Clark, o desempregado

https://pbs.twimg.com/media/A51oYx8CUAENFiq.jpg

Pode até não ser ‘relevante’, como disse Jois Alberto, mas a saída de Clark Kent do Planeta Diário é sintomática dos dias atuais para os jornalistas. O Superman talvez seja a mais emblemática representação da profissão de nosso tempo. Desde 1938, quando surgiu inaugurando o gênero dos super-heróis nas HQs, gerações e mais gerações aprenderam a identificar no alter-ego do repórter de Smallville (Pequenópolis, pra quem manja) valores como justiça, bondade, proteção contra as poderosas ‘forças do mal’.

Todos aquilo que é mais caro às democracias liberais ocidentais é encarnado e defendido pelo Superman – e por tabela, também aprendemos, ainda que inconscientemente, a associar essa ideia ao jornalista Clark Kent, esse nobre servidor do público em defesa da verdade.

Se a presença do jornalista nos cinemas às vezes ajudava a reforçar esses mitos no grande público, às vezes também os desconstruía – vide inúmeros clássicos aí de A Montanha dos Sete Abutres pra cima. Nos quadrinhos (e produtos correlatos como filmes, animações e jogos eletrônicos), o público infanto-juvenil das últimas sete décadas sempre teve o Superman/Clark Kent como exemplo máximo de bom-mocismo.

Não é à toa que, nas primeiras histórias lá na virada dos anos 1930 para os 1940, o personagem lutava contra gangsteres, corruptos e senhorios sem coração. Ou que, numa genial jogada editorial, o cientista louco Lex Luthor tenha se convertido, nos anos 1980, num frio e inescrupuloso empresário de sucesso e se tornado uma nêmesis ainda mais cruel ‘operário da verdade’.

Não se enganem, talvez seja possível acompanhar tranquilamente como a sociedade norte-americana (e outras, como a brasileira, que tiveram contato forte com sua indústria cultural) enxergava a profissão de jornalista prestando atenção em como Kent é apresentado. A gente pode até se surpreender com o fato de que esta nem foi a primeira em que ele deixou o velho e o bom emprego. Nos anos 70, ele abandonou a redação do impresso pela televisão e foi até âncora de telejornal. Óbvio, a TV era o veículo quente da época.

Com isso, especulou-se que, agora, Kent iria tornar-se um blogueiro (ou, como Jois comentou, um ‘mero’ blogueiro). Bom, nenhuma novidade nisso também: a explosão dos blogs se deu na virada dos anos 1990 para os 2000 e, como lembrou certo dia Everton Dantas, foram a principal fonte jornalística disponível quando os EUA entraram em transe durante os atentados de 11 de setembro de 2001.

Um leitor mais assíduo do que eu (que há alguns anos não acompanho mais as revistas do Super), irá lembrar dele ou de Lois Lane mantendo um blog no site do Planeta Diário desde a década passada.

Além disso, super-heróis têm a mania de reinventar as próprias origens. Vira e mexe, podem notar, uma editora anuncia que vai começar tudo do zero, ‘atualizando’ o personagem. Superman teve sua origem contada várias vezes.

Numa das mais recentes, publicada em 2009/2010, pelo conceituado roteirista Geoff Johns (taí, descobriram a última revista do Superman que eu li), Clark Kent consegue um emprego de foca num decadente e deficitário jornal de Metrópolis, chamado Planeta Diário. O diário é boicotado pelos anunciantes (no caso, O anunciante, Lex Luthor) e só consegue uma sobrevida após a circulação aumentar com a chegada do… Superman.

Percebam que era impossível falar num jornal tradicional sem ignorar a crise financeira causada pela concorrência do digital. Isso há três anos, imagine agora que vocês acordaram do torpor após o fechamento do Diário de Natal.

Agora o mais invocado de tudo não é exatamente Clark Kent ter pedido demissão do Planeta Diário e, sim, o motivo. Não foi porque seria mais jogo tirar um troco mantendo um blog.

Kent, o bom moço, simplesmente não tem mais saco para correr atrás de furos e mais furos sobre super-heróis como faz há 60 anos. Ele reclama com Perry White dessa corrida absurda contra o tempo em busca do que considera ‘sensacionalismo’.

O editor adverte: “Vá com calma conosco, os mortais, Clark. Os tempos estão mudando e o impresso é uma mídia moribunda. Eu não gosto, mas a única esperança que temos de entregar qualquer tipo de notícias é dando ao povo o que ele quer ler… ou ver na tevê, ou no qpad ou no celular. E, Deus me ajude, mas se uma manchete sobre alguma estrela de reality os faça pegar um jornal…”

Até Clark Kent já percebeu que isso não pode dar certo…

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ View all posts ]

Comentários

There are 7 comments for this article
  1. Lívio Oliveira
    Lívio Oliveira 24 de Outubro de 2012 17:54

    Não imaginava que um tema, a princípio (e somente de maneira aparente) prosaico, pudesse render textos tão bons quanto os de Jóis e o de Alex. Parabéns a ambos, inclusive por nos fazerem perceber as entrelinhas e os bastidores de algumas fortes mudanças sociais e que a mídia reflete pela própria condição e natureza.

