Como heavy metal é essencial em minha vida

Ainda no começo da pandemia, coisa de março, abril do ano passado, retomei as brincadeiras com o violão. Cordas quebradas, tarraxas enferrujadas, um desalinho só, ele estava num quarto recebendo poeira e maresia fazia anos. Até que o desespero do isolamento me levou ao grande Cacá Veloso, meu quase vizinho, indicado pelo amigo Cleo Lima, com a ideia de pagar por um trato no instrumento. Gastei 25% do que pagaria em um novo do mesmo padrão (meia boca) e ganhei mais uma companhia nessa maluquice que vivemos. Junto com meu filho Ernesto (4), meu violão ajudou a sustentar o baixo astral dos últimos meses.

Desde meus 12 anos, tenho violão em casa, mas nunca estudei em escola ou com professor particular. Resolvi fazer a educação fundamental com aulas no Youtube, do simples dedilhado às palhetadas roqueiras que me seduzem desde garoto. Diariamente, eu fazia três sessões de 30min de exercícios para fortalecer as duas mãos. Logo vi evolução e me empolguei. Viciei em aulas online e vídeos de violonistas e guitarristas famosos. Foi quando surgiu Kiko Loureiro e o Megadeth. Vi suas videoaulas, as faixas que gravou para entrar na banda e, óbvio, apresentações ao vivo de um dos principais grupos da história do heavy metal, em que um brasileiro é o principal guitarrista. Foi meu momento eureca.

Daí surgiu o estalo, a fagulha para reacender uma chama que carrego desde a adolescência: a paixão por rock, sobretudo sua versão mais ‘amplificada’. Ao começar a entender os mecanismos de um instrumento, a técnica, a capacidade física e mental para executar tais sons, me encantei com bandas que negligenciei por anos – conhecia uma faixa, um disco, mas de forma superficial.

Uma ideia que defendo: como o free jazz, as versões mais agressivas do heavy metal precisam de ‘ajustes’ na moleira para serem degustados. Quem escuta Ornette Coleman pela primeira vez acha horrível, uma junção de barulhos atonais, sem melodia, sem um andamento, um compasso, um ritmo claro para guiar a audição, só ruídos. Aí você pesquisa o assunto e começa a entender o que o texano fazia no saxofone, que os fraseados existem, só que dispersos pela tormenta sincopada de cada instrumentista, dando a noção de que cada um está imerso em um solo alheio ao tema central. Cabe a você juntar as partes e entender o rumo da coisa. E isso só acontece com algum estudo, com interesse em destrinchar o ‘quebra-cabeça’ sonoro.

Penso que acontece o mesmo com música extrema. O ouvinte primário diz: “Isso é puro barulho, gritaria, espancamento de instrumento desses maloqueiros. Isso não é música”. E muitas vezes ele está certo, tem muita porcaria sendo feita (em todos os gêneros musicais, não?). Mas na hora que você consegue sublimar a resistência aos vocais e distorções mais nervosas (sobre vocais guturais, em vários casos, também uma técnica aprimorada, teste gritar a plenos pulmões por 2min, pra ver o que sobra de sua voz) e observa o que fazia um Chuck Schuldiner, por exemplo, a coisa muda de história. Assim como o free jazz, o metal extremo requer esforço do ouvinte (e, claro, rebeldia na veia), uma suspensão de dogmas, preconceitos e ignorâncias, para aquela energia toda ser absorvida.

Interlúdio provocativo: você, leitor incipiente de romances, contos e poemas, já foi pra cima de “Ulisses”, de James Joyce, “Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar ou “Avalovara”, de Osman Lins? Sem textos anexos, alguém curte aquilo? Sem pesquisa sobre os autores, os detalhes das citações, das referências, são romances que podem traumatizar os desavisados. Faço a mesma comparação com música extrema.

Um segundo momento eureca veio com a receptividade das postagens ‘metaleiras’ que tenho feito no Substantivo Plural. Impulsionado pelo contato com amigos, colegas e conhecidos em um grupo do WhatsApp da galera das antigas do heavy metal natalense, voltei a me inteirar sobre a cena de nossa cidade e vi o quanto tem gente correndo com projetos interessantíssimos, gente que está na batalha há 20, 30 anos. Como a famosa fala de Antonio Candido sobre a obrigação de conhecermos e gostarmos da literatura brasileira, por ser a nossa, a que temos, em detrimento das mais ‘desenvolvidas’, ou sedutoras, do Hemisfério Norte, passei a observar as bandas de Natal com carinho, e fui pego de surpresa em várias ocasiões.

Pelo número de acessos das postagens com novidades das bandas potiguares neste portal, percebo uma boa quantidade de gente interessada no tema. O que não foge da proposta central do Substantivo: tratar da cultura da margem, do gueto, das minorias, do underground; seja ao falar de uma mulher interiorana com 70 anos de idade cantando romances ibéricos acompanhada por um mero ganzá, ou só no gogó mesmo; seja pra mostrar jovens poetas que publicam livros e zines na cara e na coragem para compartilhar dores e amores da vida; seja pra falar de uma galera já não tão cabeluda assim fazendo som urbano e contemporâneo de primeira na terra do sol.

Encerro esta nota, meu mosh textual, com a certeza de que temos muito a falar sobre heavy metal e os demais subgêneros da música pesada/extrema/barulhenta (chame como quiser, mas escute-a!) neste espaço. Preparem suas cabeças, que bateremos juntos com frequência. No mais, seek and destroy!

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ao topo