Civilizações

Por Daniel Piza
ESTADO

Civilização é aquele tipo de palavra que só deveria ser escrita no plural, porque cada um tem sua definição para ela. Por isso fiz em 1997 uma lista de vários itens que para mim soavam civilizados, desde dar bom dia ou ter bons serviços públicos até poder ler grandes obras em seus idiomas ou escutar Maria Callas cantando Casta Diva.

Historiadores como Arnold Toynbee e Will Durant (tão esquecidos!) trataram de civilizações no sentido de grandes ciclos culturais, dos fenícios e egípcios até o Novo Mundo. Já Mario Vargas Llosa defendeu em sua coluna que a civilização começou com o esgoto, com o acesso geral às redes de saneamento básico. E intelectuais como os que citei na semana retrasada – George Steiner, Ezra Pound, Saul Bellow – acham que a civilização é um arco que vai de Aristóteles a Einstein ou de Homero a Proust e, portanto, está em vias de extinção desde a Primeira Guerra (1914-18) e da ascensão da cultura de massas americanizada, pop, descartável, etc.

O curioso é que muitas das chamadas “grandes obras da civilização ocidental” são uma crítica à ideia de que as culturas possam ser nitidamente separadas em “civilizadas” e “bárbaras” e um alerta para o fato de que a tal barbárie está em nós, em nossos próprios impulsos destrutivos, que inocentemente julgamos poder reprimir sem custos. De Montaigne a Freud, essa crítica e esse alerta foram contundentes. Ou então pense nos romances geniais de Joseph Conrad, como O Coração das Trevas, em que o branco europeu que se julga superior às tribos que encontra no Congo termina gerando um grau de autoritarismo e crueldade inigualável – o que Euclides da Cunha captou também na Guerra de Canudos. Quando vemos que a política externa americana teimou durante tantas décadas em apoiar ditadores por suposto anticomunismo e antiterrorismo, como Kadafi, até que as próprias nações árabes do Norte da África deram seu grito de liberdade, sabemos muito bem, políticas à parte, do que Conrad e Euclides falavam.

No entanto, como negar os avanços da cultura europeia, do Renascimento ao Modernismo, passando pelo Iluminismo? Kenneth Clark escreveu que essa civilização se consolidou pelo endosso ao talento individual e pela crença nas faculdades humanas. Como não ver em Voltaire – com sua lucidez contestadora e criativa, sua defesa da liberdade religiosa, sua exaltação da ciência e da arte – como a melhor tradução da civilização em um homem só? Os ganhos de conhecimento e liberdade conquistados ao longo desses cinco ou seis séculos, apesar de todas as guerras e discriminações, foram consistentes e levaram esses países a ultrapassar civilizações que até o século 15 as superavam, como a chinesa e a islâmica. Ler Shakespeare e entender as revoluções de Newton e Darwin, para ficar em três conterrâneos de Clark, são acima de tudo um prazer mental, um modo de usufruir um dinamismo que move o cérebro e o corpo.

Devemos, porém, à cultura dos EUA boa parte da renovação dessa herança europeia. É fato que hoje não vemos tantos grandes nomes nas artes, mas há muitos fatores que podem ter levado a isso, inclusive um certo esgotamento formal, uma certa sensação de que gêneros antes centrais como o romance, a pintura e a música orquestral já não influenciam tanto. Mas novos e poderosos meios de comunicação se firmaram com vigor, como o cinema e a TV, a narrativa de não-ficção prosperou e a ciência continua abrindo caminhos sensacionais, da genética à física, da neurologia à medicina. A democracia é uma aspiração quase global, em cada lugar a seu modo, mas sempre movida pela noção de que a ascensão social deve se basear mais em méritos do que em privilégios. Muitas pessoas esquecem que Duchamp estava realmente elogiando a engenharia americana ao enviar um urinol para um museu, embora cometendo a besteira de alimentar o preconceito contra o passado, preconceito tão nocivo na cultura atual.

