Clotilde faz acerto de contas com a fé

Chega a hora em que um escritor é chamado a fazer um acerto com o passado. Isso pode dar origem tanto a uma escritura minuciosa e abrangente – lembremos Pedro Nava –, como a um relato pontual, como o faz Clotilde Tavares em seu novo livro “Formosa és: memórias do internato” (Jovens Escribas, 2013). O mote, porém, foi pinçado em Nava: “Escrever memórias é um ajuste de contas do eu com o eu, e é ilícito mentir a si mesmo”.

Para Clotilde, mais importante do que o ajuste de contas de que fala o memorialista mineiro, é seu caráter veraz. Ela deixa muito claro que se pautou por um único princípio: o da fidelidade dos fatos preservados por suas lembranças, mesmo se estas porventura a traírem. Nesse caso, ela permaneceria fiel a seus enganos, mas nunca deliberadamente. À medida que a leitura evolui, o leitor dessas memórias tende a concordar com a autora, haja vista a verossimilhança dos vários episódios narrados.

Não obstante isso, o livro de Clotilde é um relato datado, abrangendo tão somente os dois anos em que essa escritora paraibano-potiguar permaneceu, contra as suas expectativas, num internato para meninas localizado no interior de Pernambuco. Essa estada forçada se revela, contudo, um período rico, consideradas as consequências que produziu no processo de formação da futura escritora, pesquisadora e dramaturga.

Clotilde conta que não teria mais do que oito anos de idade quando ingressou nas dependências do Colégio Nossa Senhora do Bom Conselho, no município de Bom Conselho, interior de Pernambuco, deixando para trás uma vida tranquila que levava em Campina Grande no seio de sua família. Logo perceberia que no colégio nada era o que pareceria ser.

Enganos, decepções e frustrações a forçaram, apesar da tenra idade, a reagir contra a pedagogia posta em prática no tratamento com as meninas internas (como ela própria), levando-a a questionar não só a ordem natural das coisas, a partir do postulado que atribui a Deus o controle geral da criação, mas valores como igualdade, fé e dignidade. Sobre isso, diz a certa altura: “As freiras diziam que éramos todas iguais, mas não éramos: e todas nós, pensionistas e órfãs sabíamos disso”.

Os conflitos vividos por Clotilde começam pela distinção que ela vai fazendo paulatinamente entre o que as freiras ensinavam e o que elas próprias praticavam. Especialmente notável é a presença de uma freira, também tia da autora, que impõe a esta humilhações redobradas, levando-a a rever seus conceitos sobre família, solidariedade e respeito.

Finalmente chega aos questionamentos sobre pecado, recompensa e Deus. Sobre o pecado, sua conclusão é radical: cometia-os todos! Mas logo emenda: todos agiam da mesma forma, mas hipocritamente posavam de santas. Como a sua tia freira, a madre superiora, o padre que uma vez no mês oficiava a missa no internato etc.

Nesse longo processo de questionar Deus e o mundo no internato católico, Clotilde cumpriu uma etapa importante para a sua maturidade intelectual, moral e psicológica, inclusive foi aí que descobriu sua vocação para o palco. Mesmo a injustiça que narra sobre o episódio em que findou perdendo o lugar de borboleta no pastoril promovido pelo internato não abalou a força da descoberta que ali fizera, como uma epifania inequívoca.

O capítulo final do livro é uma página representativa da vida dos homens e das mulheres de hoje, que creram e deixaram de crer diante do absurdo não só do mundo, mas da própria fé. A menina de nove anos de idade que ousou pôr seu Deus à prova evoluiu não para o niilismo absoluto, mas para um ceticismo saudável no qual valores enfeixados no simples humanismo têm seu lugar.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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