Clube de Leitura do Mulherio Zila Mamede

Esta semana, o clube de leitura do grupo Zila Mamede, uma das duas bases em solo potiguar do Coletivo Mulherio das Letras, elegeu, após um rico debate de quatro horas, os livros que serão lidos em 2021. Grata surpresa ter meu romance FRANCISCA entre os escolhidos. Feliz também por ver a literatura feita por potiguares, negras e indígenas figurarem entre as escolhas.

Um clube que só lê mulheres. Por que privilegiá-las? A resposta é simples. Porque, de acordo com as estatísticas, elas ainda são preteridas pelo grande público de leitores, principalmente pelos homens, cujos hábitos de leitura são apontados como sexistas. Não só na literatura, mas no cinema, é sabido que eles preferem obras menos “femininas”. Você duvida? Então vamos aos fatos:

A versão do clássico Rapunzel feita pela Disney se chamou Tangled (Enrolados) por uma questão de gênero. Para não afugentar o público masculino este e outros títulos como Brave (Valente) e Frozen (Frozen, uma aventura congelante) foram debatidos, até serem considerados satisfatórios para eles. Pelo mesmo motivo a escritora Joanne Rowling acatou a sugestão da editora de se autointitular J.K. Rowling.

A capa dos livros também é tema cuidadosamente pensado pelas grandes editoras. Evita-se cores pastéis e letras “fofas” porque há um estereótipo de que são estéticas femininas, então, para não ferir a sensibilidade dos que pensam: “Ah, isso é história pra mulher!”, optam-se por artes mais “viris”.

“Um clube que só lê mulheres. Por que privilegiá-las? A resposta é simples. Porque, de acordo com as estatísticas, elas ainda são preteridas pelo grande público de leitores, principalmente pelos homens, cujos hábitos de leitura são apontados como sexistas.”

“Analisando dados do mercado editorial, é possível perceber que as escritoras são menos publicadas, seus livros ganham menos prêmios e sua presença em eventos literários é menor, evidenciando que as mulheres e suas obras são menos valorizadas do que seus pares masculinos”[1]. A citação é de Marina Romanelli em sua pesquisa sobre a participação da mulher na literatura brasileira. Marina também se baseou no cânone literário[1] e na Academia Brasileira de Letras (quarenta membros e apenas cinco mulheres, sendo que Rachel de Queiroz, a primeira, só entrou após oitenta anos da fundação da instituição).

A ABL serve como parâmetro para outras, sediadas nos demais estados da federação que seguem o mesmo modelo: enorme desproporção em relação ao gênero.  Aqui no RN temos quarenta acadêmicos, quatro deles, escritoras: Diva Cunha, Leide Câmara, Eulália Barros e Sônia Faustino. Apenas três autoras do passado figuram entre as patronas, como informou o amigo e cordelista Francisco Martins: Auta de Souza, Nísia Floresta e Isabel Gondim.

Ao menos fomos precursores: Câmara Cascudo convidou duas mulheres, as primas escritoras Palmyra e Carolina Wanderley quando da criação da ANRL em 1936, mas a atitude de vanguarda se perdeu no tempo e um dos motivos pode ser, segundo Thiago Gonzaga (escritor e crítico literário), a falta de candidaturas femininas. Será? Ele sugeriu que as escritoras se candidatem sempre, assim como os escritores o fazem, sem a menor modéstia ou insegurança.

Não creio que o problema seja apenas esse. Aliás, duvido muito que, em se candidatando, elas se saíssem melhor do que Conceição Evaristo quando se candidatou à ABL em 2018. Em todo caso, certeza de que vou começar uma campanha. Há um punhado de grandes autoras aqui no estado que eu adoraria ver imortais: Rizolete Fernandes, Marize Castro, Diulinda Garcia, Carmen Vasconcelos, Anchella Monte, Jeanne Araújo, Clotilde Tavares, Ana Paula Campos, Bia Crispim, Iara Carvalho, Tereza Custódio, Araceli Sobreira, Graça Graúna… Eita, revolução!

No estudo, a pesquisadora constata ainda que a exclusão da mulher “Foi um movimento proposital e político, e suas consequências ainda são sentidas na contemporaneidade”[2]. Que “Personagens femininas também aparecem menos e têm menos destaque e importância do que personagens masculinos”[3].

Até pouco tempo atrás nada disso era problematizado. Ninguém parecia achar estranho por exemplo, que, apesar de representarmos metade do número total de pessoas no mundo, apenas dezesseis, dos cento e dezessete vencedores do Prêmio Nobel de Literatura eram mulheres e destas, apenas uma era negra. Sim, também há uma terrível questão racial, que invisibiliza negros e indígenas ainda mais do que mulheres e autores periféricos (leia-se distante dos grandes centros urbanos).

De acordo com uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira formado por pesquisadores vinculados à Universidade de Brasília (UNB), mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras entre 1965 e 2014 foram escritos por homens. 90% dessas obras são de autores brancos e metade deles é do Rio de Janeiro ou de São Paulo. A novidade é que entre as pequenas editoras e as produções independentes, homens e mulheres têm número de produção equiparadas”[4]. Inclusive com maior participação de indígenas e negras, ainda que distante da igualdade que desejamos.

Ainda resta dúvida sobre o desequilíbrio desse negócio? Que tal uma experiência pessoal? Verifique, na sua estante, quantos livros foram escritos por mulheres e quantos foram escritos por homens. Com relação às questões de raça, lanço outro desafio: diga o nome de uma autora indígena. Não precisa ter lido, apenas cite uma, de cabeça. Difícil? Imagina para elas, que escrevem e são tão pouco conhecidas.

Apesar das dificuldades, existem hoje muitos países e instituições preocupados e trabalhando em prol da disseminação da literatura feita por mulheres. O #ReadWomen2014 ou “leia mulheres em 2014” movimento iniciado pela escritora inglesa Joanna Walsh, se disseminou pelo mundo e aqui no RN, temos nossa versão: O Clube de Leitura Mulheres lendo mulheres, que, de maneira democrática e solidária, dá sua contribuição à causa das escritoras.

Se você é homem saiba que tem um lugar importante nessa história, o de aliado. Se é leitor, reflita: quantas autoras do sexo feminino tem lido? Se é educador, quantas mulheres estão na lista dos livros que indica? Se é amigo, de que maneira apoia o trabalho da sua colega escritora? Se é escritor, de que maneira se posiciona?

A única mulher que meu filho Gustavo, de treze anos, havia lido era J.K. Rowling. Após a leitura compartilhada desta crônica durante o café da manhã, ele decidiu iniciar “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angelou. Estou comemorando até agora.

VEJA o Canal que hospedará eventos de 2021

Abaixo, a relação das obras com as respectivas datas e horários em que serão comentadas. Lembrando que homens podem participar adquirindo livros, lendo e comentando nos chats, mas a participação dentro das lives é privilégio exclusivo das manas, como gentilmente informaram Carla Alves e Kalina Paiva.

JANEIRO (30/01 – 15h às 17h)

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta;

Amora, de Natália Borges Polesso;

FEVEREIRO (27/02 – 15h às 17h)

A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado, de Liv Stromquist;

Jorro, de Marize Castro;

MARÇO (27/03 – 15h às 17h)

Cicuta e cilício, de Jeanne Araújo;

Empoderamento, de Joice Berth;

ABRIL (24/04 – 15h às 17h)

Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil, de Graça Graúna;

Caninana, de Eveline Sin;

MAIO (29/05 – 15h às 17h)

Carta à rainha louca, de Maria Valéria Resende;

Haicais imperfeitos, de Anchella Monte;

JUNHO (26/06 – 15h às 17h)

Francisca, de Ana Cláudia Trigueiro;

Vermelho fogo, de Regina Azevedo;

JULHO (31/07 – 15h às 17h)

Tudo nela brilha e queima / não me desculpo por me derramar, de Ryanne Leão;

Intersecionalidade, de Karla Akotirene;

AGOSTO (28/08 – 15h às 17h)

Eu sou Malala – A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã, de Christina Lamb e Malala Yousafzai;

Persépolis, de Marjane Satrapi;

SETEMBRO (25/09 – 15h às 17h)

Os testamentos, de Margareth Atwood;

Tocaia do Norte, de Sandra Godinho;

OUTUBRO (30/10 – 15h às 17h)

O calibã e a bruxa, de Silvia Federici;

A ciranda das mulheres sábias, de Clarissa Pinkola Estés;

NOVEMBRO (27/11 – 15h às 17h)

Água de barrela, de Eliana Alves Cruz;

Terra negra, de Cristiane Sobral;

DEZEMBRO (18/12 – 15h às 17h)

O baú de Filomena, de Tereza Custódio;

Mel e dendê, de Fátima Farias.

#ClubesDeLeitura

#LendoMulheres

#MulheresNaABL

#MulheresNaANRL

Ana Cláudia Trigueiro


[1] “O termo deriva da palavra grega “kanon” que designava uma espécie de vara com funções de instrumento de medida; mais tarde o significado evoluiu para o de padrão ou modelo a aplicar como norma”. Disponível em: E-Dicionário de termos Literários.

[2] A representatividade feminina na literatura brasileira contemporânea/ Marina Romanelli – Rio de Janeiro; UFRJ/ECO, 2014.

Disponível em: https://pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/639/3/MRomanelli.pdf

[3] Idem.

[4] Disponível em: https://janelasabertas.com/2019/03/08/por-que-ler-mulheres/


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