  2. Jóis Alberto 24 de Outubro de 2012 19:39

    Valeu, Alex! Muito boa sua análise sobre os rumos atuais do jornalismo, principalmente do jornalismo na mídia impressa contemporânea, a partir da notícia dessa emblemática reviravolta na vida profissional de Clark Kent no mundo ficcional das HQ e acerca de outros tipos de personalidades, arquétipos, estereótipos e mitos da profissão nos jornais, rádio, cinema, TV e internet.

    Quem trabalha com comunicação social, habilitação jornalista, pode exercer outras atividades profissionais, além de repórter e editor, como por exemplo assessor de comunicação social, relações públicas, produção cultural, cinema, editoração, etc… A questão é que, muitas vezes, quem nasce com a vocação para ser repórter na mídia impressa – talvez por ser a mais tradicional, especialmente os jornais – fica tão absorvido pela atividade que não pensa em trabalhar com outras coisas, e quando se vê desempregado, se não tiver um segundo emprego, poupança ou ajuda de amigos e familiares, e, principalmente ao final da indenização trabalhista e seguro desemprego, corre o risco de cair na pindaíba (!), que não poupa heroi, anti-herói e nem mesmo superheroi nesses tempos em que tudo que é sólido se desmancha no ar!

    Assim, considero que o verdadeiro heroísmo, ou anti heroísmo, dependendo do ponto de vista de quem observa a cena, é saber enfrentar essas adversidades com trabalho, estudos, coragem, humildade, e sem perder a esperança jamais!

    Na atualidade, como sabemos, uma das esperanças de renovação do jornalismo impresso analógico é o jornalismo digital, veiculado em tablets, por exemplo… Porém, se essa experiência, ora em curso, não der certo, podemos esperar que um dia toda essa ebulição no setor – ainda muito líquida, ainda muito vaporosa – acabará se consolidando em uma outra nova forma de ‘comunicação de massa’ ou indústria cultural, agora digital e interativa, e brevemente, quem sabe?, mais estável, duradoura e recompensadora não só nos aspectos financeiros, de subsistência, mas principalmente prazerosa, como o velho e bom jornalismo impresso, atualmente em declínio de aura…

  3. Jóis Alberto 24 de Outubro de 2012 19:57

    Valeu, Lívio! Acho que esse tipo de reflexão deve ser feita não só por jornalistas, mas também, e talvez principalmente, por leitores/autores bem qualificados quanto você, na medida em que as novas mídias digitais possibilitam essa grande novidade, que é a maior interatividade na área. É fundamental também, sempre, procurar manter o melhor nível de argumentação, o que é possível até mesmo em temas aparentemente muito prosaicos, sem maior relevância, como é essa mudança na vida profissional de Clark Kent!

  4. Alex de Souza
    Alex de Souza 24 de Outubro de 2012 21:04

    é isso aí, jóis.

  5. Anchieta Rolim 24 de Outubro de 2012 21:35

    “Valeu, Alex!” “é isso aí, Jóis”. Juntamente com os textos também achei massa isso! Valeu alex e Jois.

  6. Jóis Alberto 25 de Outubro de 2012 12:31

    Obrigado, Anchieta Rolim!

    Embora às vezes eu tenha discordâncias com Alex de Souza, principalmente em questões políticas, outras tantas vezes eu já manifestei publicamente minha admiração pelo inegável talento dele como jornalista e escritor. Alex de Souza mostrou inteligência também quando, percebendo as crescentes incertezas em relação ao futuro do jornalismo impresso convencional, procurou, com êxito, novos caminhos profissionais na área de comunicação e nas atividades acadêmicas, pelo que estou informado, certo?

    Escrevi um texto, no qual, tendo como motivação inicial responder ao seu comentário, eu comento sobre novos rumos do jornalismo e da carreira profissional de jornalista. O texto, que estou enviando para publicação aqui no “SP”, ficou com título grande: “Internet e jornalismo: o ocaso de títulos tradicionais, como o ‘JB’, e o êxito de novas experiências editoriais, como o ‘Brasil 24/7′”, mas acredito que seja grande também o interesse de jornalistas e a curiosidade do público leitor acerca dessas atuais mudanças no jornalismo profissional.

  7. Olavo Saldanha 25 de Outubro de 2012 13:24

    Muito oportuno, gostei imensamente da leitura.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Vá para Topo