Como ajustei minha vida social no purgatório

Por Daniel Liberalino

Num trecho do Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, o superior de Montag atira livros numa pilha, enquanto diz algo nessa linha: “Claro que eles (os autores) começam a escrever com boas intenções. Mas após as primeiras experiências, é vaidade”. É difícil não simpatizar com o chefe de Montag e suas razões, claras como ouro, para extinguir a cultura e a memória humana.

Entretanto, me ocorre, são os autores, não o leitores, os verdadeiros otários na barganha artística; os verdadeiros tapeados. Como vejo, um (bom) autor aprende a contornar certas indulgências, à medida em que estas o impedem de registrar, em seu livrinho, aquelas sarnas secretas e cumulativas, socialmente incomunicáveis, que não cessam de coçar.

Nesse sentido, a literatura é como um supositório para o alívio sintomático da oxiurose; serve, em essência, para calar os pequenos vermes solipsistas indissociáveis da natureza ambivalente do homem, o eterno misantropo semi-consciente, que, alas, precisa se enturmar ou perecer. Nesse cenário, a vaidade ordinária dos autores, embora em geral hiperbólica à dimensão do grotesco, não costuma interferir na ambição estética maior de uma obra – resultante de uma vaidade proporcionalmente maior -, infligindo, em consequência, um mal menor ao leitor, que deve receber apenas o produto final, limpo e justo.

Um bálsamo temporário para seu próprio solipsismo, sua própria oxiurose. Por outro lado, o autor precisa lidar com a culpa, multi-espelhada, do narcisismo, não raro sendo a mesma uma encenação narcisística, alimentando ciclos de auto-acusação e megalomania; um chiqueiro moral é o que temos aqui, rapazes. Ver a própria alma nunca foi – é notório – para os fracos de estômago. Finalmente, esse peristaltismo de frustrações inamovíveis, auto-obcecadas e auto-depreciativas rendunda inútil: para o autor, nenhuma de suas mensagens em garrafas, ardentemente expelidas, será efetivamente respondida; seu solipsismo apenas aumenta, com o tempo, tomando consciência de si mesmo, à medida em que é rigorosamente registrado, e cada vez mais clara fica sua extensão e seu inescapável.

Comentários

Há 13 comentários para esta postagem
  1. chico m guedes 5 de julho de 2011 20:57

    nunca pensei que um texto de Daniel Liberalino ia gerar uma sessão de tricot. (fora as exceções óbvias)

  2. Jarbas Martins 5 de julho de 2011 19:35

    devo a Carlão, Horácio, ter conhecido outro tiozão, o Cortázar.esse é tão velho que morreu e ninguém tomou conhecimento. nem o coveiro. nem o João da Mata, que tem cara de geriatra, ouviu falar de Cortázar..por falar em gerontocracia,quem vai bombar no festival de Garanhuns? é Ariano Suassuna ? outra pergunta, Horácio, tem notícias de Jommard de Brito?

  3. Jarbas Martins 5 de julho de 2011 19:16

    imagine, Horácio, você tiozão.tiozão é o Carlão, ele e “seu” Bukowski, aquele velho senhor, lembra-se dele, Horácio?

  4. françois silvestre 5 de julho de 2011 18:43

    Esse texto é Jota Bombaça com vírgulas e pontos nas frases. Eles precisam se encontrarem, vírgula…

  5. horácio oliveira 5 de julho de 2011 17:44

    Jarbas, já sei que não sou tiozão.

  6. Carlos de Souza 5 de julho de 2011 15:13

    porra, que cara pra escrever bem!!! e ainda mais tem o nome da minha rua de infância: coronel liberalino, em areia branca. meu abraço pra esse sujeito brilhante.

  7. chico m guedes 5 de julho de 2011 13:10

    faltou dizer que Daniel nem sabe ainda que esse texto apareceu aqui. ele vive encapsulado em Mossoró, sem internet em casa, e por isso mantemos um contato bem irregular. a iniciativa foi minha mesmo.
    e também que o humor dele me lembra algo saído da Europa Central. DL, talvez concordem comigo, não é um fruto típico de províncias praieiras ensolaradas.

  8. Jarbas Martins 5 de julho de 2011 9:34

    Você conhece, Marcos, gente com cara mais de tiozão do que o João da Mata? Só o nosso Vicente Serejo.

  9. Marcos Silva 5 de julho de 2011 3:13

    Pensei que os tiozões do Jarbas eram apenas coroas. Como João indicou não ter vocação para isso (para quê?), peço esclarecimentos.

  10. João da Mata 4 de julho de 2011 23:10

    ps. Jarbas, tõ fora dos tiozão. Não tenho vocação.

  11. Marcos Silva 4 de julho de 2011 22:58

    PS – Tenho a impressão que Jarbas me escalou para o time dos tiozões. Bato uma bola razoável, Jar.

  12. Marcos Silva 4 de julho de 2011 22:57

    Daniel, fiquei impressionado com seu raro vocabulário. Meu comentário, infelizmente, segue com um palavreado muito mais chão.
    Autores são narcisistas, delirantes, auto-centrados e o escambau. Se dessa mixórdia resultarem boas obras de arte, que bom! Existem pessoas que são pérolas de candura e não escrevem (nem pintam, nem filmam, nem cantam etc.) bem. Devem ser ótimas criaturas. Não são bons artistas.
    Narcisismo e outras chatezas não são monopólio de escritores e demais artistas. Escritores e demais artistas são humanos, demasiado humanos – “acostuma-te à lama que te espera”, como dizia augusto dos anjos..São humanos no horror mas também em algumas qualidades e, principalmente, muito diferentes uns dos outros.
    Dostoiévski, pelo que falam, era insuportável no convívio. Escreveu aquilo. Se Deus existir, escreveu certo por linhas tortas. Se Deus não existir, escreveu certo e tivemos a graça de conhecê-lo apenas pela escrita.

  13. chico m guedes 4 de julho de 2011 22:48

    muito obrigado, Tácito, por ter aceito a sugestão de apresentar Daniel Liberalino aos leitores do SP.
    se alguém quiser conferir se tenho ou não razão em considerá-lo o autor e pensador mais brilhante (aliás, o único que merece esse adjetivo) da geração de escribas beirante os 30 anos no RN, além de artista visual de enorme talento, que também faz música, visite o blog: http://disfuntorerectil.blogspot.com/
    e, havendo disposição, baixe também seu bifragmentelivro (termo meu, aqui criado) ‘Corpúsculo num plano – e como adquiri imunidade à varíola’, aqui: http://disfuntorerectil.blogspot.com/2010/08/livro-para-download.html
    boa viagem

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