Civone Medeiros e a arte sangrada

Fotografia de capa: Franklin Levy.

Decidi, um dia, escrever uma tese sobre o livro Escrituras Sangradas, de Civone Medeiros, orientada pelo professor PhD em filosofia Eduardo Pellejero, UFRN.

Este é o primeiro ensaio que publico depois de quase cinco anos de pausa, em agradecimento ao acolhimento dado por este homem-filósofo, as fotografias gentilmente cedidas pelo meu amigo e fotógrafo Lenilton Lima e minha pesquisa-mulher, viva, em vida, jamais objetificada…

O que há nesta imagem?

1999… seus olhos estão marejados e brilhantes, olham para frente e ao longe. Os traços são delicados, olhos pequenos, um pouco inchados, sobrancelhas feitas, nariz bem desenhado, rosto magro, boca fina. Usa óculos com lentes, arredondados e armação fina.

A imagem registra o momento da sua fala. Há delicadeza e profunda expressão. Braços miúdos, magros,  poucos músculos. Acima, nos ombros, uma tatuagem. São as máscaras do teatro grego, alusão à tragédia e à comédia.

Seu vestido tem duas partes, uma escura que segura o pequeno busto, com alças finas, outra mais clara, que começa no tórax. O tecido tem brilho, é aveludado e parece apertá-la.

A parede apresenta desfocadamente a imagem que sugere quadros e uma janela, na parede a sua sombra…No pescoço, um colar curto, escuro,  trançado em sua extensão por pedras e miçangas.  Cabelos longos, ondulados, também escuros, despenteados.

Em sua mão esquerda, com dedos finos e longos, uma garrafa de cerveja e um papel…há muita gente ali, diante desta mulher que segura, em sua mão direita, um microfone.

Civone Medeiros publicava, com alguns recursos, poucos exemplares do seu primeiro livro de poemas, Escrituras Sangradas. No lançamento, em Nalva Café Salão, na Ribeira, amigos contam que estiveram lá e viram quando a autora, num gesto performático, distribui, aleatoriamente, as folhas do livro editado em forma de encarte.

Deixo-me prender na imagem, permito-me que ela me capture, passo da região do real, do lançamento do livro, daquela mulher que fala ao microfone e com a qual estabeleço um diálogo através da sua imagem para uma profundidade não vista, não alcançada, faço dela íntima, a capturo para me deixar capturar por ela “fora de nós, no recuo do mundo que ela provoca, situa-se, desgarrada e brilhante, a profundidade de nossas paixões.” (BLANCHOT, 2011) e cá estou eu diante daquele olhar tão profundo e tão superficial, pois que brilha como espelho que devolve qualquer imagem que se colocar diante…penso em seus olhos como espelho e imagino se, estando ali, como seria?

Fotografia: Lenilton Lima

Protagonismo feminista

2014…Desde quando resolvi contar ao mundo sobre abusos que sofri na infância, esta tem sido quase uma bandeira de luta para mim. Pensei que, ao entrar novamente numa espécie de ativismo feminista, encontraria aí uma saída diluidora de angústias.

Foi quase invisível o quanto aquelas palavras, depoimentos, denúncias se aproximaram da minha experiência como vozes libertadoras de opressão, mas meu corpo doía, dilacerava junto com as palavras…

As vozes multiplicaram a minha experiência, tomei as dores delas como se minhas fossem, desde o primeiro contato ao último.

Estávamos, eu e Civone, em nossos protagonismos feministas, cada uma no seu espaço de fala, de escrita, de experiência, mas o impulso causado pela necessidade de falar, de gritar, de muitas de nós, foi quase como golfar. Unimo-nos numa fala comum, porém, não somos iguais.

Mulheres de diferentes espaços, negras, brancas, pobres, classe média, bissexuais, cis, homossexuais todas unidas ao que nos torna protagonistas: a opressão diária. 

Os depoimentos, os fatos, as notícias e a impressão que temos é que isso nunca irá acabar… eu, enquanto tento organizar todas estas situações em  mim, na minha experiência e, pela empatia, me sinto conectada a estas mulheres, me distancio de algo que há pouco tempo era conhecido, como se não me reconhecesse dentro do meu espaço solitário até então, em que as percepções estavam quase facilmente significadas e acomodadas… é quando meu corpo pede silêncio, quando a palavra cala mais que tudo e me enclausuro, encasulo, para que a vida me retome ou, o contrário, esqueça-me.

O excesso de realidade chegou num limite quase doentio em que o medo passou mais tempo em mim todos os dias, principalmente, quando ia dormir, sentia medo da morte, medo dos homens, medo dos espaços, medo do medo.

Conspiração de invisibilidades

Estamos sempre atentas, perceptivas e, ao contrário do que pensei, me senti mais vulnerável do que protegida, pela adrenalina dentro de todo este processo, quase me pego sem o direito ao devaneio… esta perda foi quase meu risco…diante de poucas saídas, com o que nos resta sonhar?

Leio um poema de Pizarnik…

En esta noche, en este mundo

A Martha Isabel Moia

en esta noche en este mundo 
las palabras del sueño de la infancia de la muerta 
nunca es eso lo que uno quiere decir 
la lengua natal castra 
la lengua es un órgano de conocimiento 
del fracaso de todo poema 
castrado por su propia lengua 
que es el órgano de la re-creación 
del re-conocimiento 
pero no el de la re-surrección 
de algo a modo de negación 
de mi horizonte de maldoror con su perro 
y nada es promesa 
entre lo decible 
que equivale a mentir 
(todo lo que se puede decir es mentira) 
el resto es silencio 
sólo que el silencio no existe

no 
las palabras 
no hacen el amor 
hacen la ausencia 
si digo agua ¿beberé? 
si digo pan ¿comeré? 
en esta noche en este mundo 
extraordinario silencio el de esta noche 
lo que pasa con el alma es que no se ve 
lo que pasa con la mente es que no se ve 
lo que pasa con el espíritu es que no se ve

¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades? 

ninguna palabra es visible

Encontro nestes versos minha angústia e minha saída, a possibilidade de que a palavra possa preencher o vazio que identifico, que possa alcançar a angústia, a dor, o sofrimento, o medo, de que possa algo, me salve.

Arte e ativismo

Mas a palavra é, em si mesma, ausência, ela desloca, retira, modifica a experiência sem apontar para um fim específico…  “hacen de la ausencia”.

É quando o escritor, o poeta, o intelectual, diante de uma realidade identificada como trágica, caótica, pergunta-se: é possível ser artista e ficar alheio a tudo isso?

 Este foi o questionamento feito por Nina Simone, numa entrevista que faz parte do documentário sobre a sua vida. Nina Simone foi uma cantora negra das décadas de 60-70, pianista, ativista pelos direitos civis norte-americanos.

O documentário mostra que sua trajetória foi marcada pela violência cometida pelo marido, que era também seu empresário, o que, segundo relatos, desencadeou diversos surtos agressivos, ao mesmo tempo, o talento com o qual executava as suas composições.

Nina Simone, enquanto mulher negra num país em que brancos perseguiam e matavam negros diariamente, não conseguiu mais ser artista sem voltar-se para os direitos humanos. Suas canções passaram a ter um caráter político, porém, após a morte de Martin Luther King Jr. ativista do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, assassinado em 04 de abril de 1968, Nina Simone desanima-se.

Afirma que não existem direitos civis e vai morar em Barbados, na América Central, afastando-se da família e do seu país, que expediu um mandato de prisão pela sua sonegação de impostos em protesto pelo envolvimento dos Estados Unidos na guerra do Vietnã.

