Como ler um livro num mundo cheio de distrações?

Por Tim Parks
Tradução Adriano Scandolara
GAZETA DO POVO

Em ensaio para a New York Review of Books, o escritor e crítico Tim Parks analisa os obstáculos que um leitor precisa vencer toda vez que decide ler um livro

As condições de leitura de hoje não são as mesmas que tínhamos 30 anos atrás. A pergunta é: como a ficção contemporânea vai se adaptar às mudanças? Ela, afinal, vai ter de se adaptar. Nenhuma forma de arte consegue existir independentemente das condições em que é desfrutada.

Refiro-me aqui ao estado de distração constante em que vivemos e como isso afeta as energias exigidas para se enfrentar uma obra substancial de ficção – submergir no texto e depois voltar a ele de novo e de novo em várias ocasiões ao longo de um período de dias, semanas ou meses, sempre retomando o fio da meada da história ou das histórias, os padrões de referência interna, o lugar da obra dentro do contexto dos outros romances e, de fato, do mundo em geral. Cada leitor terá a própria noção de como as condições de leitura mudaram, mas segue aqui a minha experiência.

Ao chegar à pequena vila de Quinzano, na periferia de Verona, na Itália, 34 anos atrás, eu com meus 26, abandonando os amigos e a família no Reino Unido, desempregado e ainda sem publicar nada, sempre ávido para descobrir como esse ou aquele editor londrino reagiria ao que eu escrevia, eu tinha uma imensa curiosidade por notícias de qualquer tipo.

Ligações internacionais eram proibitivamente caras. Não tinha fax, só o correio normal. A cada manhã, o postino poderia vir e botar algo na caixa de correio no fim do jardim. Eu ficava escutando o som da moto chegando e subindo as curvas fechadas da vila. Às vezes, quando a caixa estava vazia, eu nutria a esperança de ter escutado errado, de que teria sido outra moto, não a do postino, e aí voltava para verificar uma hora depois, só para ter certeza. E de novo. E assim eu acabava passando uma hora com muita dificuldade para me concentrar e trabalhar direito. Você está obcecado, eu dizia a mim mesmo, enquanto ia verificar a caixa de correio vazia pela quarta vez.

Imagine uma mente como essa exposta às seduções do e-mail, da mensagem instantânea e do Skype, e de sites de notícias com atualizações constantes no próprio instrumento que você usa para trabalhar. No passado, após me satisfazer em saber que o carteiro tinha de fato vindo e ido embora, eu finalmente tinha o dia liberado para mim como um oceano de potencial inexplorado – para escrever (à mão), ler (no papel) e traduzir (numa máquina de escrever), para pagar as contas. Era até possível, naqueles dias, enxergar a leitura como um recurso para passar o tempo quando caía um temporal ou quando éramos forçados a ficar em casa por causa daquele calor asfixiante.

Agora, todos os momentos de leitura séria precisam ser conquistados e planejados com antecipação. No fim da década de 1990, traduzindo num computador com conexões frequentes (à época, pelo modem discado) para verificar o e-mail, eu me dei conta de que andava fazendo a maior parte da minha leitura a caminho do trabalho, numa das minhas duas ou três viagens semanais a Milão – duas horas de ida, duas de volta. Mais tarde, com a invenção de baterias melhores para os notebooks e o advento da conexão de internet móvel, esse espaço também foi ameaçado. A mente, ou ao menos a minha mente, pende demais para a comunicação, ou, se essa palavra for meio excessiva, à troca que há no contato com os outros.

Sabemos disso. Alguns têm maior resistência, outros menos. Ontem mesmo um jovem e inteligente aluno do doutorado me disse que seu objetivo supremo era se controlar para não olhar o e-mail mais de uma vez por hora, mas tinha sérias dúvidas de que conseguiria ter essa disciplina ferrenha no futuro próximo. No presente, era mais algo como uma vez a cada cinco ou dez minutos. Então, quando lemos, temos mais interrupções, mais pontos em que precisamos parar e recomeçar, mais informações vindo de outros lugares, menos refúgios onde a mente possa se acomodar. Não é só a interrupção em si o problema, mas, sim, o fato de que temos uma propensão à interrupção. Portanto, cada vez mais energia é necessária para manter contato com um livro, particularmente quando é longo e complexo.

