Adoraria ler o seu original…

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Por Isabel Lopes Coelho
BLOG DA COSAC NAIFY

Título original: Claro, adoraria ler o seu original. Mas já vou avisando: talvez eu não goste

Contrariando um senso comum da profissão de editor, eu adoro ler originais. Sem o menor profissionalismo, levo direto para o pessoal. É uma grande responsabilidade analisar um texto, um projeto, um livro que alguém teve o cuidado de escrever, dedicando tempo e pesquisa, e enviar para sabe-se lá quem que irá pegar aquele envelope e tomar a decisão de publicá-lo ou não. Da parte do autor requer uma atitude muito confiante e corajosa: colocar sua inspiração e criatividade numa garrafa e lançá-las longe, na esperança de atingir alguém que entenda a mensagem.

Em dias de leitura de originais, sinto-me como um duende abrindo cartinhas. Agradam-me particularmente os pacotes com explicações: informações sobre a vida do autor – onde mora, o que estudou, qual é atualmente sua principal atividade –, opiniões sobre o catálogo da editora – sempre elogiosas e garanto desde já que isso não tem a menor influência na seleção –, curiosidades sobre a história, cuja inspiração veio do filho, sobrinho ou vizinho – que, aliás, “gostou muito do texto” –, e argumentos como “um sucesso editorial sem precedentes” ou “um livro que aborda grandes segredos”. Há ainda aqueles que mandam balas, chocolates, biscoitos, numa tentativa, penso eu, de adoçar a leitura.

Preparar uma carta de recusa a um original é tão angustiante para o editor como é a espera pela resposta para o autor. Sempre tenho vontade de escrever algo como: “Perdão. Por favor, não fique chateado com o ‘não’. Talvez eu é que não tenha sensibilidade suficiente para entender o seu livro”.

De fato, é raro algum original ser selecionado para o catálogo da editora. Até fazemos uma triagem, separando os melhores para uma segunda ou terceira leituras, mas eu conto nos dedos os livros que completaram o percurso até a linha de chegada.

Durante a leitura, não está em jogo se a obra é boa ou ruim. Não existe fórmula para escrever ou editar um livro. Por isso, não há também critérios muito definidos de análise, o que torna a seleção de um original uma atividade bastante subjetiva. Por esse motivo é tão difícil responder à pergunta “o que um texto precisa ter para ser um bom livro infantojuvenil?”. O dia em que soubermos a resposta ipsis litteris, terá acabado a surpresa, o prazer em se deparar com algo novo, que nunca vimos (lemos) antes.

E talvez esteja neste argumento o motivo de tantas recusas: são poucos os originais que trazem algo realmente original. A repetição de temas e estruturas textuais é tamanha que, vez ou outra, chegamos ao ponto de brincar que nunca mais vamos publicar livros de cachorro, que tragam “bicharada” no título, sobre irmão mais novo, sobre o menino diferente que não tem amigos, sobre comer verdura, escovar os dentes, ir ao médico, ir na escola…

Obviamente, todos esses temas são pertinentes dentro do universo infantil e a relevância da obra depende sobretudo da maneira como foi escrita. Também não faz diferença se o original vem com ilustração ou não, se o texto é de um autor estrangeiro ou não. O importante é que a obra seja coesa, que traga uma proposta consistente e, se não trouxer como protagonista o animal de estimação ou o menino genial incompreendido, terá muito mais chances de agradar o duende que receber a garrafa.

 

Isabel Lopes Coelho é diretora do núcleo infantojuvenil da Cosac Naify.

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