Cinquenta anos e um infarto

Meu amado irmão sofreu um infarto. Está na UTI esperando a autorização do convenio para implantar três stents. No hospital o tamanho do amor que as pessoas têm por ele. Todos os amigos do seu trabalho presentes. Precisou esperar o final de semana pois o plano de saúde só autoriza nos dias uteis. O coração não. Só trinta minutos para visita-lo e tantos querendo vê-lo. De bata azul lá entro eu.

A enfermeira diz que não precisa perguntar pelo parentesco. Ele está bem e se queixando de não ter feito os exames no ultimo semestre. Penso que nada mudaria. Ele chora ao entrar na UTI sua filha mais velha. Eu entrei e ele conversou normal. Disse que tinha me visto na TV. Ele e mamãe têm orgulho de mim. Quase todos entraram e falaram com ele. Conversei com o médico que acha que não afetou o coração. Afetou sim, o coração de todos nos. Lembrei-me de papai assim também como meu irmão lembrou como num filme que passa. Papai faleceu de um ataque fulminante aos 55 anos. Penso que o pior passou depois do cateterismo. Vamos torcer para que tudo transcorra bem amanhã. Preocupado com mamãe que chora. Na UTI só uma TV para distrair.

Em cinquenta anos confesso que lutei e fui pai de três belas filhas. Vivi o que a vida pode. Nem mais nem menos. Criança no Alecrim; aprontei, trabalhei e viajei pela fronteira do meu país. Lutei contra injustiças. Lembro com saudades dos grandes patriarcas: Seu Tida, meu sogro, e meu querido pai, Melquíades. Aprendi muito com eles, exemplos de determinação, dedicação e labor. Saudades dos amigos Saulo, Dedé, Wilson, Paulo, Ribamar e tantos outros que fazem parte da minha educação sentimental. Em cinquenta anos muito o que agradecer e perdoar, mas há uma pessoa especial a quem homenageio nesse dia com todas as fibras dom meu ser assim eternamente grato. Minha adorada mãe Da Santinha Costa. Exemplo maior de coragem e perseverança; digo muito obrigado pela vida que vivi ao lado dos meus queridos irmãos. Somos em seis. Somos vitoriosos. Muito obrigado a todos.

Na sala de espera da UTI espero por noticias. O procedimento é invasivo, mas corriqueiro. A atendente pergunta o estado Civil, onde mora, idade, se toma algum remédio. Meu irmão tem pressão normal e nunca tomou remédio para pressão. Coisas tão intimas reveladas. Privacidade, nenhuma. O amparo dos amigos. O chá muito doce. Um café frio. A solidão, o desamparo desses lugares que mostra a nossa dependência. Na anti-sala da UTI não tem televisão. O medico que operou mamãe passa e acena. No outro andar tem um santuário para rezar. Estamos entregues. Nada a fazer, diz o marido da minha sobrinha. A dependência daqueles que têm na medicina um comércio frio e impessoal. A espera pela autorização do plano de saúde. Muitos médicos deixaram de atender pelo plano de saúde. Muitos não te olham. Os consultórios viraram os antigos INPS, onde gastei parte da vida sem poder andar direito. O jejum antes de um exame quando se espera horas. Morro de fome e tédio. Esse branco me faz chorar a gritos. As antigas revistas Veja que tenho que ler com o endereço postal do médico, esperando. Outra opção são as revistas médicas. Algumas faltam páginas. Sebentas. Na parede um quadro de um pintor local que não conheço. Espero que o meu irmão saia logo dali. Ele que é uma das melhores pessoas que conheço. Um grande cara. Um amigo sem igual. Sua filhinha menor pensa que a UTI é uma repartição do seu trabalho. O coração do meu mano sofre. As artérias estão obstruídas e todos os irmãos, parentes e amigos rezam para ele volte logo com a sua alegria de viver e humor que contagia. Salve meu querido irmão. Te abraçamos e torcemos por você.

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo