Cinema e crítica

Por Geraldo Veloso – Cineasta, montador

Não consigo ver comparações (entre Filme Cultura e Cahiers): tempos diferentes, desenvolvimentos diferentes do cinema (e por paralelismo, do pensamento cinematográfico brasileiro) e personagens diferentes.

Mas tudo isso revela um tipo de comparativismo que acho extremamente imaturo (e estou falando de um homem próximo de completar oitenta anos: Ely Azeredo). Houve muitas revistas de cinema no Brasil, cada uma em uma época que contrapontuou um momento do nosso cinema. Cada uma teve um papel interessante. Até a Cinelândia, da Zenaide Andréa.

A questão da Filme e Cultura, é que ela surgiu em um momento de radicalização de uma briga política dentro do cinema brasileiro que contrapunha o Cinema Novo ao grupo que se encastelou em torno de Moniz Vianna no INC (Instituto Nacional de Cinema) dirigido por Durval Gomes Garcia e ele, Moniz. Moniz era claramente de direita. Golpista de 64, confesso (já contei o episódio comigo, na redação do Correio da Manhã, quando me deu um relato detalhado do seu testemunho e militância dos movimentos do “grupo do bar Pelicano”, em Copacabana, no Rio – Golbery, Meira Mattos e o “amarra cachorro” dessa turma, o Heitor de Aquino) e do IBAD/IPES (Instituto Brasileiro de Ação Democrática e Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – infelizmente o nosso tão admirado e talentoso Rubem Fonseca era redator dessa gente) de triste memória. Eram golpistas: sempre quiseram derrubar o Getúlio (que acabou se matando no meio de uma crise provocada por Carlos Lacerda e sua turma – Charles Borer, Almirante Penabotto, Amaral Neto, todos do Clube da Lanterna e da República do Galeão), o JK e se uniram para vencer o Marechal Henrique Duffles Batista Teixeira Lott, nas eleições que elegeram o “coelho” (rápido e rasteiro) Jânio Quadros (com o discurso da moralidade messiânica – repetido anos depois por uma figura que me recuso a pronunciar o nome) e não queriam dar posse ao vice-presidente eleito (na época votávamos no vice-presidente e Jango foi eleito junto com Jânio, embora fosse da chapa do Lott), João Goulart. E depois derrubaram o Jango.

Moniz Vianna (foto) radicalizou o cinema brasileiro criando um nítido processo de “anti-cinemanovismo”. Da sua turma participavam Ely Azeredo que herdou a coluna de cinema do Cláudio Mello e Souza, no JB (primo de Sarah, mulher do Joaquim Pedro, então – mãe de Alice Andrade) e de onde (apesar de ter criado o termo “Cinema Novo”) não tinha nenhuma complacência com o grupo. Havia nuances, é certo (Moniz fez críticas favoráveis a “Deus e o Diabo”, o Paulo Perdigão que era também de turma – depois se casou com a minha prima, Sônia, que lhe deu um casal de filhos – fez uma série de dez colunas diárias sobre o filme do Glauber, etc.). Mas nas posições funcionais no organismo de cinema criado (o INC, depois do Geicine, liderado pelo Flávio Tambellini) não davam colher de chá para o Cinema Novo. Boicotavam financiamentos, indicações para festivais internacionais (e nacionais) e faziam de tudo para desqualificar o processo político que envolvia a criação de um novo cinema no Brasil.

Prestigiaram os companheiros paulistas de Walter Hugo Khouri, Gervásio Rubem Biáfora e seus seguidores (Alfredo Sternheim, Maurício Rittner, José Júlio Spiewack) e outros mais ou menos identificados (Carlos Hugo Christensen, Watson Macedo – em fim de carreira como diretor – etc.). A turma do Moniz tinha em suas fileiras figuras como Salvyano Cavalcanti de Paiva (que um dia foi retirado de um estúdio de televisão aos berros contra Glauber, completamente histérico), Valério Andrade, Jaime Rodrigues e… Serginho Augusto e Walter Lima Júnior. Serginho era amigo de Cacá Diegues e não topou participar da onda de provocadores. Waltinho tinha sido “cooptado” por Glauber que o convidou para fazer sua assistência em “Deus e o Diabo” (junto com Paulo Gil Soares) e depois se casou com Anecy Rocha (aquela querida criatura) e fez o seu primeiro longa (a obra prima, “Menino de Engenho”) com produção da Mapa (do Glauber e do Zelito Vianna).

Maurício Gomes Leite era contemporâneo da turma mas estava, na redação do Correio da Manhã, mais ligado ao Otto Maria Carpeaux (a quem dedicou o seu primeiro trabalho de direção, “O Velho e o Novo”), Hermano Alves, Carlos Heitor Cony, Márcio Moreira Alves e seus textos destoavam da linha geral dos colunistas do “Correio” (é só ver os arquivos do jornal – alguém, uma hora dessas vai fazer isso) e logo foi para o “Jornal do Brasil”, trabalhar na internacional que chefioujunto com o Luiz Edgard de Andrade, no tempo do Alberto Dines.”

A “Filme e Cultura” é, sobretudo nos primeiros tempos, um espaço de expressão prioritariamente dos membros do grupo do Moniz. Hoje, com a reedição dos números antigos, é possível um trabalho de verificação arqueológica do que falo.

No período do Roberto Farias, na Embrafilme, isso mudou, com certeza. Mas, na minha modesta opinião, a “Filme e Cultura” não chega aos dedões do pé da importância que os Cahiers du Cinéma tiveram na formação do cinema contemporâneo pelo seu grau de pluralidade de visões do cinema, de provocação, de polêmica e de propostas teóricas. E não é só os Cahiers: havia (e há) o Positif, as italianas que começaram um processo brilhante de ensaismo, nos anos quarenta (Cinema Nuvo, Bianco e Nero, Rivista de Cinema), os ingleses na Sight and Sound, etc.

Sem comprações, por favor! Os franceses através dos “jovens turcos” (a “bande Schérer” – discípulos do Eric Rohmer, ou Maurice Schérer) Rivette, Chabrol, Truffaut e Jean-Luc (ou Hans Lucas ou Laszlo Kovacs) mudaram o cinema contemporâneo com a sua “politique des auteurs” (filha das ideias de André Bazin e de Alexandre Astruc e Roger Leenhardt – o cinema de “caméra stylo”). Os franceses ensinaram a elite intelectual americana a respeitar os seus “gênios” (Ford, Lang, Walsh, Vidor, Fuller, Ray e Hitchcock e Hawks) e mudaram a história do cinema. Daí surge a geração dos “movie brats”, formada nas escolas (havia poucas, então – o IDHEC, o Centro Sperimentali e surgia a de Lodz, na Polônia): Lucas, Coppola, Scorcese, Spielberg, Bogdanovitch, etc.

A “Filme e Cultura” não propôs nada de novo. Apenas pontuou o que ocorria de forma, usualmente sectária (ou por omissão), praticando uma visão de direita do cinema mais exuberante que se fez neste momento, no mundo: o Cinema Novo. Rosário, desculpe a diarréia mental. Não posso me calar diante este tipo de provocação. Sem julgamento: Moniz foi sempre (apesar de sua posição política) um grande crítico (influenciou muita gente na crítica brasileira, inclusive Cyro Siqueira lhe deve muito). Ely Azeredo é um operário do subjetivismo óbvio do criticismo. Um grande artesão do texto (tarimba ganha em anos de exercício diário da crítica) mas sempre preferi aquele que o substituiu no JB, José Carlos Avellar, mais lúcido, criterioso e bem informado sobre o cinema moderno (meu querido amigo e companheiro de estrada). Os outros, me desculpe, são muito fracos.

Os que debandaram da turma do Moniz (Serginho Augusto e Waltinho Lima Jr) falam por si mesmo: são brilhantes e competentes. E lúcidos, alto astral, positivos. Sem ressentimentos e rancores. São “gente”. Confesso um desabafo de um cara que testemunhou de muito perto tudo isso. Lia todos, regularmente. E, certamente, fiz as minhas escolhas. Mas, por favor, sem patrulhamento: o exercício crítico é o exercício da liberdade e da diferença. Em nome disto, assumo as visões que coloco acima.

P.S.: evitei falar da Revista de Cinema, nossa (não a do Hermes, que admiro). Prefiro que Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Wills Leal, Paulo Gastal, Paulo Emílio Salles Gomes e outros o façam. É só buscar os escritos deles.

Outro P.S.: que venha a nova “Filme e Cultura”. Precisamos de um bom espaço de reflexão cinematográfica. Mas não temos lacunas como já houve no passado (que foram preenchidas, num determinado momento, pela Revista de Cinema, de Minas). Hoje, felizmente, temos muitos espaços de reflexão sobre o cinema (em papel ou virtuais). Há uma nova geração de pensamento cinematográfico que surge, saudável, plural e feroz. Que bom!

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