Com Cefas Carvalho


Encontos e Desencontos, assim mesmo, sem o R para atrapalhar o joguete de palavras, é o título do livro do jornalista e escritor Cefas Carvalho. São 25 textos selecionados pelo autor. Alguns são inéditos. Outros já foram publicados em revistas, jornais e blogs. Um destes contos, “Lana”, foi publicada na coletânea “Entrelinhas” da editora paulista Andross. Cefas Carvalho passeia por diferentes gêneros literários. Tem dois romances publicados: Ponto de fuga e Três, e o livro de poesias Reinvenções. Escreveu e publicou uma dezena de cordéis e é coordenador do Concurso de Poesia Zila Mamede, que publicou três coletâneas de poetas potiguares. Faz parte do grupo literário Verborrágicos e mantém o blog literário www.cefascarvalho.blogspot.com O livro tem prefácio de François Silvestre e projeto gráfico de Davi Othon e Lucian Kleyton.

O título do livro sugere várias interpretações. No prefácio, François pergunta: “São contos? estórias? crônicas?”. O que são estes encontos e desencontos?
Cefas Carvalho – São contos que, com o perdão do trocadilho, mostram justamente os encontros e desencontros das pessoas com si mesmas, com as outras pessoas e com as coisas. É o meu apanhado de histórias curtas, escritas desde os idos tempos em que eu queria mudar o mundo até coisa de uns meses atrás.

Até que ponto os diálogos e cenários dos textos refletem a essência do autor?
Alguns contos são, realmente, desabafos, tentativas de entender a realidade, ou, mais precisamente, de me entender, tarefa inglória e talvez impossível. Claro que nestes, os cenários e diálogos refletem alguma realidade vivida, testemunhada ou que me é próxima, de alguma forma. Outros são, evidentemente, fantasias, como “Defeito de fábrica”, originado de uma brincadeira sugerida por Cláudia Magalhães.

A dor e a solidão são sentimentos recorrentes em muitos contos selecionados no livro. Foi proposital? É uma espécie de fio condutor da obra?
Possivelmente. Sempre preferi temas e histórias mais duras, tristes, enfim, que as suaves. Entre Pasolini e Frank Capra, entre Hilda Hilst e Mário Quintana, vou preferir sempre os primeiros.

É o que “seus demônios” querem que você escreva?
Em 90% dos casos meus demônios é quem guiam minha pena, ou melhor, os (dois) dedos no teclado. Acho que quase todo escritor que sonhe em produzir algo sólido, não purpurina ou Best Sellers, escreve com base nos seus infernos interiores. Consciente ou inconscientemente.

Há certa sensualidade em relatos sombrios, recheados de melancolia de alguns personagens. É influência de algum autor esta linha de escrita ou um estilo próprio?
Um pouco das duas coisas. Por um lado, a vontade de escrever sobre temas fortes e de esmiuçar aspectos dos relacionamentos e da sexualidade, levam naturalmente a esse ponto. Por outro lado, não posso negar a influência de escritores que admiro, seja pelo estilo, pela temática ou por alguma afinidade que não consigo distinguir com clareza. Os principais são Hemingway, Gide e Ernesto Sábato. Sem esquecer Borges, pelo lado mais racional, e também Machado de Assis.

Essa carga demasiada e meio niilista de humanidade é também fruto de filósofos como Nietzsche?
Nietzsche foi um dos heróis de minha adolescência, junto com Renato Russo, Morrissey e Coppola, e o único filósofo que li com maior profundidade. Talvez eu precise de umas conversas com Pablo Capistrano. Mas, a visão niilista também é muito instintiva.

Qual o instante da poesia e a hora dos romances?
A poesia, dada a sua relativa facilidade, surge quando menos se espera, ou quando se quer fazer, seja ela boa ou ruim. Já um romance é uma vitória contra a preguiça. É como desenhar um prédio, visualizar o arranha-céu, e começar misturando cimento com areia. Nem sempre é fácil. Leva tempo para ficar pronto, obriga a muito recolhimento e muitas correções. No popular, é trabalhoso mesmo.

O cordel se encaixa num intervalo mais próximo de quais destes dois gêneros?
Cordel é poesia popular, feita para isso. Tanto que quando escapa uma palavra mais “difícil” em um cordel meu, eu me policio para cortá-la.

O conto é o gênero mais fácil de escrita pela liberdade de tamanho e temáticas?
Creio que não. Se a intenção for escrever uma obra de arte, a dificuldade é a mesma de se escrever qualquer outra coisa. Claro que um conto leva menos tempo para ser escrito do que uma peça teatral ou um romance. Mas, entre um conto de Borges ou Dalton Trevisan e um romance tipo Sabrina, ficamos com a certeza que foi mais difícil escrever o conto.

Quais razões apontaria para uma cidade tão pródiga em parir poetas e tão carente de romancistas? É herança de Ferreira Itajubá e Jorge Fernandes?
Isso sempre é questionado, sempre é perguntado e nunca se chega a uma conclusão definitiva. Não quero crer que o vírus da preguiça seja responsável por isso. Podemos raciocinar que aos poucos a cidade gera romancistas novos como Patrício Junior, Pablo Capistrano, Aldo Lopes. Mas, confesso não saber por que nós prosadores não faríamos um time de futebol e os poetas natalenses encheriam um Machadão. Cartas para a redação!

Lançamento literário
Livro: Encontos e Desencontos
Quando: hoje, sexta-feira
Onde: Livraria Siciliano, Midway Mall
Hora: 19h
Quanto: R$ 20 o exemplar

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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