Com carinho

onde está você, cachorro magro?

 

terá deslizado das prateleiras, escritor mal vendido,

soterrado sem vida no amontoado de livros de uma loja de departamentos,

onde outrora um outro fixou olhares num retrato de Anna Akhmátova?

 

ficou preso às elipses, encurralado nos armários,

triste e infame, passando da meia-idade,

com os olhos vidrados, numa sala secreta do prédio do governo?

 

resíduo de cidade, por onde você caminha agora?

 

de um confinamento a outro, miserável mas sadio, é verdade que anda gordo,

comendo os rabos mais fáceis, e se perguntando se teria sido grande

caso tivesse ousado escrever as coisas caladas em respeito ao pai?

 

pergunte ao pó, cachorro magro, da tua geração em frangalhos,

conte os cacos e as condecorações, faça a matemática.

 

quanto mais esperaremos para que tua memória, teus livros,

tuas aspirações de grandeza, tua carne cinza,

sequer se deduzam da geografia arruinada da terra natal?

 

ou você também procurará bumbas-meu-boi na night zombie da metrópole?

e forjará folclores, enquanto eu chupo tuas bolas e outros escuros?

 

{Republicado devido a erro editorial}

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Marcos Silva 28 de Janeiro de 2014 20:18

    Quando eu li pela primeira vez o livro Fauna contemporânea, de Esmeraldo Siqueira, percebi a poética à clef (alusões cifradas, nos poemas, a pessoas da cena cultural natalense). Evitei priorizar esse viés dos textos de Esmeraldo em minha leitura para melhor compreender sua escrita, suas opções estilísticas e mesmo seus valores sociais, sem me preocupar com as pessoas “reais” a quem se aplicava. Pessoas reais, num poema, são as que estão no poema, inclusive o autor – eu inventado e fingidor até certp ´pmtp. Faço o mesmo quando leio Lima Barreto. Identificar as pessoas cifradas pode render pilhérias mas nada produz como análise e compreensão da escrita.
    Agora que o poema de Jota Mombaça foi publicado integralmente, notei algo semelhante ao que observei sobre Esmeraldo e Lima Barreto, preservei a mesma postura ao ler aquele texto.
    O trecho “pergunte ao pó” impressiona pela dicção clássica, quase bíblica, profética. O cachorro magro (que “anda gordo”, como a loura burra de Gabriel Pensador – negra, ruiva), alvo do poema, foi caracterizado como “escritor mal vendido”, “preso às elipses” (à linguagem figurada, pretensiosamente rebuscada?), mais velho que o emissor da voz poética (“passando da meia-idade”, ligado a um passado sem glória – “geração em frangalhos / […] cacos”), “resíduo de cidade” (talvez excremento). Há um claro desprezo pelo outro em idade e opções políticas ou poéticas.
    O verso final, numa reviravolta que só a poesia pode fazer, realiza uma prova de carinho: “chupo tuas bolas”. É uma interessante reconciliação com um objeto tão desprezível. Esmeraldo deceparia as bolas do adversário e as lançaria aos cães – outra poética.

  2. Marcos Silva 28 de Janeiro de 2014 20:58

    Meu comentário contém um erro de digitação. O correto é FINGIDOR ATÉ CERTO PONTO. Peço desculpas.

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