Cinema

O filme Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee  (autor também de Brokeback Mountain, o filme dos cowboys gays) só presta se você sabe alguma coisa sobre este festival de rock que marcou os anos 60 como a ruptura essencial do século 20, quando se fala de comportamento e atitude. Pela primeira vez na história moderna conseguiram juntar mais de um milhão de pessoas em um só lugar para três dias de música, paz e amor.

Olha, veja bem, foram três dias de uma multidão sem nem sequer um empurrão de bêbado. Três dias regados a muita maconha, cerveja e LSD. Foi o último suspiro da cultura hippie. No próximo encontro, um show dos Roling Stones planejado pelos mesmos organizadores de Woodstock, um homem morreu esfaqueado por uma gangue de motoqueiros conhecida como Hells Angels. Pois é, os anjos do inferno botaram um ponto final no sonho.

Agora, vamos ao filme. Aconteceu em Woodstock toma para si a difícil tarefa de contar a história deste gigantesco festival sem mostrar nem uma cena do personagem principal, que era o show, óbvio. Um show com os maiores nomes do folk rock de então, Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Carlos Santana e Joan Baez  e por aí vai.

No filme, o show só aparece através de sons distantes. Porque o que se quer contar é o que se passa nos bastidores do festival e especialmente na vida de Elliot Talber, o cara que facilitou as coisas para a realização do festival na pequena cidade de White Lake, no estado de Nova York. Pois é:  O Rock in Rio em Lisboa não foi a primeira anomalia nos festivais. Woodstock não aconteceu em Woodstock (isso é informação para os mais jovens, não vale para os coroas).

Ellio Talber é o autor do livro Taking Woodstock: A True Story of a Riot, A Concert And a Life. Pois é disso mesmo que o filme quer tratar. Da vida das pessoas que foram afetadas diretamente pelo festival. Aí, amigo velho, o filme é competentíssimo. Prepare suas emoções se já tiver passado dos 40.

Como o diretor de fotografia Eric Gautier escolheu mostrar o filme como se fosse o documentário que tornou célebre os festival, você vai ter sempre a impressão de que está vendo tudo aquilo a partir da mais pura realidade. Pegue os DVDs  que mostram o festival na íntegra e compare. Depois me diga.

A decisão de mostrar os arredores do festival é a pérola na ostra do filme. Lá está o rapazinho judeu às voltas com sua mãe autoritária, pai pusilânime e a louca vontade de sair de casa. Lá está o rapaz rico e descolado, o organizador do festival (segundo me consta ele se mudou para White Lake e mora até hoje lá). Aí você é apresentado a um inacreditável travesti que é ex-soldado do Vietnam. De lambuja fica conhecendo uma multidão de malucos que num belo dia de agosto de 1969 resolveu largar tudo e passar três dias vivendo um sonho impossível. Nunca mais a humanidade repetirá este feito.

Por muito tempo achei que a cultura hippie era a coisa mais tola que já havia pisado a face da terra. Hoje eu os compreendo melhor. Mas o filme não deixa que você se iluda com isso. A realidade feia está sempre lá, rodando os meninos bons. Tem os mafiosos que levam uma surra de um punhado de pessoas comuns. Tem os neonazistas americanos que apanham do travesti acima citado. Tem o policial que diz que foi ali só para dar umas porradas naqueles hippies, mas recua ao ver a multidão.

Woodstock foi um desses acontecimentos que fazem a cronologia dar lugar à história. Os anos 50 estavam morrendo naqueles três dias para nunca mais voltar. A partir dali, sexo livre, drogas e pacifismo passariam a ser tratados de outra forma. O mundo dera um passo decisivo para a mudança nas relações pessoais. Pais e filhos, homens e mulheres começaram a compreender melhor seus lugares na sociedade. O filme de Ang Lee fala disso sem qualquer empolação acadêmica. Aqui o que se vê é só ironia, alegria e lucidez.

A vida real está lá, inteirinha, o tempo todo. Como a guitarra de Jimi Hendrix arranhando os primeiros acordes do hino americano à distância. Que belo filme!

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

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