Civilização & Barbárie: teve festa de padroeiro irlandês na quentura do nordeste brasileiro

Na semana passada, você deve ter ouvido falar em festas alusivas a um santo britânico chamado Patrick.

Nas redes, em panfletos, no boca a boca, o St. Patrick’s Day foi celebrado com empolgação – até escolas promoveram comes e bebes em homenagem ao missionário cristão que nomeia a arquidiocese metropolitana de Nova York.

Trajado de verde e laranja, cartola no cocuruto e caneca de chopp na mão, um barbudo ruivo e sorridente estampava cartazes.

Aportuguesado, ele é são Patrício, padroeiro da Irlanda, terra natal dos ancestrais de 13% dos norte-americanos – correntes migratórias irlandesas registram fuga em massa nos séculos XVII, XVIII e, sobretudo, durante a Grande Fome de 1845-1849, cuja contaminação da batata (principal alimento de um terço dos nativos) com uma bactéria matou cerca de um milhão de pessoas e expulsou outro tanto desse para Canadá e Estados Unidos.

Em Dublin, Cork e outras cidades, o fuzuê é uma espécie de carnaval pacificado.

Qual a ligação disso tudo com o Brasil?

Até onde o Google e os livros permitem, nenhuma.

Fica a impressão de ser mais uma jogada publicitária para incrementar o entretenimento de ‘alto padrão’.

Anglicizar ou afrancesar a coisa pode ser interessante para os negócios.

Quer vender comida ou um ambiente como sofisticado? Tasca um ‘gourmet’ que está tudo resolvido.

Tem espaço gourmet, varanda gourmet, hambúrguer gourmet, salada gourmet, cerveja gourmet, tapioca gourmet, risoto gourmet, etc.

Construiu um prédio residencial e quer mostrar requinte?

Vai de Club, Park, Village, ou nome de pintor renascentista que o sucesso é garantido.

Mas voltemos ao St. Patrick’s Day.

Entro no site do Ministério das Relações Exteriores e vejo que Brasil e Irlanda estabeleceram contato diplomático pra valer em 1975, três anos depois do Domingo Sangrento, uma torarréia entre católicos, protestantes, o IRA e o Exército Inglês, que terminou com 14 mortos e 26 feridos – como num final de semana qualquer do ITEP natalense.

O U2 compôs trilha sonora para o episódio com a manjada Sunday Bloody Sunday.

Vasculho em vão por algum elo com a cultura brasileira.

Então procuro a opinião do Padre João Medeiros Filho, intelectual dos mais respeitados e atenciosos nesta esquina pagã.

Transcrevo a íntegra de seu áudio via WhatsApp:

Pe Joao Medeiros“São Patrício é pouco venerado no Brasil. Há alguma devoção por conta dos monges beneditinos que o difundiram em alguma parte do nosso torrão brasileiro. Só que na verdade essa devoção é muito restrita. São Patrício ficou muito conhecido, ultimamente, após a difusão e a propagação do famoso livro As Brumas de Avalon [da escritora americana Marion Zimmer Bradley, de 1979], em que ele, na verdade, fez um trabalho para reverter a devoção, o costume, o folclore dos druidas. A partir daí houve uma difusão à sua devoção que nada é preconizada e difundida pela Igreja Apostólica Romana, nem mesmo pela Igreja Anglicana. É exatamente um costume um tanto pagão [o St. Patrick’s Day], que está se tornando um modismo no Brasil, como é o caso também do Halloween, e de outras festas que não são festas religiosas cristãs”.

Um modismo.

Pois, bem.

É importante provocarmos intercâmbios culturais tanto com nações que influíram em nossa colonização, quanto as longínquas e ausentes na formação do Homo Brasilis.

Só que o oba-oba em torno do St. Patrick’s Day no calorento Nordeste brasileiro dá razão a quem alardeia a ‘colonização’ cultural vigente por estas bandas – logo aqui, onde europeus descobriram um Novo Mundo, fato mais importante para o Ocidente desde Jesus Cristo (ou a Queda de Roma?).

O St. Patrick’s Day é comemorado no dia 17 de março – dois antes da data de são José, este sim, presente na tradição católica latino-americana, padroeiro dos trabalhadores e agricultores, e sem vez nos rega-bofes do Plano Palumbo ou de Ponta Negra.

O que quero dizer com isso é que, ao importarmos símbolos e rituais por mero valor mercadológico, perdemos uma chance de ouro de valorizarmos a marca Brasil, Nordeste, Rio Grande do Norte, Natal, que seja.

Algo tão apreciado no além-mar – e recusado pelos bacanas daqui, que decalcam seus carros com a bandeira do Reino Unido e usam camisetas com brasões de clubes de golfe e polo, modalidades esportivas, como se sabe, popularíssimas no Brasil.

Cria-se uma geração de pessoas sem ligação com o próprio entorno, vulneráveis feito criança diante de uma tevê.

O ‘local’ é sempre retrógrado, brega, atado a um estereótipo reducionista, tacanho e desmoralizante.

O que vem ‘da gringa’ está eivado de civilização, de bom gosto, finura – nome de condomínios, restaurantes e concessionárias automobilísticas protagonizam a puerilidade existente por aqui.

St Patricks.4Quiz macunaímico:

Para nós, brasileiros, o que vale mais: esmiuçarmos a Segunda Guerra Mundial, o Egito, ou os pormenores da chegada dos ibéricos neste paraíso cheio de serras, florestas e sertões, com a bagagem lotada de africanos de diferentes etnias, diante de civilizações indígenas das mais diversas?

Parte da balbúrdia ideológica do momento, creio eu, passa por esse descompasso de valores.

Falou em estudar negros e índios como se deve, a gritaria começou.

“É a doutrinação! Papo de riponga do Setor II, de quem lê Karl Marx e não gosta de trabalhar”, diria aquela loira pintada que foi de salto alto para a manifestação sem saber o que é um impávido colosso.

Triste do trópico que encandeia a própria luz.

Seus filhos crescem cegos ou míopes, mal veem o que está logo adiante, só à espera de um facho para frutificar.

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