Nesse sentido, não entendo que tantos políticos e intelectuais tenham se voltado contra o mesmo progresso que criou tais influxos libertários. Sim, é errado supor que tais grandes nomes sejam mera expressão de suas culturas; não chego a dizer como Godard que “cultura é regra, arte é exceção”, mas os gênios são, com frequência, os que enfrentaram a convenção. A convenção não é a verdadeira tradição, como alegam os conservadores; é sua distorção oportunista, sua diluição comodista. O que é duradouro um dia foi novo. Mas pelo mesmo motivo não dá para opor civilização e progresso, já que este lhe forneceu os elementos para “ver com olhos livres”. Gosto da opinião de Llosa, mas acho que muitos outros inventos fizeram parte dessa história. Por exemplo: sem o dinheiro, o relógio e o motor, que já geraram tantos textos furibundos de anticapitalistas e religiosos, muitas das relações humanas se pautariam por categorias raciais e provincianas, muitas ações seriam desorganizadas e desmedidas – pois não revertemos o tempo – e não teríamos a distribuição de renda e cidadania que temos hoje nos países mais desenvolvidos.

Veja outro invento que poderia simbolizar tudo isso, o livro. Não sendo mercadoria de necessidade básica, poderia ser visto como produto sem valor; sem a invenção das máquinas de impressão, não teria saído das mãos dos monges, se espalhado pelo mundo e gerado o jornalismo; não teria transformado a industrialização e a urbanização em temas de reflexão, para levar conhecimento ao homem comum e vigiar as artimanhas do poder. O avanço tecnológico não traz apenas coisas boas, mas é impossível dizer que sem ele a humanidade desfrutaria dos direitos civis e padrões sociais de que hoje desfruta. E a ciência não contribuiu apenas com equipamentos e tratamentos, os quais aumentaram a expectativa de vida para mais de 80 anos em muitos países do século 21; contribuiu com a mentalidade civilizada, com a confiança do indivíduo em ter um ponto de vista independente sobre o mundo. Diante de um Rembrandt, não vemos a propaganda da aristocracia, da igreja ou de si mesmo: vemos sua apreensão única desses temas, sua individualidade insubstituível.

Talvez seja mais fácil dizer o que não é civilização em vez do que é. Quando leio que em Itupiranga, no Pará, há 160 assassinatos a cada 100 mil habitantes por ano, sei que ali não existe uma civilização. No Brasil, por sinal, a cultura vigente – formulada em boa parte por sociólogos e artistas de um século para cá – diz que existe uma vocação para a harmonia social, racial e sexual, a “aceitação das diferenças” que é outro traço distintivo da civilização moderna, urbana e democrática. Mas essa visão, como já escrevi, não resiste a uma semana de notícias. Como Llosa poderia lembrar, metade da população não tem acesso a saneamento, para não falar em livrarias, cinemas e boas escolas. A civilização brasileira não precisa ser igual à americana ou à europeia, e se o fosse não seria civilização. Mas sem as condições para que a grande maioria de seus habitantes tenha justiça, saúde, liberdade, conhecimento e criatividade – os cinco ingredientes sem os quais os caldos de cultura não se condensam em civilizações – qualquer pretensão se evapora.

Rodapé. O primeiro volume de As Entrevistas da Paris Review (Companhia das Letras) é um banquete para quem gosta de literatura e jornalismo. São entrevistas antológicas,com escritores como Primo Levi,W.H.Auden, Céline e Faulkner. Há momentos de delicioso mau humor, como Hemingway respondendo“Como nomeia seus personagens?” de forma curta e grossa: “Da melhor maneira que posso”. Ou Borges reclamando das pessoas que querem ver “mensagens” em seus contos: “Quando escrevo, escrevo porque uma coisa precisa ser feita”. E declarando que quis fazer um híbrido de ficção e ensaio, como,digo eu,quase todos os modernistas. Ou então há respostas curiosas, como Truman Capote dizendo que lê cinco livros por semana. Eis uma boa leitura para esta semana.

Por que não me ufano. Sempre que chega a época de carnaval a mídia se enche de interpretações do que ele significa.Como o futebol, ele é obviamente uma festa que espelha valores bons e ruins da sociedade brasileira, no modo como são praticados; mas há uma insistência em converter ambos em projetos dessa sociedade,em roteiros para sua salvação. No caso docarnaval,uns veem por trás de seu desbunde profano um desejo de eternidade, uma busca do sagrado; outros veem a revolta social,a críticada hierarquia brasileira,a catarse dos recalques acumulados nos “dias úteis”.Menos,menos.O carnaval é o que as festas coletivas são:uma diversão excessiva, uma vontade de entrega aos instintos, uma tradução da tristeza em alegria (não uma simples expressão de alegria).Deixem a brincadeira ser apenas isso, uma brincadeira – ou tudo isso.

● Aforismo sem juízo

A arte é a única coisa que no hiato entre o que somos e o que aparentamos ser nos lembra de que o hiato existe.

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 + dez =

ao topo