natal na segunda guerra

Como era Natal na Segunda Guerra Mundial?

Como professor de história, sempre me questionei sobre Natal na Segunda Guerra Mundial. Como era a cidade? Quais os impactos causados nos arrabaldes da cidade provinciana? Uma urbe transformada em Trampolim da Vitória, cenário da aviação mundial. Qual cidade surgiu depois do encontro dos presidentes Roosevelt e Vargas na Rampa?

Sobre essas consequências dos tempos de guerra para a urbe o historiador da província, Câmara Cascudo nos deixa umas pistas em sua História da Cidade do Natal:

[…] Alecrim, com suas avenidas retangulares, sua extensão em claridade, sua possibilidade de desdobração, aparece como um milagre de previsão dos velhos e acusados administradores antigos. O crime, cruel e tenebroso crime da displicência administrativa, é sujar todo esse cenário luminoso entregando a terra da gente morar a quem quer apenas vender. (CASCUDO, Luís da Câmara. História da Cidade do Natal. Natal: EDUFRN, 2010, p. 31)

Ao observar a cidade de Natal, suas romarias para além das Quintas, seus recantos nascidos às margens dos sons das aeronaves norte americanas a cortarem os céus de Ponta Negra à Redinha, constato que perdemos a guerra.

Sim, Natal perdeu a guerra! Aquela cidade pacata, com cheiro e sons de província, impactada com a mobilização militar nunca vista em solo potiguar. Militares, jornalistas, empresários, gente do universo de Hollywood… gente de outras paisagens do Brasil… todos, homens e mulheres, de algum modo atraídos para a terra Potiguar, vindos e trazendo nas bagagens além de costumes, diversos, dinheiro e novas demandas.

A província corria os trilhos de um progresso relâmpago de contingente populacional de aproximadamente 35 mil – no início da década de 1930 -, saltou para quase 100 mil habitantes no final da década de 1940.

A Natal vivida por Cleantho Homem de Siqueira, descrita em seu livro, Guerreiros Potiguares, não era a mesma pós a guerra:

À primeira vista, Natal apresentava-se com nítidas características de cidadezinha provinciana de vida modesta e pacata. Tinha pracinha com indispensável coreto em frente à matriz da santa padroeira, no caso, Nossa Senhora da Apresentação, venerada em novembro, com festa que dura nove dias, sendo encerrada com a tradicional procissão dos fiéis presidida pelo bispo diocesano Dom Marcolino Esmeraldo Dantas, muito respeitado e querido no seio do seu rebanho. A vida na cidade corria sossegada sem os atropelos da cidade grande. Durante o dia, todos se preocupavam com seus fazeres cotidianos. À noite, pegando a brisa suave do alísio, punham-se cadeiras nas calçadas para uma boa conversa até a hora do sono reparador. O cinema era uma opção alternativa para os amantes da arte cênica, enquanto os aficionados dos desportos se dividiam entre as tardes de futebol, praticado no campo da Liga, atual Juvenal Lamartine e animadas manhãs de regatas e competições de natação no Rio Potengi […] (SIQUEIRA, Cleantho Homem de. Guerreiros Potiguares: O Rio Grande do Norte na Segunda Guerra Mundial. Natal: EDUFRN, 2007, p. 101).

“Berlim, caiu, viva!”…

Este grito a ecoar nas ruas da cidade, em esquinas, casarões e casebres anuncia o fim da guerra. Vitória das nações democráticas contra o nazifascismo, motivo de alegria e festa em todos os cantos de Natal. A rendição da Alemanha representou a volta, para usar um termo do tempo presente, “ao novo normal” do mundo.

Mas, os gritos de “Berlim, caiu, viva!” não tem o mesmo significado para todos os moradores da cidade das dunas, banhada pelo atlântico e cortada pelo rio Potengi. Para muitos, o rio das Quintas, o rio Doce, o riacho do Baldo, a ladeira do cemitério, continuaria a ser lugar de idas e vindas, com feixes de lenhas na cabeça ou trouxas de roupas, depois de um dia de serviço. A vida era indiferente à queda de Berlim. Que Berlim era esse?

Se é verdade que para parte da população as noticias do fim do conflito foi algo indiferente, para todos os efeitos, o fim do conflito mundial não tardou a ser sentido.

A elite política e econômica natalense não preparou a cidade para o fim da guerra e a desmobilização de milhares de militares norte-americanos.

Legado da Guerra

A Base Norte Americana, construída em solo potiguar, responsável pelo envio de tropas e suprimentos dos EUA, principalmente para os militares/combatentes no norte da África, foi entregue às autoridades brasileiras e a mobilização dos militares desativada. Natal Trampolim da Vitória tinha agora novas demandas herdadas do período das noites de bleck-out.

A narrativa de modernização do espaço urbano como resultado dos esforços de guerra e o crescimento econômico é uma questão a ser questionada. Nem todos os habitantes da cidade alcançaram os “louros” dos tempos do Trampolim da Vitória. A historiadora Flávia de Sá Pedreira, nos apresenta o depoimento do senhor Francisco de França Filho:

“Eu lembro que quando cheguei em Parnamirim, com meu pai e minha mãe, eu tinha quatro anos de idade, 1940, já havia um ano antes a guerra começada, em 1939. E lá se deparamos com uma verdadeira floresta de cajueiros… cajueiro de tabuleiro… e foram chegando várias famílias e tal e não se tinha do que viver… Começamos a viver sob o lixo dos americanos. Mas era uma riqueza o lixo dos americanos, naquela época. Eu não sei se eles davam porque sentia falta de alimentação pra a pobreza… porque era tonéis grandes de banha de porco… e os porcos eram criados numa pocilga, lá em Pirangi, certo?” (PEDREIRA, Flávia de Sá. Chiclete eu misturo com banana: Carnaval e cotidiano de guerra em Natal 1920-1945. Natal: EDUFRN, 2005, p. 109)

Gente como a família do Senhor Francisco, contribuíram para a Natal do período da guerra. Muitos ergueram as paredes da base área norte americana, homens e mulheres em busca da sobrevivência, trabalho e moradia, aqui chegaram e construíram a urbe nos tempos de guerra.

E o que ficou? Volto as minhas inquietações iniciais. E os investimentos realizados neste esforço militar? Qual a herança deixada em solo potiguar? A valorização do solo? Empregos ou desempregos?

Efeitos econômicos

O Rio Grande do Norte, palco importante durante a Segunda Guerra Mundial, não foi inserida nos projetos de industrialização do governo Vargas. A região Sudeste foi a contemplada com um processo de industrialização, cabendo ao Nordeste o papel, no máximo, de produtor de matéria-prima.

Natal viveu um crescimento econômico entrecortado com grave crise socioeconômica, motivo de uma ocupação desordenada da cidade com efeitos ainda sentidos na cidade do tempo presente. A professora Giovana Paiva de Oliveira é bem clara sobre a situação da urbe diante dos impactos da guerra:

A partir de 1942, a vida em Natal, para além das novidades e festividades, foi marcada pela carestia e inflação, pelo colapso do sistema de transporte e abastecimento de água, pela crise de abastecimento de gêneros alimentícios e racionamento de combustíveis, pela falta de habitação para atender à demanda instalada e pela especulação imobiliária. (OLIVEIRA, Giovana Paiva de. Natal em guerra: as transformações da cidade na Segunda Guerra Mundial. Natal: EDUFRN, 2014, p. 136)

Os impactos da Segunda Guerra Mundial necessitam de novos olhares. Existem eixos importantes para se pensar este grande evento ocorrido na cidade, transformada em Trampolim da Vitória.

Hoje ao pisarmos o chão da Rua Chile, Rua Dr. Barata, da Rampa e a cidade de Parnamirim encontraremos certamente vestígios dessa cidade trampolim. As minhas inquietações se referem ao que ficou à margem das mobilizações de recursos injetados na economia local. Se de um lado ocorreu um progresso vertiginoso, por outro lado, o ônus das demandas sociais não foi contemplado neste processo de “desenvolvimento”.

A indústria do turismo cultural, segmento econômico, que poderia ser uma alavanca de geração de empregos e rendas, ao longo das diversas administrações do pós guerra não recebeu os cuidados necessários.

A cidade conhecida em todo o mundo da aviação, e, a qual sediou a maior base norte-americana fora do solo dos EUA ainda engatinha na promoção de um roteiro turístico sobre a participação de Natal no contexto da Segunda Guerra mundial.

Nestes tempos de eleições municipais, deixo minha inquietação: Natal perdeu ou ganhou a Segunda Guerra Mundial?

Historiador e professor especializado em História e Cultura Afro-brasileira e Africana [ Ver todos os artigos ]

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