Coleção conta a história de grandes discos

O clássico “Daydream nation”, lançado pelo Sonic Youth em 1998, um marco do rock alternativo, é dissecado num dos primeiros livros da coleção

Por Carlos Albuquerque
O GLOBO

Série britânica de livros sobre marcos musicais chega ao Brasil com traduções e edições sobre obras locais

Os slogans secretos inseridos pelo Sonic Youth nas primeiras cópias em vinil de “Daydream nation”, de 1988; a complexa e explosiva relação entre os membros do Velvet Underground durante as gravações do seu homônimo disco de estreia (com a cantora Nico), em 1967; o impacto de uma desastrada palestra de Wynton Marsalis no então estudante Josh Davis e seu reflexo na concepção de “Endtroducing…”, que lançou em 1996, como DJ Shadow; a forma como os estudos de Jorge Ben sobre alquimia e o universo medieval afetaram “A tábua de esmeralda”, de 1974; as contradições do Rio de Janeiro no final do milênio espelhadas em “Lado B Lado A”, que O Rappa colocou nas ruas em 1999, a “procuratividade” de Tom Zé que culminaria no imortal “Estudando o samba”, lançado em 1976.

São histórias e mais histórias, enriquecidas e engrandecidas pelos detalhes, que marcam a chegada ao Brasil da celebrada coleção “33 1/3”, da Bloomsbury, traduzida e ampliada, em conexão com a editora Cobogó. Iniciada em 2003 no exterior e sempre girando em torno de um álbum marcante, ela ganha por aqui o natural título “O livro do disco” e também versões locais.

O primeiro pacote de traduções tem “Daydream nation”, do Sonic Youth, por Matthew Stearns, “The Velvet Underground and Nico”, por Joe Harvard, “Endtroducing…”, por Eliot Wilder, acompanhado pelos inéditos “Lado B Lado A”, por Frederico Coelho, “A tábua de esmeralda”, por Paulo da Costa e Silva, e “Estudando o samba”, por Bernardo Oliveira, e vai ser lançado hoje, às 19h, no Oi Futuro Ipanema, durante o festival Novas Frequências.

— Temos, em linhas gerais, ainda poucos livros sobre música no Brasil e a maioria deles é de biografias — conta Isabel Diegues, diretora da Cobogó. — E essa coleção tem a particularidade de permitir a reflexão sobre alguns grandes discos. Isso é sedutor.

Num momento em que a relação das pessoas com a música tende a se tornar cada vez mais superficial, foi essa “sedução” que fez com que Isabel se permitisse conquistar pela proposta apresentada por Frederico Coelho, historiador, pesquisador e DJ (da festa Phunk), e Mauro Gaspar, jornalista, pesquisador e editor. Apaixonados por música, os dois tocaram a mesma tecla para Isabel por um bom tempo — a Cobogó deveria, de alguma forma, se associar à série da editora britânica — até que conseguissem, todos, entrar em sintonia.

— Passamos, por coincidência, uma temporada de estudos nos Estados Unidos em 2006, cada um num estado, e entramos em contato com a série original. Voltamos nos perguntando como seria bom ter uma coleção assim no Brasil e comentamos isso com a Isabel, tentando achar um formato — conta Coelho. — Há cerca de dois anos o Mauro fez uma conexão entre a Bloomsbury e a Cobogó, criou um projeto e conseguiu bolar um acordo.

No arranjo final, os dois tornaram-se os curadores da coleção, responsáveis pela ampliação do conteúdo original com a produção de livros sobre discos feitos no Brasil.

— Foi a forma que encontramos para incrementar a coleção com um toque próprio — conta a diretora. — Sempre tivemos a vontade de incentivar a produção de material local, já que temos uma música de grande riqueza.

Do farto material da “33 1/3” — que já chega a mais de uma centena de lançamentos — foram pinçados, após muitas apaixonadas discussões entre os curadores e a diretora, os três primeiros livros, envolvendo uma pérola dos subterrâneos dos anos 1960 (Velvet), um marco do rock alternativo (Sonic Youth) e o trabalho que consagrou o sampler como ferramenta musical (DJ Shadow).

— Cada livro aborda um disco de uma forma diferente. No caso do DJ Shadow, por exemplo, tudo se dá através de uma entrevista do autor com o artista, enquanto o Joe Harvard busca a ajuda de diversas fontes e referências para retratar os bastidores das gravações do disco do Velvet Underground — explica Isabel.

O mesmo formato de não ter formato foi levado para as obras locais (sendo que uma delas acabou, por questões de prazo, ficando a cargo do próprio Frederico Coelho). Enquanto este retrata a cidade que inspirou o melhor trabalho do Rappa e Bernardo Oliveira tenha ido, em suas palavras, “além do bem e do mal”, para tentar desvendar o enigma da obra de Tom Zé, Paulo da Costa e Silva se permite deixar levar pela magia de Jorge Ben, numa interpretação pessoal de “A tábua de esmeralda”.

— Eu já tinha feito um especial sobre Jorge Ben para a Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, da qual era coordenador, e recolhido bastante material sobre ele — conta o autor. — Mas foi fascinante poder mergulhar no universo desse disco, descobrindo a forma como Jorge misturou, com maestria e grande beleza, o universo da alquimia com o imaginário medieval e a cultura de subúrbio do Rio de Janeiro. Ouvido repetidas vezes, o disco me incentivou a pensar, até como um devaneio. E é isso o que grandes obras de arte fazem.
LEIA TRECHOS DOS LIVROS

“É um tanto revelador que o Sonic Youth tenha se dado ao trabalho de gravar uma série de slogans dissimulados na faixa externa das prensagens originais em vinil de ‘Daydream nation’. (…) Os escritos são o jeito como a banda injeta conteúdo expressivo onde nenhum conteúdo havia sido originalmente previsto — um ato provocador de articulação na esfera do inarticulado, de liberação alcançada por intermédio da transmissão de mensagens codificadas via canais clandestinos e semiproibidos”

(Matthew Stearns em “Daydream nation – Sonic Youth”)

“A aura mitológica dos alquimistas e de suas fantásticas vidas fez desde cedo a cabeça do jovem Jorge Ben. Em 1974, essas misteriosas figuras, e toda a filosofia que as acompanha, finalmente entraram para o repertório de seus inesquecíveis personagens musicais. Tornaram-se o eixo conceitual de um disco que logrou uma mistura tão inusitada e misteriosa quanto a própria ciência hermética da antiga alquimia”.

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