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Comentário de mais um livro selecionado no Prêmio Literário Rota Batida: ‘Francisca’

Finalizei a leitura dos dois livros contemplados no maior concurso literário do RN: o Prêmio Rota Batida. Isso na categoria Romance. A quarta edição do Prêmio, realizado ano passado, foi viabilizada em parceria entre a Fundação Vingt-Un Rosado/Coleção Mossoroense e a Petrobras, via Lei Câmara Cascudo.

A primeira colocação ficou para ‘Carla Lescaut’, de Cefas Carvalho, o qual já comentamos AQUI. O segundo colocado foi o livro ‘Francisca’, de autoria da psicóloga Ana Cláudia Trigueiro de Lucena – um romance histórico ou uma “ficção baseada em fatos reais”, como ateste a própria autora.

A convite de Isaura Rosado participei de uma comissão para análise de obras a serem publicadas pela Gráfica Manibu. Recebi poucos livros e não destacaria nenhum. De certo, esses dois romances do Rota Batida são de melhor qualidade. Ainda assim, acho pouco representativos como destaques de uma premiação literária.

‘Francisca’ tem seus méritos. Ao contrário de muitos autores – notadamente historiadores -, que constroem personagens para inseri-los dentro de um contexto histórico real, Ana Cláudia tem o mérito de usar um período da história de Natal como pano de fundo para uma ficção, embora baseada em fatos.

Resumidamente: Francisca é a caçula das duas filha de um comerciante abastado e uma mãe interiorana, típica dona de casa. Com o falecimento do pai e a falência do comércio, a mãe coloca as filhas em um orfanato, onde visita a cada 15 dias, nas folgas de seu novo trabalho em um hospital.

A descrição da vida simples do início do século passado na cidade a partir dos costumes dos personagens. E principalmente, a rotina de um orfanato e as angústias vividas pelas duas filhas adolescentes, notadamente a de Francisca, são os grandes méritos da obra, que por vezes emociona.

Talvez pelos fatos reais (todo fato não é real? Fica a pergunta), há colocações desnecessárias à trama da obra, que servem mais de registro particular ou para escoar lembranças marcantes da adolescência. Por exemplo: tinha me questionado o porquê de uma página inteira para descrever o filho de Francisca, José, e não a de outros filhos. Nas páginas finais, a comprovação: José é o pai real da autora.

É um livro de escrita simples que não traz nenhum aprofundamento das questões relatadas ali; não quer ir além do que está ali escrito. É quase um livro de memórias. E neste viés é um registro muito bonito e docemente sentimental, com o bônus de curiosidades de uma Natal de outrora.

Aliás, há passagens do início do século passado interessantes, como a descrição do sobrevoo do Graf Zeppelin pela Praça Augusto Severo, na Ribeira, ou o tocar apavorante das sirenes na provinciana Natal da Segunda Guerra. “Quando isso acontecia apagavam-se todas as luzes da cidade e também as das casas. Não podia haver nenhum tipo de claridade que pudesse servir de sinalização aos alemães. Para isso as janelas viviam cobertas com panos pretos.”

Fatos curiosos como esse, ou ainda as poesias de autores clássicos muito oportunas na abertura de cada capítulo, e também, como disse, as angústias, medos e intensidade de sentimentos de duas adolescentes praticamente abandonadas em um orfanato após uma mudança radical de vida, prendem o leitor e são os méritos de ‘Francisca’.

FOTO: Editada a partir do facebook da autora

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Comentários

1 comment

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 15 fevereiro, 2017 at 11:42

    Oi Conrado,
    Vi agora a crítica ao meu livro Francisca.
    Obrigada pelo texto. É importante para o escritor receber comentários à sua obra, pois ajuda no seu amadurecimento. Ainda mais para mim, que me considero uma autodidata. Amo o ofício, mas minha formação é precária nesse sentido.
    Me permita uma pequena observação a respeito do personagem José: ele é pai da autora e decerto, há uma intenção afetiva em ressaltá-lo em detrimento aos outros dois: João e Joaquim, rs. Mas há um detalhe que parece ter escapado à sua leitura: ele era o terceiro José da família. O único a chegar à fase adulta. Essa peculiaridade, a insistência do pai, Genésio, em repetir um nome que parecia predestinado a não vingar é o que pretendi enfatizar de fato.
    Mais uma vez obrigada pela atenção dada a esta obra que me é tão cara!
    A sua citação aos clássicos que escolhi com muito cuidado para cada capítulo, me alegra bastante, pois pretendi que chamasse a atenção do leitor, como chamou a sua.
    Abraços,
    Ana Cláudia.

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