Como escritores se articularam para criar o boom latino-­americano

Por João Cezar de Castro Rocha
ILUSTRÍSSIMA – FOLHA DE SÃO PAULO

RESUMO

Livro lançado por jornalista catalão reúne informações sobre o chamado boom
da literatura latino­americana, que teria tido lugar em Barcelona, nos anos 1960 e 70.
Arquivos guardados nos EUA, contudo, mostram que a troca de correspondência e a
intensa articulação entre os autores datam já da década de 1950.

*

Nas décadas de 1960 e 1970, um movimento reescreveu o lugar da literatura latino-americana
no cenário internacional. Amparado por dez anos de pesquisas, um jornalista
espanhol quer reescrever sua história.

Em “Aquellos Años del Boom: García Márquez, Vargas Llosa y el Grupo de Amigos que lo
Cambiaron Todo” [RBA, 26€, 880 págs., R$ 31,15 em Kindle], de 2014, Xavi Ayén se
propôs a um exaustivo estudo, composto a partir de uma miríade de entrevistas com
personagens-­chave da geração do boom ­autores, editores, agentes e críticos literários.
Ganhador do Prêmio Gaziel de Biografias e Memórias 2013, o livro de Ayén, que se impõe
como referência indispensável pela quantidade de informações reunidas, deixa a desejar,
porém, no quesito interpretativo, ao tentar oferecer a narrativa definitiva acerca de uma
geração privilegiada como “uma bonita história” que se passou em sua cidade ­”vale dizer,
Barcelona”.

Essa é uma meia verdade que mais obscurece do que ilumina.

MEIA VERDADE

É certo que alguns dos mais destacados nomes do movimento fixaram residência na
cidade catalã. O colombiano Gabriel García Márquez (1927-­2014) e o peruano Mario
Vargas Llosa, porém, mudaram-­se para Barcelona depois de publicarem obras que
possibilitaram a emergência do boom, respectivamente, “Cem Anos de Solidão” (1967) e
“A Cidade e os Cachorros” (1963).

Esse simples dado cronológico é importante porque ajuda a nuançar a ideia de que o
boom tenha surgido a partir de uma bem-­sucedida estratégia de mercado, liderada por
uma agente literária de dimensões míticas ­Carmen Balcells­ e divulgada por poderosas
editoras espanholas, destacando­se o empenho de Carlos Barral, da Seix Barral.
Sem dúvida, Barcelona, com sua importante indústria editorial, teve um papel catalisador,
como continuaria tendo, inclusive na promoção do último grande fenômeno literário latinoamericano
­o chileno Roberto Bolaño (1953-­2003), cujo êxito internacional foi favorecido
pela atuação decidida de Jorge Herralde, editor da Anagrama. Contudo, recorde­se que
“Cem Anos de Solidão” saiu inicialmente na Argentina, pela Editorial Sudamericana.

E não é tudo.

O mexicano Carlos Fuentes (1928-­2012), nome incontornável na história do boom, nunca
morou em Barcelona; além disso, seu romance “La Región Más Transparente” foi lançado
em 1958 ­uma década antes do êxodo latino-­americano à cidade catalã. Sem negligenciar
a energia de Balcells e a rede transnacional proporcionada pelas editoras espanholas, o
boom possui uma arqueologia própria, que precisa ser reconstituída.

Vejamos.

Melhor: consultemos os arquivos de Fuentes, que se encontram na coleção de
manuscritos e livros raros da Biblioteca Firestone, da Universidade de Princeton, nos
Estados Unidos. A importância desse acervo pode ser avaliada pelas palavras de José
Donoso (1924-­96), destacado autor chileno e responsável pelo primeiro relato sobre o
movimento, “Historia Personal del Boom” (1972): “Carlos Fuentes foi o primeiro agente
ativo e consciente da internacionalização do romance hispano-­americano da década de
1960”.

O autor mexicano morreu em 15 de maio de 2012, e duas caixas de seu acervo ­as de
número 305 e 306­ somente poderiam ser abertas dois anos após sua morte. O conteúdo
dessas caixas é decisivo para a reconstrução da pré­história do boom, pois guardam a
correspondência de Fuentes com Donoso, García Márquez e Julio Cortázar, além de
incluir nomes como Octavio Paz, Guillermo Cabrera Infante, Roberto Fernández Retamar e
Elena Poniatowska.

A leitura cruzada desse material estimula novas abordagens do boom: trata­se de
combinar a releitura dos romances com o estudo detalhado da correspondência e da
recepção crítica ­e vale recordar que, entre muitos outros acervos, a Biblioteca Firestone
também abriga os arquivos de Vargas Llosa, Donoso, Jorge Edwards e Sergio Pitol.
Ora, Xavi Ayén parece acreditar que uma sucessão de “acasos” teria resultado em “algo
que chamaremos boom”. A correspondência de Carlos Fuentes permite supor o contrário,
na medida em que sugere um esforço deliberado para a criação de um novo lugar para o
autor latino­americano.

INTENCIONAL

A melhor maneira de entender essa dimensão consiste em acompanhar as iniciativas de
Fuentes nesse sentido.

A primeira carta trocada entre Fuentes e Julio Cortázar (1914-­84) foi iniciativa do
mexicano. Em 16 de novembro de 1955, convida o escritor argentino para um projeto
comum: “Suponho que já estará em suas mãos o primeiro número da ‘Revista Mexicana
de Literatura’: nos honraria contar com a sua colaboração para um dos futuros. Todos
conhecemos sua qualidade de escritor; por Ema, sua qualidade de amigo. Contar com o
senhor renderia esta dupla colheita”.

Apesar do cerimonioso emprego do pronome de tratamento “senhor” (no original espanhol
referido pelo “usted”), que perduraria por algum tempo, a colaboração começou de
imediato e nunca foi interrompida: Cortázar respondeu no dia 21 de dezembro, enviando
um conto para publicação. E, a partir desse momento, a correspondência se transformou
num laboratório de ideias, discussões literárias e, sobretudo, inaugurou um espaço de
leitura nada cordial da obra do outro. Esse ponto é fundamental: a franqueza crítica é a
marca­d’água do núcleo duro do boom.

Foi assim que, em carta de 7 de setembro de 1958, Cortázar não hesitou em criticar
duramente a estrutura do romance que lançou internacionalmente o nome de Fuentes, “La
Región Más Transparente”. No juízo do argentino, que ainda não era o autor de “O Jogo
da Amarelinha” (1963), Fuentes “incorreu no magnífico pecado do homem de talento que
escreve seu primeiro romance”, isto é, “colocou um mundo em 500 páginas, concedeu­se
o prazer de combinar o ataque com o gozo, a elegia com o panfleto, a sátira com a
narrativa pura”. E seguia: “Não tenho o preconceito dos ‘gêneros literários’: um romance
sempre é um baú no qual colocamos um pouco de tudo. Porém, Carlos, a não ser para os
que conhecem como o senhor o seu México, todo o princípio do livro (…) provoca muito
cansaço”.

Fuentes acatou as ressalvas, e suas palavras não foram protocolares. Pegue­se a carta
enviada ao argentino em 17 de maio de 1972:
“(…) Aguilar começa a publicar todas as minhas obras; como se trata do que os saxões
chamam ‘definitive edition’, desejo que conte com os melhores elementos críticos e, para
isso, peço sua autorização para incluir a maravilhosa carta que você escreveu em 1958 (já
se passaram 14 anos!) sobre ‘La Región Más Transparente’. Você se recordará que é uma
carta crítica e, para mim, um supremo exemplo do que deve ser o exercício crítico em
nossos países.”

O circuito criado pelo intenso carteio não apenas antecedeu ao boom como também
ajudou a detoná­lo. Antes de conquistar o público, os autores submeteram­se a uma crítica
interna de grande alcance. Em cartas memoráveis, Fuentes e García Márquez discutiram o
processo de escrita de “Cem Anos de Solidão”. No dia 15 de abril de 1966, Fuentes não
disfarçou seu encantamento: “Suas primeiras 70 páginas de CEM ANOS DE
SOLIDÃO são magistrais (…). Que voo, mestre, que sabedoria, que humor! (…) A América
Latina, culturalmente, passou da utopia da fundação à epopeia da encarnação e desta ao
mito do re­conhecimento, da re­conquista: suas páginas são as três coisas, a totalidade do
nosso mundo”.

Além disso, inúmeros projetos foram articulados por meio dessa troca de opiniões.
No âmbito do boom, muitos romances discutiram a figura do ditador latino­americano. Por
exemplo, Mario Vargas Llosa lançou “Conversa no Catedral” (1969); Augusto Roa Bastos
produziu “Eu, o Supremo” (1974); Alejo Carpentier escreveu “O Recurso do Método”
(1974); Gabriel García Márquez publicou “O Outono do Patriarca” (1975).
Simples coincidência? Ou teria sido uma iniciativa comum? Uma missiva de Fuentes,
enviada a Cortázar em 6 de maio de 1967, permite um esclarecimento definitivo:
“Escrevo para você em acordo com Mario Vargas. Há pouco, em Paris, Mario e eu falamos
com entusiasmo do ‘Patriotic Gore’ de Edmund Wilson e pensamos que nossos países
prestavam­se muito a uma visão desse tipo. Elaborando a ideia, pensamos num volume
coletivo que, com o título de ‘Los Benefactores’, ‘Los Padres de la Patria’, ou algo similar,
reunisse a crônica negra dos nossos patriarcas inverossímeis: como diz Mario, uma
espécie de ‘vidas paralelas’ grotescas”.

Esta carta é preciosa, já que permite acompanhar, passo a passo, os primórdios da
formação de um projeto coletivo específico: o romance do ditador. Em sentido amplo, o
próprio boom pode ser relido nessa mesma chave.

García Márquez respondeu a consulta com entusiasmo. Eis a carta que remeteu a Fuentes
em 5 de junho de 1967.

“Mestre querido, a ideia é boa e é necessário levá­la adiante. Acredito, isso sim, que se
deve escrever, sem exceção, sobre um tirano de seu próprio país. Assim, se dispõe de
maior autoridade, mais direito, e há menos inconvenientes para chegar aonde se deve.”
No dia 12 de julho, o futuro autor de “O Outono do Patriarca” voltou ao tema: “Sobretudo,
que seja um ditador para cada país. Enfim, o mais importante é que o projeto vai
adquirindo uma forma estupenda”. De fato, pois, se o livro coletivo nunca veio à luz, em
compensação, uma série de romances fundamentais conheceu sua gênese nessa troca de
cartas.

Em 24 de novembro de 1970, dirigindo­se a García Márquez, Fuentes voltou à carga,
imaginando outra tarefa coletiva.

“Acaba de passar por México Jorge Lavelli com uma proposta indecorosa (…). Produzir
uma grande revista musical latino­americana, de conteúdo crítico e político (…). Pensamos
que a revista pode ser feita por meio de esquetes (…). E a melhor maneira de fazê­lo é
recorrer a você, Mario, Julio, Alejo para a redação dos esquetes e as sugestões musicais.”
No fundo, desejava­se ampliar ao máximo o público leitor: esse era o sentido dos esforços
dos protagonistas do boom. Em janeiro de 1967, como se intuísse o êxito que aguardava
“Cem Anos de Solidão”, que seria lançado em maio do mesmo ano, García Márquez
escreveu a Fuentes.

“O romance latino­americano bateu todos os recordes de venda no ano passado na
Colômbia (…). Os livros mais vendidos foram ‘A Cidade e os Cachorros’, ‘O Jogo da
Amarelinha’ e ‘A Morte de Artemio Cruz’… Também em primeiro lugar ficaram ‘O Século
das Luzes’ [de Alejo Carpentier] e os meus. Isto quer dizer que nosso público está
respondendo muito bem.”

Em breve, não apenas o público latino­americano, mas, num diapasão que surpreendeu a
todos, Macondo conquistaria o mundo. A tal ponto o projeto triunfou que, em carta de 2 de
dezembro de 1967, García Márquez pôde afirmar.

“‘Cem Anos’ continua vendendo como salsicha e já sai a quarta edição. Claro que isso me
alegra, porém me alegra mais que a América Latina se tenha convertido subitamente em
um dos grandes mercados de livros do mundo. Para mim, o famoso boom não é tanto um
boom de escritores, mas um boom de leitores. Que maravilha!”

E o Brasil? Em de maio de 1970, Nélida Piñon disse tudo em carta a Mario Vargas Llosa,
definindo­-se como “uma escritora brasileira, deste país surpreendentemente marginalizado
do maravilhoso processo de conquista internacional, que ora invade a América hispânica”.
A autora de “A República dos Sonhos” (1984) destacou-­se pela criação de vínculos sólidos
e permanentes com o universo hispano-­americano. Por isso, em seu livro, Xavi Ayén
principia o capítulo em que fala das mulheres escritoras em um grupo de homem
dedicando cinco páginas à sua residência em Barcelona. A história familiar da escritora
ajuda a entender esse laço, mas não explica a força de sua presença, construída por meio
de um intercâmbio sistemático e produtivo com diversos autores dos países vizinhos.

Não terá chegado a hora de emular esse gesto, inaugurando uma nova era de diálogo com
as literaturas hispano-­americanas?
JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA, 50, é professor de literatura comparada da Uerj.
Seu texto foi escrito durante período como pesquisador e professor visitante no
departamento de língua e cultura hispânica e portuguesa da Universidade de Princeton.

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