Clube dos Comedores de Haxixe

Por Carol Bensimon
BLOG DA COMPANHIA

No número 17 do quai d’Anjou, Ile St-Louis, Paris, França, ano de 1844, fundaram o Clube dos Comedores de Haxixe. O concentrado oleoso da cannabis, até o século dezenove desconhecido na Europa, era uma dessas coisas que tinha vindo do Egito (como as múmias saqueadas das tumbas, todos loucos por múmias naquela época). Provavelmente as primeiras bolinhas de haxixe haviam viajado nos bolsos dos soldados de Napoleão Bonaparte, que estavam finalmente voltando para casa.

Ficava ali, no número 17 do quai d’Anjou, o velho Hôtel de Lauzun, um palacete construído entre 1650 e 1658. Tinha servido de residência a um duque e dois marqueses, mas, desde o início daquele século, a nobre edificação da Ile St-Louis era alugada aos pedaços. Artistas de talento variável ocupavam as partes antes destinadas aos empregados, e o poeta que inventou de caminhar pela cidade apenas pelo prazer de caminhar ia escrever no último andar do Hôtel de Lauzun alguns poemas de As flores do mal.

Nos encontros mensais do Clube dos Comedores de Haxixe, os homens chegavam por volta das seis horas. Desciam das carruagens, agarravam a aldraba, alguém vinha abrir sem muitas palavras. Então atravessavam o pátio e subiam para o grande salão o qual, em certo sentido, já era um convite ao delírio (anjos com asas abertas há quase duzentos anos esperando para se tornarem mais que pinturas admiráveis). Antes do jantar, os convidados degustavam de colherinha porções individuais de aproximadamente 30 gramas de dawamesk: haxixe misturado à noz-moscada, cravo, canela, pistache, açúcar, suco de laranja, manteiga e às vezes um inseto moído chamado cantárida, que estava muito na moda no século dezenove.

Atenção para a presença de Théophile Gautier. Atenção para Alexandre Dumas subindo a escadaria. Atenção para Delacroix, Baudelaire e os hesitantes Flaubert e Balzac, que às vezes se afastam para olhar os barcos e voltam pedindo desculpas e dizem que da próxima vez quem sabe a pasta verde para eles também.

(será que Victor Hugo vem hoje?)

O Clube dos Comedores de Haxixe tinha sido uma ideia do doutor Jacques-Joseph Moreau. Moreau havia estado no Egito por volta de 1840, acompanhando alguns pacientes do Dr. Esquirol, um dos precursores da psiquiatria e inventor dos termos monomania e alucinação. O tempo de Moreau, Esquirol, Pinel era o tempo da insistência em desvendar a loucura (O senhor Valleau…, cabeleireiro, chegou ao asilo de alienados de Bicêtre no dia 9 de junho de 1855; encontrava-se em um estado de estupor prolongado, os olhos fixos ao teto e imóveis… Um fenômeno surpreendente chamou nossa atenção… Nesse rapaz, os pelos pubianos eram todos brancos, os do peito também em grande parte; quanto aos fios de cabelo, um grande número era completamente branco, outros apresentavam uma coloração preta muito escura…).

Jacques-Joseph Moreau conheceu e provou haxixe no Cairo. Jacques-Joseph Moreau certa vez comeu ostras sob efeito do haxixe; começou a achar o procedimento hilário.

O médico acreditava que os problemas mentais se apresentavam como consequência de uma modificação molecular no cérebro do doente. Nesse caso, se uma droga agisse no mesmo ponto quimicamente desequilibrado, essa “ação substitutiva” acabaria por expulsar a loucura (ele se lembrou de ter inventado uma pomada especial para tingir o cabelo… Valleau tinha composto uma pomada cujos elementos ativos eram: óxido de chumbo 400g, cal virgem 200g, prussiato de potássio 50g, nitrato de prata 20g. Valleau começou a ficar triste… O delírio se apresentou subitamente… o doente tornou-se agitado; acreditava estar sendo perseguido por inimigos que queriam envenená-lo. Desde sua chegada, ao estupor sucedeu-se a agitação… Tais fatos são um alerta para aqueles que fizeram uso constante de cosméticos nos quais o chumbo é o principal ingrediente… No lugar de dar às nevropatias a banal origem das impressões morais, não seria mais racional, mais científico… suspeitar simplesmente de uma intoxicação plúmbica?).

Publicou Du hashish et de l’aliénation mentale em 1845. Não foi perseguido por isso nem por qualquer outra coisa. Os alteradores de consciência estavam na moda afinal. Dar haxixe para escritores fazia parte de seus inúmeros experimentos. É possível que o doutor recebesse seus convidados usando trajes orientais (em uma época em que a França parecia desesperadamente querer sair de dentro dela). Os escritores, por sua vez, estavam interessados em cavoucar a própria cabeça. Mas Balzac esticou a mão e disse não ao dawamesk, o que já diz muito sobre sua literatura.

(será que Victor Hugo vem hoje?)

Théophile Gautier escreveu sobre o haxixe. Baudelaire falou de haxixe em Paraísos Artificiais. Em uma carta endereçada ao poeta, Gustave Flaubert disse que a obra podia muito bem passar sem a parte moralista do final (Flaubert estava escrevendo um romance sobre um viciado em haxixe quando morreu; ia se chamar L’éspirale). Alexandre Dumas colocou a pasta verde nas mãos de Simbad, o Marujo, em O conde de Monte Cristo, e fez Edmond Dantès enxergar um palácio em uma simples caverna. Talvez haja haxixe na Odisseia.

O discreto Hôtel de Lauzun foi comprado pela prefeitura de Paris em 1928. A senhora de lenço de seda (estrategicamente cobrindo as rugas do pescoço) que acompanha os visitantes pelos cômodos faz uma breve menção, mas nem sempre, ao Clube dos Comedores de Haxixe, o qual encerrou suas atividades no ano de 1849.

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Carol Bensimon nasceu em Porto Alegre, em 1982. Publicou Pó de parede em 2008 e, no ano seguinte, a Companhia das Letras lançou seu primeiro romance, Sinuca embaixo d’água (finalista dos prêmios Jabuti e São Paulo de Literatura). Seu último livro, Todos nós adorávamos caubóis, foi lançado em outubro de 2013. Ela contribui para o blog com uma coluna mensal.

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