Cinefobias

Marcelo Coelho
Papo Furado

Acentua-se a impressão de como era singular, e mesmo paroquial, a cultura francesa naquele tempo

SEMPRE ACHEI incorreto dizer que as pessoas “”gostam mais” de Coca-Cola do que de Pepsi, ou que “preferem” o guaraná da Antarctica ao da Kuat ou da Dolly.

O caso é mais grave. Muita gente tem medo de algumas marcas; fobia, na verdade.

Basta ir a um restaurante. Alguém pede uma Coca; o garçom informa que ali “só trabalham com Pepsi”. O freguês recua, esconde as mãos, encolhe-se na cadeira; sua recusa é absoluta. Ele aceitaria veneno; termina com uma água sem gás.

Sou imune a esse tipo de pavor; tomo Pepsi sem preconceito. Mas sofro de um pânico parecido quando o assunto é cinema.

Os filmes de Truffaut, vá lá, são como um guaraná da Antarctica de vez em quando. Mas, se me oferecem um Godard, estremeço mais do que se me servissem uma Fanta Uva.

Para vencer esse preconceito, fui assistir a “”Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”, ótimo documentário de Emmanuel Laurent sobre a amizade, e o posterior conflito, entre esses dois grandes nomes do cinema francês.

Meio século após a estreia de “Acossado” (foto), de Jean-Luc Godard, as simpatias de Emmanuel Laurent pendem claramente para o lado de Truffaut.

Passou, como se diz sempre, a época do radicalismo estético e ideológico. Enquanto Godard foi se encastelando na intransigência, seu rival passou praticamente incólume por maio de 68 e surge como um artista sensível e sincero, dedicado a desvendar os clássicos problemas do amor, do ciúme, do homem e da mulher.

A oposição talvez faça sentido, e o filme de Emmanuel Laurent mostra a violência da ruptura pessoal e política dos dois.

O efeito, para mim, pelo menos, foi um pouco melancólico. Acentua-se a impressão de como era singular, e mesmo paroquial, a cultura francesa naquele tempo. Não que Godard e Truffaut desprezassem o cinema produzido nos outros países: é bem o contrário.

Mas toda a admiração que tinham pelos diretores de Hollywood, pelo neorrealismo italiano e pela própria linguagem cinematográfica termina parecendo quase que secundária, diante da predominância de algumas paixões tipicamente francesas: o debate intelectual, a teoria estética, a crítica ideológica.

Afinal, a cinefilia não deixa de ser um gênero da literatura e do jornalismo, intensificado graças ao gênio francês para o discursivo, para a retórica ordenada e a demonstração lógica.

Foi Gide, se não me engano, quem disse que traduzir Shakespeare para o francês era como tocar piano sem usar o pedal. A ressonância e ambiguidade dos versos tendiam a secar-se, sob a sintaxe precisa do francês.

Há um certo grau de clichê nessa ideia, associando sempre a cultura francesa às regras de Descartes e do classicismo estético. Ainda assim, a “secura”, essa “ausência de pedal”, constitui elemento forte no estilo de “Acossado”, que revi agora em DVD, com muito mais prazer do que eu pensava.

“O filme não é muito para ser levado a sério, é?” A recepção do público da época, entre estupefata e respeitosa, aparece nas primeiras cenas do documentário de Laurent.

Trechos do próprio “Acossado” aparecem em seguida, reforçando essa pergunta do espectador anônimo. Na verdade, o filme de Godard aposta sobretudo numa estratégia de “desidentificação”. Não nos identificamos com seus personagens; por sua vez, o energúmeno vivido por Jean-Paul Belmondo é alguém tentando inutilmente se identificar com os heróis durões do cinema americano, um pouco como, 20 anos antes, alguns franceses se identificaram com o invasor alemão no regime de Vichy.

Deduragem, traição, ódio e fascínio pelo novo “invasor”, os Estados Unidos, dão o tom especialmente agônico de “Acossado”, em que a estética do cinema parece empreender uma desesperada “fuga para a frente”, a exemplo do protagonista da história.

Seja como for, tenho dificuldade em ver nas figuras de Godard e de Truffaut a genialidade de Bergman ou de Fellini; o auge da “nouvelle vague”, a julgar pelo documentário, parece hoje um evento que, embora influente no mundo todo, estava circunscrito a uma cultura muito particular, e a problemas específicos da integração francesa à esfera americana.

O cinema francês, desconfio, começava a ingressar gloriosamente na sua condição periférica.

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