É claro que livros longos continuam sendo escritos. Não terão fim. Veja o norueguês Karl Ove Knausgård [autor de Minha Luta, uma série autobiográfica em seis volumes e mais de 3 mil páginas]. As pessoas ainda se sentam no metrô com o interminável Senhor dos Anéis e todas as sagas de fantasia que agora preenchem as estantes de nossos filhos adolescentes. É certo que Cinquenta Tons de Cinza e as outras matizes todas acabaram sendo muito mais longos do que precisavam ser. E o mesmo vale para a trilogia Millenium, de Stieg Larsson. Nunca o leitor teve tanta disposição para se comprometer com um mundo alternativo por um extenso período de tempo. Mas, sem querer desrespeitar Knausgård, a textura desses livros parece ser radicalmente diferente da ficção séria do século 19 e começo do 20. Há um caráter martelador no romance contemporâneo, uma insistência e repetição que permitem ao leitor que aguente firme, apesar das interrupções frequentes às quais a maioria dos leitores comuns é vulnerável. O intrigante é que um autor como Philip Roth, que já fez reclamações públicas que as pessoas não têm “a concentração, o foco, a solidão ou o silêncio” necessários “para a leitura séria”, foi ele mesmo acusado de ter adotado um estilo martelante e coercivo, pelo menos nos romances mais longos.

É um trabalho difícil ler um romance literário anterior a 1980. Consideremos a seguinte frase do livro O Vilarejo, de Faulkner:

“Ele deitava em meio ao instante de despertar da vida miúda de que a terra fervilha, as frondes imóveis das relvas pesadas d’água pendendo na névoa diante de seu rosto em curvas negras e fixas, e com cada uma delas uma parábola da qual as gotas em marcha retinham em miúda magnificação as miniaturas rosadas da aurora, sentindo o cheiro e até o gosto do rescindir do celeiro, o rescindir do leite, a fluída fêmea imemorial, ouvir o plantar lento e o chape do sugar de cada casco fendido espalhando lama deliberadamente, invisíveis ainda na névoa ruidosa de coristas himenais.”

Esse é o tipo de complexidade que exige esforço para leitura. Chegar direto a esse trecho, de manhã cedo no metrô, por exemplo, talvez não seja o ideal e certamente irá levar a uma leitura diferente da que eu teria se chegasse ao mesmo trecho no embalo do que foi escrito antes. Por outro lado, se os momentos que eu reservar para leitura forem principalmente os do transporte público, porque esses são os únicos momentos em que não estou em cima de um teclado de computador, eu perco o controle para decidir em que ponto parar. Posso estar bem no meio da fluída fêmea imemorial quando a voz do metrô anunciar que chegamos ao Picadilly Circus ou à Times Square. Depois, quando recomeçar a leitura, vou ter que ver o quanto preciso me recontextualizar e quanto vou ter que reler para enfrentar esse instante outra vez.

Voltando um pouco mais no tempo, aqui temos Dickens numa única frase de Nosso Amigo Comum:

“Tendo descoberto a pista para resolver o grande mistério de como as pessoas elaboram suas maquinações para poderem viver além dos próprios meios, e tendo trabalhado em demasia com suas velhacarias como legislador em delegação da Universidade pelos eleitores puros de Pocket-Breaches, ocorrerá na semana que vem que Veneering aceitará os Chiltern Hundreds, de modo que o advogado sob confiança da Britânia outra vez aceitará os Pocket-Breaches Thousands, e que Veneerings irá se aposentar e se mudar para Calais, onde viverá com a renda dos diamantes da Sra. Veneering (nos quais o Sr. Veneering, como o bom marido que era, havia de tempos em tempos investido somas consideráveis), e, no que diz respeito a Neptune e os outros, antes que Veneering se aposentasse do Parlamento, a Câmara dos Comuns era composta dele e dos seiscentos e cinquenta e sete mais velhos amigos que ele teve no mundo.”

