Clarice no umbral

O quadro Escuridão e luz: centro da vida, pintado por Clarice Lispector / Divulgação

Por José Castello
 A LITERATURA NA POLTRONA

Estive fora do ar durante algumas semanas, acompanhando a agonia de minha mãe, Lucy, que faleceu, depois de inaceitável sofrimento, na semana passada. Agora volto ao ar e a este blog. No hospital, na cabeceira de minha mãe, já completamente fora de si, passei longo tempo observando as pinturas de Clarice Lispector guardadas em

“Clarice/ Pinturas”, livro de Carlos Mendes de Sousa editado pela Rocco. Eu já o comentei em minha coluna do “Prosa”, mas a ele retorno para tratar de alguns aspectos mais pessoais que nela me escaparam.

Em “Um sopro de vida”, seu livro de despedida – nos recorda Carlos – Clarice escreve: “Quase não sei o que sinto, se na verdade sinto. O que não existe passa a existir se receber um nome. Eu escrevo para fazer existir e para existir-me”. Essas breves ideias expressas no romance pelo “Autor” ecoaram em minha mente enquanto eu observava a agonia (impotente) de minha mãe. Já não sabia o que sentia: se tristeza, se sufoco, se terror. Mais difícil ainda era dizer o que minha mãe sentia, já que ela nada mais dizia. Às vezes abria os olhos, me olhava rapidamente, esboçava um sorriso, fechava de novo. Isso era tudo. As palavras lhe faltavam.

Então, desses últimos momentos de minha mãe, ficaram algumas imagens _ como esses restos de iluminações que Clarice Lispector estampa em seus intrigantes quadros. Não são quadros agradáveis, são quadros desagradáveis, que interrogam o que temos de pior: temores vagos, pesadelos, sustos, abismos. Sim, são telas feitas de puro susto e, nesse sentido, muito parecidas com as últimas imagens que eu mesmo guardei de minha mãe doente.

“Não sou pintora, mas gosto de pintar”, Clarice dizia. Alguma coisa se despejava, de algo ela se livrava _ algo tenso e doloroso _ enquanto esboçava suas imagens. Também minha mãe, mesmo sem conseguir se comunicar, arriscava movimentos, caretas, espantos, tentando me dizer o que já não era mais possível dizer. Ao observar o esforço de minha mãe _ como que “desespiritualizado” _ eu tinha a impressão de estar diante da matéria pura. Diz Carlos, ecoando meus sentimentos: “A busca primeira e absoluta (de Clarice) é o encontro com a matéria”. Que é caótica, que é silenciosa, que anseia por significados que muitas vezes não lhe vêm. Que respira (mal e mal), que digere (ainda pior), que se resume a um coração que (mal e mal) ainda bate. Assim minha mãe. Assim as telas de Clarice.

Com o passar das horas, comecei a me convencer de que Clarice não só pintou a agonia de minha mãe, mas pintou a morte. Uma sobra ou uma sombra _ aquilo que sobra quando o espírito (ou que nome se queira dar) se vai, ou já está indo. Um corpo inerte (ou quase inerte). Um resto do que a pessoa foi, e que, no entanto, ainda é a pessoa. Aquele espaço intermediário – de passagem – que Clarice expressou tão bem em uma tela como “Escuridão e luz: centro da vida” (FOTO).

O quadro poderia se chamar “luta”. Poderia se chamar, ainda, “nulo”. Ou “luto”, numa referência ao que se perde. Uma coisa empurra a outra e tenta ocupar seu lugar. As duas se espremem, as duas insistem em viver, ou deixar de viver. Na tela de Clarice, em meio à escuridão, temos uma flor amarela, que pode ser também o resto de um incêndio, ou ainda um sexo feminino aberto. Em torno, três velas (falos) cintilam. O centro da vida é assim: puro enfrentamento. Uma luta silenciosa e cheia de ais.

Vendo minha mãe agonizar, magra, muito magra, o corpo tomado por feridas, as entranhas devastadas pela doença, eu também assistia a alguém que atravessava um limite. Os espíritas (não sou espírita) diriam talvez: um umbral. Palavras: todas, de alguma forma, sempre nos servem. Elas não pertencem a ninguém. Elas ganham a cor e a potência que cada um lhes dá. A busca do nome, de que fala o “Autor” de Clarice, é a busca do ser. Minha mãe gaguejava, sufocava, aspirava: não encontrava o nome que queria dizer. Ali, nessa luta sem glória, eu observava seu fim.

Diz Clarice (me lembra, ainda, Carlos), em “Para não esquecer”: “Meu erro é o modo como vi a vida e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva”. Clarice via em cada coisa o nascimento (ou o fim, o que não deixa de dar no mesmo) da coisa. Para uma coisa existir é preciso que outra morra. Duas coisas, nos diz a física, não ocupam um mesmo lugar. Minha mãe agonizava: seria um erro? Estaria vendo mais do que suportamos ver? A morte será isso: ver mais do que devemos? Ou, ao contrário – o mesmo _, encarar a escuridão absoluta, defrontar-se com o grande vazio? O problema na agonia é que não conseguimos preencher o vazio. Nada mais sai de nós. Resta o corpo, e então tentamos preencher o vazio com o corpo. Já se sabe o desastre final a que isso nos leva.

Diz Clarice ainda: “Quero pintar uma tela branca. Como se faz? É a coisa mais dificil do mundo. A nudez. O número zero. Como atingi- los? Só chegando, suponho, ao núcleo último da pessoa”. Não deixa de ser uma bela, embora dura, definição da morte. É sem dúvida uma boa definição dos quadros da própria Clarice. O núcleo último, o centro, ali onde nada mais pode se aprofundar, ou se desdobrar. O esgotamento. Clarice foi não só a pintora, mas a escritora do esgotamento. Não como busca da morte, mas como construção de um mito de renascimento. Ali onde nada mais parece estar, tudo agora pode estar.

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