Claude Debussy no folclore do RN

{Enviado por e-mail por Marcos Silva}

Por Valdemar de Almeida

O que poderá existir de extraordinário entre Claude Debussy, o genial compositor francês e o nosso velho e querido Potengi?

Que coisa surpreendente se poderá contar relativamente ao célebre autor de Péléas et Mélisande e a pequena e triste lagoa de Papari?

E o que é que tem Debussy e o meu rio Trairi?

Muita coisa, gente do Rio Grande do Norte, muita coisa séria e notável.

Foi aqui em Natal que o revolucionário da música francesa veio buscar inspiração para uma de suas mais belas páginas artísticas. Deve ele à nossa natureza os aplausos com que o mundo recebeu “Clair de lune”, escrita em 1884, na Ville d’Avray.

Esse lindo e magnífico poema sonoro tem o seu ambiente, encontrou o seu tema principal ali bem perto, na Montagem, nas águas desse rio que é espírito e alma de nossa doce, pequena e romântica Natal.

Lá do outro lado do Atlântico, na sua buliçosa, irrequieta e nervosa Paris, Debussy debruçou-se na janela da imaginação, deixou o pensamento voar e aterrissar ali na Limpa, esperou o anoitecer, observou, apreciou, deliciou-se com a lua prateando as águas onde os filhos dos nossos pescadores brincam e esperam as jangadas.

As lindas notas iniciais de “Clair de lune” foram inspiradas numa lenda indígena do Rio Grande do Norte, recolhida em 1645, por Marcos Mendes.

A história não deixa de interessar consideravelmente aos artistas, pela facilidade que oferece aos pianistas ou aos regentes de orquestra para realizarem uma ambientação mais conscienciosa, mais pura daquilo que Debussy imaginou e escreveu.

Duas tribos viviam em constantes lutas pela posse das margens do rio Potengi.

Um dos guerreiros chamado Papari que comandava os tapuios, morria de amores pela filha do chefe da facção inimiga.

Nos ligeiros intervalos da grande luta, os apaixonados sempre encontravam oportunidades durante a noite para entrevistas amorosas, para idílios que apesar de perigosos, não deixavam de ser infinitamente dignos de tanta bravura.

Numa noite de lindo e claro luar, Papari e sua audaciosa amante foram surpreendidos, presos e às doze horas dessa mesma noite, quando o clarão da lua era mais intenso, foram afogados na lagoa que se passou a chamar de Papari.

Uma versão diz que, nas noites de lua cheia, justamente à meia-noite, os dois amantes flutuam sobre as águas mansas da lagoa, soltando profundos lamentos entrecortados de longos e constantes beijos.

Esse lindo quadro lendário foi descrito minuciosamente a Debussy por José Reille quando o compositor pedira-lhe sugerir um assunto, um motivo para escrever qualquer coisa com a qual pudesse satisfazer o pedido de Madame Vosnier, que encomendara-lhe uma partitura para o seu aniversário natalício.

Como documento precioso sobre a verdade deste relato, M. P. Silva Reille escrevendo sobre o assunto publica um documento do seu pai, José Reille, no qual Debussy afirma numa carta de 12 de julho de 1896 [data parcialmente ilegível] que “se Clair de lune obtiver sucesso, muito devo ao bom amigo que tão bem pintou a beleza da natureza e do luar do Brasil.”

Beleza da natureza e do luar do Brasil lá para as bandas do Rio Grande do Norte, onde fica o Potengi.

 

(A REPÚBLICA, 19 de outubro de 1948. Copiado do microfilme da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, no dia 13 de outubro de 2005, por Claudio Augusto Pinto Galvão).

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