Esse trecho aparece no fim de um romance de 800 páginas. É essencial que o leitor tenha em mente todo tipo de referências anteriores e mais algum conhecimento do sistema parlamentar inglês e do jargão da época. O mundo de Dickens é um mundo em que é preciso submergir por períodos não menores do que meia hora, do contrário, a mente irá sofrer para se acostumar à aura de tudo e à mudança constante entre vozes diferentes e recursos retóricos. É infinitamente divertido.

Voltando ao século 20, aqui, para os conhecedores da prosa fatalmente elaborada, temos Henry Green descrevendo um cemitério em seu romance Back:

“Pois, subindo e trepando em torno dessas árvores do luto, havia rosa atrás de rosa atrás de rosa, enquanto, aqui e ali, o ramo sobrecarregado com a massa de flores, uma guirlanda viva jazia caída sobre uma guirlanda de pedra, ou numa caixa de um mármore mais frio que esse dia, ou nas flores de papel cobertas de geada que, sob o vidro, marcavam cada leito da terra onde os mortos amados encorajavam a vida acima na grama verde, nos ciprestes e nas rosas alegres e vívidas que, tão imóveis quanto esta tarde escura, encaravam quem quer que as admirasse, ou baixavam as cabeças, ou se maculavam, para morrerem quando chegasse sua vez.”

Chegando assim logo na página de abertura, essa frase serve como um aviso severo para que não imaginemos que este seja um livro que dê para pegar e largar com facilidade. Há frases na obra de Green que parecem hipnotizar a mente e convidar a três ou quatro leituras antes de podermos prosseguir. “Separe um tempo tranquilo para mim”, ela clama, “vamos entrar num estado de espírito totalmente diferente”.

“Num bom romance – e isso mal precisa ser dito – toda palavra pesa”. Isso nos diz Jay Caspian Kang, com a ortodoxia de texto sagrado da crítica literária, numa postagem recente no blog da New Yorker. Honestamente, eu me pergunto se isso algum dia já foi, de fato, verdade: os autores com muita frequência publicaram, depois republicaram seus livros com todos os tipos de alterações, sem que a experiência do leitor fosse alterada radicalmente (pode-se pensar em Thomas Hardy, Lawrence ou Faulkner), ao passo que muitos leitores (incluindo eu próprio), no longo processo da leitura de um romance substancial, vão acabar simplesmente não registrando essa ou aquela palavra, ou então irão reler certos trechos quando sentirem que perderam o fio da meada após uma interrupção, alterando o equilíbrio de uma parte para outra, de modo que todos saímos de um mesmo livro com uma ideia bastante diferente de qual era a experiência pela qual passamos ao longo de umas cem horas de leitura.

Hoje, a declaração de Kang parece ser cada vez menos verdadeira. E arrisco ainda uma previsão: o romance da prosa altamente distinta e elegante, do cuidado conceitual e da complexidade sintática, tenderá a se subdividir em seções cada vez mais curtas, oferecendo quebras mais frequentes, para podermos dar pausas. O romance popular mais longo, ou o romance de arquitetura narrativa extensa, vai se tornar cada vez mais carregado de fórmulas repetitivas e retórica declamatória e coerciva para que fique cada vez mais fácil retomá-lo depois de uma interrupção – recuperar não tanto um fio da meada, mas um cabo firme de aço. Não há dúvidas de que haverá exceções preciosas. É bom ficar de olho nelas.

 

Tim Parks

O britânico de 60 anos é professor de Literatura e Tradução na Universidade de Comunicação e Línguas (IULM) de Milão, na Itália, e autor dos livros Meus Vizinhos Italianos e Uma Educação à Italiana, ambos publicados no Brasil pela Publifolha. Ele mantém um blog sobre livros e leitura, com textos em inglês, dentro da New York Review of Books: http://www.nybooks.com/blogs/nyrblog/

NYRB

A revista The New York Review of Books, ou simplesmente a “Review”, surgiu em 1963 durante uma greve dos gráficos em Nova York, que deixou vários jornais fora de circulação. O editor Jason Epstein viu na greve uma oportunidade de ganhar dinheiro com os anúncios das editoras que continuavam a publicar livros e não tinham onde divulgar os lançamentos. Barbara, a mulher de Jason, e Bob Silvers eram os editores da revista que se tornou referência de coragem (por dizer verdades que ninguém mais dizia) na imprensa dos Estados Unidos e do mundo.

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