O circo armado na memória

Por Lívio Oliveira

Já não sabia mais se aquele circo erguido no tempo da memória existira mesmo ou não. Alimentei-me durante anos dessa lembrança que afirmava continuamente ter eu ouvido muitos bramidos noturnos de leões e elefantes e percebido outros sons e fortes cheiros produzidos por animais selvagens. Tudo no centro de uma Natal dos anos 70, Barro Vermelho em que, por um período inicial da infância, antes da longa temporada na rua Segundo Wanderley (esta última durou até o meu casamento, em 1996), morei com minha família numa rua paralela à Meira e Sá.

Ao ler uma das crônicas elencadas no saboroso livro póstumo de Luís Carlos Guimarães, recentemente lançado na Cooperativa Cultural da UFRN, “Natal, tempo de uma cidade feliz” (Oito Editora, 2015), pude confirmar que aqueles resíduos de memória – que teimavam em vir à tona em eventualidades curiosas e inusitadas – eram, de fato, verdades guardadas em escaninhos mentais de difícil acesso. Talvez porque naquela época dos circos armados no Barro Vermelho eu ainda estivesse nos meus primeiros anos de aquisição e manutenção dos arquivos mnemônicos. Ou talvez tenha mesmo reprimido as lembranças por qualquer um desses motivos que os estudiosos de Lacan e Freud sabem explicar bem melhor.

Eis que, de repente, chega-me esse Fio de Ariadne, essa Madeleine proustiana que é o texto de Luís Carlos Guimarães, quando fala acerca de um dos seus amigos, “O boêmio Albimar Marinho”, um dos personagens desenhados no belo livro organizado por seu filho Ricardo Luís Guimarães. Um trecho terminou me provocando inquietações de natureza sentimental:

“(…) Desatado lírico, guiava-o a bússola do sentimento. Discursava para a noite e as estrelas. Tresnoitado, curtindo uma ressaca braba, no dia já amanhecido, dirigiu-se ao circo armado perto da sua casa, no terreno baldio ao lado da Rua Meira e Sá. Comprou um balaio de pães do ‘pãozeiro’ madrugador e distribuiu aos elefantes do circo. Dizem que o palhaço, já àquela hora acordado, comovido, não conteve algumas grossas lágrimas que desceram pelo rosto ainda mascarado.”

Confesso que ao ler a crônica memorialística de L.C.G. também fiquei comovido, quase até as “grossas lágrimas”, como o palhaço insone, fidelíssimo guardião do circo. De alguma forma, Luís Carlos se transformava no compositor das minhas lembranças; pois, mesmo que ausente, mesmo que tivesse ignorado o que estava por vir, provocaria – em meio a este Dois mil e Quinze – uma certa balbúrdia no meu coração e na minha lacunosa inteligência. É que foram poucos os detalhes que os meus pais e irmãos me contaram dessa época em que a família compartilhava – quase que a mesma parede (ou lona) – com os circos que acampavam a poucos metros da nossa casa. E aí ficaram as fantasias. Muitas. Mais numerosas que as do palhaço vigilante. Tantas, que terminariam se transformando em imagens sonhadas, sons do inconsciente, cheiros fortes que invadem ainda a memória recalcitrante e confusa, a qualquer instante e em qualquer canto da cidade ou dalhures.

No meio desse turbilhão de sensações oníricas ou reais, não tenho certeza se o meu preferido, o circo internacional Orlando Orfei também chegara a se firmar, por algum tempo, naquele terreno vago próximo à rua Meira e Sá, ou se teria se fixado algumas vezes na rua Ceará-Mirim, mais para as bandas do Tirol. Sei apenas que foi lá, naquele pequeno mundo coberto, que me deslumbrei fantasticamente com a arte circense e suas cores e luzes e músicas e movimentos, possivelmente transferindo em completude esse deslumbramento para o momento em que descobri o cinema circense de Federico Fellini, meu diretor preferido, alguns anos adiante.

Ocorre que, diante dos sentimentos provocados pela leitura do texto em prosa (repleto de poesia) de Luís Carlos Guimarães, terminei me sentindo no dever de buscar informações sobre o grande Orlando Orfei no oráculo Google. Queria saber sobre o seu paradeiro, ou picadeiro atual. Mais um estranhamento, uma perplexidade: Orfei faleceu neste ano (Ah! Dois mil e quinze e suas parcas explicações!), no duro mês de agosto, com seus 95 marcos temporais bem realizados: números de mágica, palhaçadas e a dominação – com riscos calculados – das feras. Orfei esteve, vivendo tudo isso, sempre entre os maiores nomes de circo no mundo.

Diante da constatação de que Orfei já não mais se encontraria nas redondezas, mesmo que eu procurasse por todos os terrenos baldios do Barro Vermelho, reuni minhas energias domingueiras e fui buscar um lápis, papel, além das forças mínimas para domar as feras atemporais da memória acesa. É porque um feérico, frenético e colorido circo nela havia se instalado, mais uma vez.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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