Coivara do Tempo

Albert Anker [ Die Andacht des Grossvaters ] 1893

Por Belchior de Vasconcelos Leite

Reorganizar a estante de nossos livros é fazer uma retrospectiva de nossa vida. É rever amigos que deixamos um dia, na esperança de reencontrá-los. Também comparável ao retorno de uma viagem, onde teremos de fazer escolhas: o que vai ser atirado fora ou o que abraçamos de essencial da caminhada da existência.

Os livros são companheiros de todas as horas que contribuíram na travessia a outra percepção e aprofundamento mais sublime de uma visão de mundo. São imagináveis as surpresas durante a arrumação: alegria e dor. Emoções que nos comovem e nos faz lacrimejar: o coração aperta. É uma tarefa lenta que não desejamos concluída. Quando alcançamos um livro à mão, limpamos, acariciamos como um objeto de desejo, trechos sublinhados são lidos, dedicatórias, cartas, fotos e fatos que definem circunstâncias de momentos de nossas leituras.

Tudo isso nos convida a rever o tempo perdido, aguça-se a consciência de que nossa hora está próxima, “transcorreu já todo o tempo, e de que nossa vida é apenas a lembrança ou reflexo crepuscular, e sem dúvida falseada e mutilada,de um processo irrecuperável.” A passagem das horas sinaliza o anoitecer.

Silêncio, solidão acentuam a nostalgia, interrompida por um telefonema de um amigo para saber noticias e o que tinha feito do dia. Falei de minha emoção, relatando a surpresa que me ocorreu ao encontrar alguma correspondência entre as páginas dos livros. Eram cartões dos filhos, com palavras carinhosas pelo dia dos pais ou pela passagem de meu aniversário. Cartões de companheiros de militância dos movimentos: negro,sindical e da Igreja. Alguns cooptados pelo vil metal e as benesses do governo, tornaram-se pelegos, sindicalistas chapa branca, perdendo a compostura ao defender o que antes acusava: o clientelismo, a corrupção, o oportunismo político do dando que se recebe. Cartas de companheiras que muito contribuíram em minha caminhada, pois como disse Picasso: cada mulher é uma fase de nossa vida. Separações que marcam, causam sofrimentos, mas há crescimento pois, na dor,refletimos sobre nossas sombras e tornamo-nos mais tolerantes para a vida. A arrumação dos livros é vasculhar o porão da memória, ir fundo na nossa interioridade. Como dói. Isso nos deixa comovido pro diabo.

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