A cantora passa a acreditar que não há mais saída para os negros, não há saída para ela, até que depois de um período de sofrimento e de viajar para vários países retorna a cantar e vai para a França, passa a trabalhar com outros produtores e recomeça seu envolvimento com a música sem querer mais aproximação com o ativismo político.

Labaredas da fogueira interior

A experiência de Nina Simone me fez refletir novamente sobre a relação conflituosa entre ativismo e arte, sobre o que seria uma arte que não se afaste dos anseios e necessidades de um tempo, que não seja indiferente e não apague as opressões, do quanto isso pode não estar presente de forma evidente na própria arte e, mesmo assim, ser político.          

A literatura fala do que escapa, como se buscasse alcançar a experiência original, primeira, da realidade vivida que é, simultaneamente, a própria falta e, por isso, angústia…

la lengua es un órgano de conocimiento 
del fracaso de todo poema 
castrado por su propia lengua 
que es el órgano de la re-creación 
del re-conocimiento 
pero no el de la re-surrección 

            Não há como ressuscitar, pela experiência da palavra, a experiência primeira, quando muito aproximar-se dela, relatar fatos e, neste sentido, a palavra, quando é literária, desloca a vivência do seu lugar de origem para dar outras formas, faz circular em outros espaços, desvia, corta, escapa…

Golfar poesia

Como quem goza e esporra

Como quem orgasma em gozo

Como quem sua e assume

Como quem grita e baba

Lapidar experimental

Coimo quem andarilha

Por destinos

Incertos

E arredios

Adeus à calma

Da lamparina ao pavio

Da chama da vela a luz

Encontro certo

Com o que mascara e revela

Labaredas de fogueira interior

A se rebelar com o meio-dito

Meias palavras

E verdades

Meias…

Este poema de Civone aproxima-se de algo que sinto ao escrever neste momento catártico, o desejo de que as palavras saiam sem necessariamente saber o porquê, o que sinto é que, assim como as falas, as palavras explodiram num movimento coletivo de afirmar o óbvio, as denúncias, os abusos, as violências, anos de silêncio…

Fotografia: Flávio Aquino

Uma espécie de gozo

Mas este falar, por si só, não é ainda necessário a mim, é preciso, além de falar, golfar, vomitar e espalhar este vômito de forma tão intensa que ele passe a perder o seu sentido, pulverize-se e ganhe novos sentidos… ”labaredas de fogueira interior a se rebelar com o meio-dito”…

São quase duas da tarde, hoje é o último dia do ano e estou aqui com uma sensação de peso na barriga, o medo tenta tomar conta de mim às vezes, ao longo do dia, eu tento não deixar.

Agora, ainda sob a sensação de desconforto no estômago eu escrevo e, à medida que escrevo, sinto como se retirasse de mim este incômodo “como quem grita e baba” e a sensação que experimentei de angústia no início desta madrugada transforma-se em uma espécie de gozo.

Momentâneo, instantâneo, prazeroso. Penso que a experiência, neste limite temporal, ultrapassa os corpos, sem aniquilá-los, os gozos são o que são, sensações extremas de prazer que, mobilizadas por fatores diversos, nos provocam um dilaceramento da experiência cotidiana para além das significações.

Os dedos nas teclas a escrever coisas que jamais pensei e as sensações experimentadas de imenso prazer como quem pratica um ato sexual com a palavra. Como o orgasmo, não é possível compreender sem experimentar e isto me responde um pouco a pergunta que me fiz no início deste ensaio: que sonhos são possíveis?

Meu corpo responderá desde que eu permita ultrapassar a percepção já conhecida do tempo?

lo que pasa con el alma es que no se ve 
lo que pasa con la mente es que no se ve 
lo que pasa con el espíritu es que no se ve

Julgamentos e significações

Retomo as palavras de Pizarnik e busco uma poética das sensações… Não uma explicação sobre o poema, nem a descrição do que acontece com meu corpo quando leio e quando escrevo a partir disso…

Mas as ”labaredas de fogueira interior”, as percepções que têm início nestas sensações e depois se desdobram para além do texto, do corpo, da própria escrita e pela a qual não somos mais controlados e nem controlamos totalmente, uma espécie de psicodelia da palavra… “lo que se passa com ela alma es que no se ve” por isso não tento mais buscar, através dela, este encontro absurdo e impossível, mas deixar que a mobilização escape destes lugares de verdade…

A se rebelar com o meio-dito

Meias palavras

E verdades

Meias

E quem sou eu diante de toda esta rebelião? “Tendo desaparecido o eu sentiente, a sensação torna-se um fluxo (de sangue, de dor, de prazer).” (GIL, 1991, p. 71).

Aqui o tempo e o espaço já não são mais mensurados como de costume e as palavras e atitudes não passam mais pelos julgamentos e significações que comumente passariam, abre-se uma espécie de campo em que sensações jorram, elas não têm nome, ninguém tem…

“Para concluir  a desestruturação do espaço e do tempo habituais ( e assim libertar as sensações) é preciso desmembrar o corpo ‘vestido do civilizado’, desorganizar a disposição em ordenada dos seus elementos constituintes.” ( GIL, 1991, p.71).

Bachelard (1988) nos fala de uma feminilidade essencial de qualquer devaneio profundo que, mesmo fazendo referência a duas instâncias psicológica do animus (arquétipo masculino) e anima (arquétipo feminino) que, segundo a psicologia Junguiana, estão presentes em nosso inconsciente coletivo e, fazendo referência também a toda androginia que perpassa pelos nossos corpos nos momentos de experiências com sensações extremas, afirma que a poética do devaneio é uma poética da anima, numa descida sem queda, em que reina o repouso feminino, para o filósofo:

A anima repugnam os acidentes. Ela é uma substância suave, substância lisa que quer gozar suavemente, lentamente, de seu próprio ser liso. Viveremos mais seguramente em anima aprofundando o devaneio, amando o devaneio, o devaneio das águas, sobretudo, no grande repouso das águas dormentes. (BACHELARD, 1988, p. 66)

Cantora, pianista e ativista Nina Simoe

2019… O encontro da anima seria a experiência profunda nesta escrita, na qual, de acidente em acidente, encontro, mesmo por um instante, o repouso das águas calmas, porém, assim como as quedas bruscas, a suavidade desde gozo reina após o golfo catártico, não posso assegurar o ponto em que se dará o prazer feminino pelo devaneio, mas ele veio e já se foi por diversas vezes para dar lugar a uma escrita acidentada e marcada por diversos percalços…

Se este caminho é incerto, assim como o golfo, que não sabemos a quem vai atingir, a própria experiência já é em si mesma a única realidade que tenho…  

Nem passado, nem futuro importa agora, mas, no fluxo, o que ele mesmo é, a perda é o encontro, que se dá lenta e progressivamente, de golfo em golfo e, para cada um, intensidades, quedas diferente, devaneios sem buscar alvo nenhum senão o sonhar acordada, em mim, diurna, corporal, na dor e no prazer…

Lapidar experimental como quem andarilha

Por destinos

Incertos

E arredios

Adeus à calma…

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro:Rocco,2011, p. 278.

GIL, José. Fernando Pessoa ou a Metafisica das Sensações. Lisboa: Relógio D’água, 1991.

MEDEIROS, Civone. Escrituras Sangradas. 1999.

PIZARNIK, Alejandra. En esta noche, en este mundo. Texto de sombra Y últimos poemas.(1971 -1972) disponível em  https://www.lainsignia.org/2001/mayo/cul_018.htm último acesso em 11/03/2019.

*Rousi Flor de Caeté é o nome artístico de Rousiêne Gonçalves. Graduada em Letras pela UFRN, mestre em Educação, com doutorado inconcluso para seguir a vida artística. Atualmente é cantora, compositora e artista visual. `

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP