Cinédia, 80

Por Ruy Castro
FSP

RIO DE JANEIRO – Uma grande instituição brasileira faz 80 anos: a Cinédia, primeiro estúdio de cinema do país. Dela, nos anos 30 e 40, saíram filmes como “Lábios sem Beijos”, “Limite”, “Ganga Bruta”, “Alô, Alô, Carnaval!”, “Bonequinha de Seda”, “Descobrimento do Brasil”, “Berlim na Batucada”, “O Ébrio” e, pode crer, parte de “É Tudo Verdade” (“It’s All True”), que Orson Welles filmou lá, em 1942.

A Cinédia foi o sonho de um homem: Adhemar Gonzaga, 29 anos em março de 1930, quando inaugurou as instalações em São Cristóvão. Ia a Hollywood, visitava os estúdios, aprendia as novidades técnicas e trazia tudo para cá. No apogeu, a Cinédia podia produzir, filmar, revelar, copiar e distribuir filmes de qualquer metragem, de cinejornais e documentários a dramas e musicais.

Gonzaga era um catalisador. À sua volta concentrou diretores como Humberto Mauro, Mario Peixoto, Carmen Santos, Lulu de Barros, Gilda de Abreu, Moacyr Fenelon e Mesquitinha, um intelectual como Roquette-Pinto e todos os astros da época. O Brasil lhe deve muito. Pois, com tudo isso, Gonzaga perdeu a guerra -para o exibidor, eterno inimigo do cinema brasileiro. E, se sustentou a Cinédia por quase 50 anos, foi porque torrou nela sua fortuna pessoal.

Quando ele morreu, em 1978, sua filha Alice Gonzaga tomou o leme e, desde então, luta para restaurar o acervo e conservar o fabuloso arquivo sobre cinema montado por seu pai e continuado por ela. Arquivo que Alice não pode abrir a consultas, porque não tem estrutura para isso.

Em outro país, o patrimônio da Cinédia seria pasto de disputas a dentadas entre ministérios da Cultura e empresas privadas que tentariam adotá-lo. Aqui, só se mantém vivo pela bravura desta mulher que trocou a sua identidade pelo legado de seu pai.

ao topo