelas paragens. Faz pouco tempo filmou o videoclipe Amanhecerá, uma das faixas do álbum Campos Grandes Reunidos, de seu concunhado Wescley Gama, que canta junto Milena Carvalho no videoclipe. Até então, o único videoclipe produzido por Buca foi para o Peixe Côco, A Luz, no início dos anos 2000.

Equipe do curta Meu Tempo é Quando
Equipe do curta Meu Tempo é Quando
Outro trabalho concluído foi o curta ‘Meu Tempo é Quando’, baseado em poema de Rosália Figueiredo, que roteiriza e divide a direção com Buca. Uma história de amor de uma mulher de 40 anos, interpretada por Titina Medeiros, e uma menina de uns 18 a 20 anos. “O filme é o que o poema é: poesia. Não trabalharemos a homoafetividade, mas o amor puro. O forte do filme está mais nas falas do que nas imagens”, descreve.

Esse trabalho foi mesmo para reacender a chama do cinema em Buca, feito com recurso próprio (pela produtora de Buca, a Budega Filmes) e para o cinema. Até já foi inscrito em festivais. Além de Buca e Titina, Luiza de Sá fez a produção, com ajuda de Milena Carvalho, e Mathieu Duvignaud dividiu a fotografia com o próprio Buca.

“Esse foi meu primeiro curta depois de dez anos. De lá pra cá, só micro documentários institucionais. Então, reacende a chama, ne?”, pergunta, já sabedor da resposta.

CINEMA EM PROCESSO
Quando este blogueiro ainda era estagiário de Cidades no Diário de Natal, em 2006, o editor de Cultura, Moisés de Lima, pediu para eu quebrar um galho e escrever matéria com o cineasta que estava ali na redação para falar de um novo movimento chamado Cinema Processo.

Dali entendi que o Cinema Processo se baseia na feitura prática do cinema, flexível quanto aos recursos financeiros e humanos e inflexível quando o assunto é o protagonismo local. Em resumo bem resumido foi essa a criação de Buca Dantas e do roteirista Geraldo Cavalcanti.

Uma década depois, Buca reacende a ideia de voltar com o movimento. Mas por ora, trabalha em outro projeto junto com o ator e dramaturgo César Ferrário, do grupo Clowns de Shakespeare. “Em um papo há uns três anos discutimos essa ideia. É um projeto caro, mas muito bacana e que pretendemos desenvolver”.

O projeto idealizado por Geraldo Cavalcanti é uma série de episódios com temática voltada à saúde dentro do universo familiar. Um estúdio será montado no Gargalheiras, em Acari. Lá, o núcleo ficcional de uma família típica brasileira, humilde, irá vivenciar a realidade dessa comunidade e as carências na assistência à saúde.

Serão dez capítulos independentes, sem linearidade. A série será exibida nas TVs públicas. Já há parceria com a Fiocruz e recursos do Governo Federal, via Secretaria de Ensino a Distância da UFRN em parceria com o Núcleo Audiovisual da Coordenação de Promoção a Saúde da Secretaria da Saúde do RN. Segundo o cineasta, a ideia é iniciar as filmagens no segundo semestre deste ano.

“Teremos um núcleo ficcional que problematizará os problemas de saúde, em tom de crítica, inclusive apresentando sugestões ao Ministério da Saúde. Vivemos uma situação sanitária no país extremamente delicada, provocada pelo mosquito. Então, o que pudermos fazer para apresentar soluções à população, faremos”, adianta Buca.

O projeto demorou uns dois anos para ser montado. O roteiro é de Geraldo Cavalcanti, com direção geral de Buca e direção de elenco de César Ferrário. “Vamos abrir audições para teste de elenco. Estamos animados, inclusive para buscar a economia de cultura para o audiovisual, já tão organizada no setor de música aqui no Estado”.

OUTROS PROJETOS
A “normalidade” de Buca é uma mente inquieta. Há também outros projetos em mente. Um deles já está amadurecido junto ao Casarão de Poesia. É a adaptação para o cinema de contos de autoria dos poetas Iara Maria Carvalho, Wescley Gama e Theo Alves. isso para médio prazo.

Sandro Fortunato e Buca
Sandro Fortunato e Buca
Uma adaptação do clássico de Hemingway, O Velho e o Mar, com cenários do Seridó, é outro projeto parado. “Tenho estudado para mestrado também. E além disso, um roteiro que já escrevi sobre a guerra civil espanhola, junto com a escritora espanhola Ana Garcia Iglesias, estou adaptando à literatura, em parceria com Sandro Fortunato”.

Todos projetos de pouco ou nenhum investimento. “São coisas possíveis. Para os três curtas, tenho uma câmara Nikon DSLR, de qualidade muito boa. E o livro é sentar e escrever”, afirma, enquanto aguarda as melhores condições de vida à família para retomar os grandes projetos.

Leis de incentivo? Buca desistiu. “Eu e Fabio De Silva inscrevemos dois projetos lindos no edital Brasil de Todas as Telas, pelo Governo Federal. O dele chamado As Três Marias, e o meu, Royal Cinema. E a nota artística avaliada para esses projetos foi irrisória. Isso desanima, cara. A chance que se tinha de fazer um trabalho bacana. Iríamos empregar uma galera massa”.

E Buca conclui, tomando emprestado uma máxima “Capistrana” para decifrar a forçosa normalidade de seu cotidiano: “O Brasil de Todas as Telas tinha conceito de descentralizar a produção cinematográfica dos grandes centros. Então, pensei: pra descentralizar nada melhor que o RN, mas parou na Paraíba. Pablo Capistrano tem uma teoria de que aqui temos o mar, extenso, mas tem as dunas para tapar. Então, para transpor essa barreira de areia é difícil.”

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

14 + 5 =

ao topo