Com o tempo…

Com o tempo, fica-se mais diversa. Talvez mais dispersa. Aprende-se a deixar livres as dúvidas. Aprende-se a apaziguar-se com elas. Tê-las, as dúvidas, e não querer a todo o custo perdê-las.
Com o tempo, fiquei mais espessa e menos urgente. Quer dizer, mais densa e menos tensa. Assim, mais consistente, menos ávida. Mais à vida, porém.
Muito mais dada à vida. E menos ao mundo. Menos ao mundo e suas dissipações. Suas desconcentrações. Menos ao mundo e suas superficialidades.
Estou mais antiga. Com mais receios, mas também mais alegria. Os receios de perdê-la, a alegria, sempre por uns fios.
Mais pensamentos, menos atos. Mais contatos.
Menos rua, mais casa. Menos pureza e mais mistura. Mais atenta e muito menos conclusiva (tenho as dúvidas, elas me guiam).
Muito menos certa. Dou-me ao luxo de estar inserta na poeira do deus que me atravessa. Múltiplo. Ele não me cabe. Nem eu.
Menos crente, muito menos crente, muito mais iluminada.
Mais andarilha, mais vereda, mais estrada. Menos correria. Mais andanças.
Menos cortes, mais cicatrizes. Mais lembranças.
Menos amargura e mais melancolia. Menos prosa, menos cartas, mais poemas. Mais poesia.
Mais símbolo e menos revelação. Cada um sabe de si, e é suficiente. Ninguém precisa saber de mim.
Mais mãe, mais avó, menos filha. Com o tempo vai-se… Ficando.
Fica-se menos criança, mais menina. Mais angina, menos hambúrguer.
Fica-se assim, romanceada. Vai-se virando estória. Vai-se falhando.
Mais afeto, menos fingimento. Mais momento, menos eternidade.
Menos amigos, mais amizade.
Mais coágulo, menos hemorragia.
Tem-se menos pressentimento. Mais sentimento. As palavras ficam mais exigentes. Não surgem, não urgem. Arredaram-se, não sei quando. Um dia sem palavras. Há uma profusão de silêncios agora e aqui.
Agora é o nome do tempo. Sempre. Com o tempo, vai-se ficando com mais passado, menos futuro. Muito mais presente.
Com o tempo, fui ficando mais crua, menos perua. Mais interna, mais intensa. Menos exposta, porém. Criei cascas. Mas fiquei muito mais vulnerável a mim mesma.
Com o tempo, fui sabendo mais de mim. Fui sabendo menos de mim (ah, as dúvidas…).
Mais música, menos barulho. Mais melodia.
Menos juras. Mais sinceridade.
Com o tempo, fica-se. Ou vai-se, para onde se queira.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Carmen Vasconcelos 20 de setembro de 2013 10:02

    Obrigada, Anchieta.

  2. Anchieta Rolim 19 de setembro de 2013 17:31

    …Dou-me ao luxo de estar inserta na poeira do deus que me atravessa. Múltiplo. Ele não me cabe. Nem eu….Carmem, lindo demais esse texto. Parabéns!

  3. Carmen Vasconcelos 19 de setembro de 2013 11:24

    Obrigada pela leitura e carinho, Ednar. Beijo.

  4. Ednar Andrade 19 de setembro de 2013 9:48

    “Há uma profusão de silêncios agora e aqui.
    Agora é o nome do tempo. Sempre. Com o tempo, vai-se ficando com mais passado, menos futuro. Muito mais presente.”

    (Carmen Vasconcelos)

    Parabéns,querida.
    Beijos e paz…………………….. 🙂

    Espelho da alma*

    A transparência do tempo nos faz melhores.

    (EA)

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