As coisas que exigem ser escritas

Engana-se quem pensa que eu escolho sempre as coisas sobre as quais escrevo. Não são raras às vezes em que as coisas, impacientes, com urgência de serem lidas se impõem. Primeiro elas insinuam-se, dão algum sinal e se faço-me de desentendido ou coloco outro assunto na frente, elas são mais diretas, impertinentes e acabam esfregando na minha cara suas pretensões.

Sábado (14) estive no Espaço Cultural Duas, no encerramento do belo projeto Ação Leitura, comandado pelo escritor Carlos Fialho. Na programação, entre outras ações bacanas, como lançamentos literários, exposições e show da banda paraibana Madalena Moog (gostei muito!), ocorreu uma mesa redonda, mediada pelo jornalista Paulo Araújo, que reuniu os escritores Xico Sá, Marcelino Freire, Sérgio Fantini e Pablo Capistrano.

Em outro momento é provável que o bate-papo fosse inteiramente voltado à literatura. Não agora, com o país convulsionado, vivendo uma das mais graves crises da sua história. E o encontro não se furtou a debater as questões que estão postas e preocupa-nos a todos. Bonito e alentador ver que a maioria da platéia era formada por jovens. Renova nossas esperanças na luta e utopia por um mundo melhor.

Já para o fim do bate-papo Pablo tratou do avanço das religiões evangélicas no Brasil, principalmente nas periferias das grandes cidades. Disse que isso se deve, em grande parte, à rede de proteção que essas igrejas criam, fazendo com que as pessoas que estejam ligadas a elas tenham mais chances de sobrevivência naquele universo violento e onde o estado, quando chega, é para provocar ainda mais violência.

Esse assunto já vinha se insinuando na minha cabeça e ganhou mais força depois dessa fala dele. No domingo pela manhã, como sempre faço, fui caminhar na Praia dos Artistas. Já próximo à Ponte Newton Navarro uma igreja pentecostal preparava uma atividade esportiva, recreativa. Uma grande mesa cheia de frutas estava sendo montada. Era cedo ainda, por volta das 8 horas, mas já havia um grande número de moças e rapazes no local.

truquesO link com a fala de Pablo da noite anterior foi imediato. Num dos trechos de sua exposição o escritor fez referência a como a maioria de nós enxergamos esses evangélicos, como caretas, conservadores, alienados etc, mas que é preciso compreender a realidade deles e a partir daí buscar fazer com que eles se somem à luta mais geral de parte da sociedade para mudar o Brasil. Só criticar não adianta.

O avanço da religião no país, sobretudo das  pentecostais e neo-pentecostais, é uma realidade. E suas conseqüências estão por toda parte. Ficam mais evidentes quando ocorre alguma votação polêmica no Congresso e os parlamentares representantes dessas igrejas se unem às bancadas do boi e da bala. O que deu origem a bancada “BBB” (boi, bala e bíblia).

Esse avanço obscurantista verificado nos últimos anos, a partir dessas bancadas, preocupa-me e tenho conversado com amigos sobre isso. Porque não se trata de algo pontual, como por exemplo, a extinção do Ministério da Cultura, ou das Secretarias voltadas às minorias, ou ainda o ministério Série D montado por Temer (o de Dilma era Série C) – rs.

Todas essas mudanças podem ser revertidas mudando-se o governo. Já a bancada evangélica continuará lá, variando um pouco de tamanho, sempre um calo no sapato para os avanços, sobretudo no que diz respeito às ações e políticas voltadas às mulheres, GLST, negros etc e nas questões relativas ao aborto, às drogas, às religiões afros, entre outros pontos. São parlamentares conservadores, que fazem uma leitura enviesada da bíblia (nenhuma novidade, o Estado Islâmico também faz isso com relação ao Alcorão), penalizando principalmente mulheres e homossexuais.

Eu me assusto com esse protagonismo evangélico. Com raras exceções representa um atraso e não sei onde isso poderá dar. Essa pauta deles não é a nossa, não nos representa, mas é inegável que tem muita força junto a qualquer governo. Pelo caráter de permanência que já possui e sinais de que continuará forte no futuro próximo, preocupa-me muito mais do que certos retrocessos políticos atuais, que embora graves (fim do MinC etc, citados mais acima), poderão ser revertidos mais a frente. Quer dizer, existe sempre a esperança de que isso aconteça, já com relação à diminuição do poder dos evangélicos, sinceramente não vejo como isso poderá ocorrer.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. thiago gonzaga 16 de Maio de 2016 11:00

    Muito massa seu texto, Tácito.

  2. Liana Batista 20 de Maio de 2016 20:08

    A escolha por uma vida religiosa não se dá apenas por questões morais, de valores ou princípios. Na periferia soma-se aí a questão concreta da sobrevivência, a necessidade de pertencimento a um grupo que ajude a comunidade a resistir em um lugar que o Estado só se faz presente em seu papel repressor. Há quem diga que a ditadura nunca desceu o morro, há quem diga que há Estado demais. O que sabemos por certo é que no vácuo do Estado, a ética conservadora substituta avança e já diziam os Paralamas: “O espanto está nos olhos de quem vê o grande monstro a se criar”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP