Com carinho

onde está você, cachorro magro?

 

terá deslizado das prateleiras, escritor mal vendido,

soterrado sem vida no amontoado de livros de uma loja de departamentos,

onde outrora um outro fixou olhares num retrato de Anna Akhmátova?

 

ficou preso às elipses, encurralado nos armários,

triste e infame, passando da meia-idade,

com os olhos vidrados, numa sala secreta do prédio do governo?

 

resíduo de cidade, por onde você caminha agora?

 

de um confinamento a outro, miserável mas sadio, é verdade que anda gordo,

comendo os rabos mais fáceis, e se perguntando se teria sido grande

caso tivesse ousado escrever as coisas caladas em respeito ao pai?

 

pergunte ao pó, cachorro magro, da tua geração em frangalhos,

conte os cacos e as condecorações, faça a matemática.

 

quanto mais esperaremos para que tua memória, teus livros,

tuas aspirações de grandeza, tua carne cinza,

sequer se deduzam da geografia arruinada da terra natal?

 

ou você também procurará bumbas-meu-boi na night zombie da metrópole?

e forjará folclores, enquanto eu chupo tuas bolas e outros escuros?

 

{Republicado devido a erro editorial}

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