Como o acaso fez de Bartola um escritor

Costuma-se falar da “carreira” de escritor, do mesmo modo como se fala da carreira dos funcionários públicos, dos militares etc. Há, implícita aí, a certeza de que algo corre por sobre o fio do tempo, seguindo um ciclo que culmina com a aposentadoria – no caso dos funcionários públicos, inclusive o das armas. A “carreira” de um escritor não oferece um quadro tão nítido de ciclo a percorrer, de metas a cumprir culminando num previsível fim.

Seria mais adequado se falar na “carreira” que um escritor constrói, e o máximo de proximidade que ela permite com a noção de ciclo citada acima é que, ao invés de galgar postos e acumular benefícios, um escritor escreve livros, lança-os em eventos planejados para essa finalidade… E quase nunca se aposenta.

Nesse aspecto, a carreira do escritor Bartolomeu Correia de Melo, o Bartola, é um exemplo perfeito do escritor referido acima. Apenas paradoxalmente, a carreira de escritor de Bartola começou com a proximidade de sua aposentadoria como professor universitário do departamento de Química da UFRN. À medida que um profissional declinava, outro ascendia.

Resultou dessa progressão que o escritor começou a se impor ao professor. Agora que o escritor reina sem concorrência, pode-se falar que Bartola administra sua carreira de escritor com disciplina e método. Mas sem planos de aposentadoria…

Outro detalhe que chama a atenção, é que quase tudo que diz respeito à carreira literária de Bartola começou por obra do acaso, como ele confessou na entrevista publicada nesta TN no dia 20 passada, concedida à repórter Maria Betânia Ribeiro. Dentre casualidades outras, salientou o escritor o fato de ter nascido numa família de leitores, especialmente sua mãe, mas também o seu irmão, o poeta Paulo de Tarso Correia de Melo. A convivência com escritores e leitores de ficção se tornou algo familiar para ele desde muito cedo. Nesse ponto, sua trajetória de vida intelectual não difere substancialmente da de outros escritores, embora haja aqueles que se explicam por uma vertente mais “heroica”: os chamados “self-made writers”, escritores que se fizeram sozinhos, se é possível se falar assim. Minoritários, com certeza.

A certa altura da vida, após realizar uma carreira bem-sucedida no ensino superior, Bartola se perguntou: “por que não tentar escrever algumas das histórias que testemunhei ou me contaram (ou imaginei?) nas minhas andanças por Ceará Mirim e adjacências?”

Foi aí que o escritor realmente nasceu. Outro acaso se encarregou de conduzi-lo ao Olimpio dos escritores: a iniciativa do escritor Carlos-Newton Júnior de inscrevê-lo, sem que ele o soubesse, no concurso da União Brasileira de Escritores, seção pernambucana, iniciativa que culminou com Bartola arrebatando o primeiro prêmio com o livro Lugar de estórias, coleta meio ao acaso que ele havia de alguns dos contos que vinha escrevendo desde há alguns anos. De acréscimo, obteve ainda um contrato com a editora Bagaço, do Recife.

Um outro acaso o transformaria em best-seller de livros infantis, graças a um arquivo  eletrônico enviado para a Bagaço com contos do seu segundo livro, Estórias quase cruas, no qual constava um conto infantil que Bartola escrevera para os seus netos, mas que não pensava publicar.

Frente a tantas casualidades, pensamos que hoje Bartola já pode dispensar os serviços desse operoso e imponderável auxiliar. Referimo-nos ao seu terceiro livro de contos, Tempo de estórias, que ele lançará no dia 14 próximo, e que reúne mais quinze contos inéditos e cinco outros retirados do livro Estórias quase cruas, o qual que ele decidiu que não será mais reeditado.

Na orelha que escrevemos para esse livro, perguntamos: qual Bartola é o melhor? Será o dos contos novos ou o dos antigos? No fundo, trata-se de uma pergunta ociosa, tirante o fato de ser mais um estímulo motivador ao leitor. Porque é mais que evidente que a literatura que Bartola escreve há duas décadas com um estilo todo seu e uma arte toda própria dispensa estímulos. Fica então a provocação: qual Bartola é melhor: o de ontem ou o de hoje? Responda o leitor”.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

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