Ciranda de amores fáceis na terra de Kafka

Há uma crença bastante arraigada na tradição literária de que o exótico, o estranho, o não familiar, constitui uma forte motivação para a criação de ficção. Daí que a viagem ― busca do desconhecido ―, exerça um fascínio quase unânime entre escritores, o que resultou numa modalidade muito específica de escritura, que é a literatura de viagem. É ocioso citar exemplos porque eles estão para aonde quer que voltemos o olhar curioso e indagador.

Nesse aspecto, os contos de “O Livro de Praga: narrativas de amor e arte”, de Sérgio Sant’Anna (coleção Amores Expressos, Companhia das Letras, 2011), se constituem num excelente exemplo da literatura viageira dos nossos dias, por tratar-se de um escritor experiente que é colado proposital e desafiadoramente num ambiente a que cabe de modo especial a qualificação de exótico, estranho e não familiar, a que nos referimos acima. Esse ambiente é a cidade de Praga, segundo Carlos Heitor Cony, “a cidade mais bonita da Europa Central”.

Para Sérgio Sant’Anna, porém, as pontes sobre o Moldávia, com suas provocantes estátuas sacro-profanas voltadas para o passeio público, seus cegos de ocasião e seus músicos precocemente virtuosos, como avatares do primeiro Mozart, exercerão uma atração quase hipnótica, embora as ruas e vielas da Cidade Velha também findem por impor seu fascínio. Mas isso terá de esperar pelos desdobramentos de uma trama tão inextricável que bem poderia merecer ao livro o nome de romance ou novela, enfeixando, assim, as seis narrativas, num só urdimento.

O que torna a narrativa de viagem mais fascinante do que outras formas de narrativa, é a irrupção do inesperado que chega com a força de um elemento da natureza, invade o fulcro da narrativa e a embaralha a seu bel-prazer. Nesse aspecto, os seis contos interligados de “O Livro de Praga…” se esmeram em conceder o mais amplo espaço ao elemento surpresa, beirando as concessões que se dão os contos fantásticos.

É o caso, por exemplo, da narrativa inaugural, intitulada “A pianista”, na qual o narrador, (escritor visitante Antônio Fernandes) é subvencionado pelo seu editor brasileiro para se colocar em disponibilidade para a aventura na capital tcheca e logo na chegada tem uma aventura musical-erótica com uma pianista tcheca.

Na manhã seguinte, sentado sobre a amurada da ponte São Carlos (onde quase sempre se encontra, quer de dia, quer de noite), Fernandes salva uma pretensa suicida de se lançar às águas do Moldávia. Isso abre caminho para nova aventura erótica.

Na história subsequente, em êxtase com a estátua de Santa Francisca (cuja controversa santidade inclui episódios de visitas de Jesus Cristo a sua cela…), ele acaba subjugado por uma força que parece emanar da estátua. E, improvável que pareça, há um final feliz nessa comunhão entre homem e estátua…

Mas como se exigiria de Sérgio Sant’Anna que ele evitasse um episódio kafkiano, estando em Praga para escrever seu livro praguense? Esse conto se intitula “O texto tatuado”, talvez o mais burilado, o mais “literário” dos episódios, que lembra um artifício usado por Chico Buarque em “Budapeste”: a escritura do corpo. Dessa vez, trata-se de um suposto original de Kafka tatuado no corpo de uma jovem que se desnuda privadamente para Fernandes.

O sexto e último episódio envolve uma tenente com quem Fernandes já havia se relacionado durante o episódio “profano” no qual conspurcou a castidade de Santa Francisca. Agora, porém, a título de despedida, a tenente lhe mostrará, naturalmente de modo privado, suas qualidades feminis, onde sobressai uma fantasia masoquista.

A corrente de acasos cumulados de amores felizes, amores fáceis e gratuitos, confere ao livro de Sérgio Sant’Anna uma espontaneidade que é replicada na escrita ágil e direta, sobretudo nas cenas eróticas. Enfim, mesmo debaixo de vestes literárias, “la chaire est faible”…

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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